13/06/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

Como os chineses vão destruir a economia global

Publicado em 18/12/2015 12:00 - Rodrigo Amém

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Dezembro é um mês de fanfarronices. Gente moralmente deplorável faz discurso sobre compaixão e amor ao próximo. Nós, autoindulgentes, nos comprometemos com planos frágeis de vida nova. Estelionatários aparecem no horário nobre para predizer o futuro. E o Roberto Carlos canta para aposentados na TV. Tradições, meu caro. Tradições.

Pois eu também vou brincar de Mãe Diná em clima de réveillon. A economia global vai desmoronar com choro e ranger de dentes. Só que não será em 2016. E nem será culpa do PT. Explico.

Todo mundo sabe que a China é o pais mais populoso do mundo, não é? E que sua força de trabalho gigantesca transformou não apenas o país numa potência, mas assumiu a função de motor da economia global, graças à sede dos EUA por mão de obra barata. O que pouca gente sabe é que a força de trabalho chinesa (gente de 15 a 59 anos) atingiu seu pico. Não em 2015. Em 2011. E, de lá para cá, tem caído num ritmo de 3 milhões por ano.

Há quem diga que, em 2035, a China já não será capaz de pagar pelos seus cidadãos aposentados, que dobrarão de número até lá. A gigantesca população da China está envelhecendo e é incapaz de se renovar a tempo.

É que o governo Chinês instituiu uma famosa política de um filho por família, em 1979. A cultura chinesa pós-feudal e machista, combinada com essa lei, promoveu um verdadeiro holocausto feminino. 

A economia global vai desmoronar com choro e ranger de dentes. Só que não será em 2016. E nem será culpa do PT.

Estima-se que, entre abortos, abandonos e infanticídios, algo como 160 milhões de mulheres foram "preteridas" pelas famílias chinesas, das formas mais horrendas possíveis. Para quem, como eu, não é bom com números e estimativas, basta dizer que os Estados Unidos têm o mesmo número de mulheres em sua população atual. 

Há algo entre 30 e 50 milhões de homens a mais na China. O resultado é uma população envelhecendo sem esposas, filhos ou família. É uma geração de trabalhadores solitários. Cidades inteiras onde quase não há mulheres. Quadrilhas estão sequestrando garotas na Rússia, Mongólia, Coreia do Norte e Vietnã para suprir as chamadas "vilas de solteiros" na China. A AIDS e DST crescem no país num ritmo assombroso. A situação é tão grave que alguns acadêmicos chineses já propõem a institucionalização da poligamia.

Os leitores mais bem informados sabem que o governo chinês reviu sua posição recentemente, autorizando as famílias a terem dois filhos. Charles Goodhart, da London School of Economics, acha que é tarde demais. "Eles mantiveram a lei por 15 anos a mais do que deviam, desastrosamente", afirma.

Essa bomba relógio que é a retração populacional da China tem até um nome drástico. Os especialistas a chamam de Penhasco Demográfico Chinês. O dia em que o país vai pular do penhasco não é exato, mas é próximo. Está previsto para 2028. E sem esse gigante impulsionando os bastidores da economia global, eu prevejo que finalmente saberemos o que é crise global de verdade.

Neste tom de esperança e otimismo, me despeço de vocês por 2015. Nos vemos no ano que vem. Boas festas.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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