Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Povos da Terra
Com 295 idiomas registrados e 433,9 mil falantes, especialistas defendem urgência em políticas públicas para preservação
Publicado em 03/11/2025 1:44 - Ava Rory
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
O Brasil tem hoje 295 línguas indígenas faladas em seu território, segundo dados inéditos do Censo 2022 divulgados pelo IBGE nesta sexta-feira (24). O número representa um aumento de 21 registros em comparação a 2010, mas esconde uma realidade preocupante: embora a quantidade de falantes tenha crescido em números absolutos — de 293,8 mil para 433,9 mil —, a proporção de indígenas que falam essas línguas caiu de 37,5% para 28,5% em 12 anos.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
O paradoxo entre o aumento do número de línguas identificadas e a redução proporcional de falantes reforça o alerta de especialistas sobre o risco de extinção de muitos desses idiomas. “É importante termos esses dados para o desenvolvimento da educação escolar indígena e para que as línguas sobrevivam e ultrapassem gerações, porque atualmente têm um sério risco de morrerem”, afirma o linguista e ativista Naldo Tukano, da Unicamp.
A língua mais falada do país é a tikuna, com 51.978 falantes. Em seguida vêm guarani-kaiowá (38.658) e guajajara (29.212). Completam a lista das dez mais faladas os idiomas kaingang, xavante, yanomami, sateré-mawé, nheengatu, munduruku e tukano.
Avanços e contradições
O levantamento identificou que 1.990 municípios possuem ao menos uma pessoa com dois anos de idade ou mais que fala alguma língua indígena. Em termos de diversidade linguística, os estados com maior concentração são Amazonas (168 línguas), São Paulo (131) e Pará (127).
Apesar da distribuição nacional, o uso dos idiomas não é homogêneo. Dentro das terras indígenas, a taxa de falantes subiu de 57,4% (2010) para 63,2% (2022), resultado atribuído tanto à melhoria na coleta de dados quanto ao fortalecimento de identidades culturais. Fora desses territórios, porém, o declínio do uso das línguas é mais acentuado.
A cidade de São Gabriel da Cachoeira (AM), considerada o município mais indígena do Brasil, registrou 68 línguas faladas. Em São Paulo, foram 78, e em Brasília, 61. O dado chama atenção, pois desmonta a ideia de que as línguas indígenas se restringem à Amazônia ou a regiões remotas. A presença significativa em centros urbanos também reflete a mobilidade forçada de populações indígenas — por migração, expulsões de território ou busca por acesso a serviços públicos.
Warao: migração e emergência linguística
Outro dado que chama atenção é o crescimento da língua warao, originária da Venezuela, hoje considerada a mais falada em estados como Piauí (195 falantes), Rio Grande do Norte (73) e Distrito Federal (156). No total, o IBGE identificou 5.055 falantes de warao no Brasil, sendo 4.398 em áreas urbanas — reflexo direto da crise migratória venezuelana e do deslocamento forçado de indígenas warao.
Roraima concentra o maior número de falantes dessa língua, com 1.817 pessoas. O caso revela como fluxos migratórios impactam o mapa linguístico do país e desafiam as políticas públicas que, historicamente, ignoraram as especificidades das línguas indígenas transfronteiriças.
Educação, alfabetização e português
Entre os indígenas com 15 anos ou mais que falam uma língua indígena, 78,5% são alfabetizados — índice inferior à média da população indígena geral, evidenciando desafios na interseção entre alfabetização, bilinguismo e acesso à educação de qualidade.
Por outro lado, caiu o percentual de indígenas com cinco anos ou mais que não falam português: de 17,5% (2010) para 11,9% (2022). No entanto, dentro das terras indígenas, a situação se inverte: o número de pessoas que não falam português subiu para 31%, o que pode ser visto tanto como uma ameaça à integração quanto como um sinal positivo de resistência cultural e preservação linguística.
Políticas públicas ainda são frágeis
O crescimento do número de línguas e falantes identificados é atribuído, em parte, à melhoria da metodologia do IBGE, que nesta edição do Censo buscou um recorte mais preciso. No entanto, a falta de políticas públicas efetivas continua sendo o principal obstáculo para a manutenção e revitalização desses idiomas.
Para Naldo Tukano, o desafio vai além da preservação: “A morte da língua vem através de ideias, de conceitos e modos de vida, e muitos indígenas abandonaram a língua. Quando se tem dado, se gera estatística. Com isso, é possível que indígenas reivindiquem políticas voltadas para essas línguas e para as populações falantes”.
Em sua comunidade, Naldo trabalha na criação de materiais didáticos, dicionários e programas de formação em língua tukano, que teve 14.044 falantes registrados. O objetivo é formar novos falantes e manter viva a oralidade ancestral, que, sem apoio institucional, corre sério risco de desaparecer em poucas gerações.
A urgência da preservação linguística
Relatórios da UNESCO alertam que pelo menos 43% das 6.000 línguas faladas no mundo estão em risco de extinção, sendo que as línguas indígenas são as mais vulneráveis. No Brasil, o Atlas das Línguas em Perigo (2010) já classificava mais de 110 línguas indígenas como ameaçadas, número que pode ser ainda maior hoje.
A diversidade linguística brasileira, reconhecida mundialmente, carrega não apenas formas de comunicação, mas visões de mundo, cosmologias e saberes ancestrais. Sua perda representa não apenas um empobrecimento cultural, mas também a violação de direitos coletivos assegurados pela Constituição de 1988, que reconhece os povos indígenas como detentores de línguas e culturas próprias.
A tarefa que se impõe, agora, é traduzir os dados do Censo em ações concretas: políticas de educação bilíngue, formação de professores indígenas, financiamento para produção de materiais didáticos e reconhecimento institucional das línguas como parte da riqueza cultural do país.
Sem isso, o aumento de registros pode ser apenas a fotografia de um processo de desaparecimento em curso — e não de resistência.
–
AVA RORY
É sociólogo e indígena da etnia Guarani e Kaiowá.
Leia outros artigos da coluna: Povos da Terra
Deixe um comentário