20/05/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

As vidas salvas pelo aborto

Publicado em 02/12/2016 12:00 - Rodrigo Amém

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Aborto é uma coisa horrível e extrema. Penso eu (do alto de todo meu privilégio de ser homem branco de classe média) que jamais faria um aborto. Claro, tenho a tranquilidade de fazer esta corajosa afirmação sabendo que, fosse o homem quem carregasse o filho, o aborto teria sacramento, santo padroeiro e drive through. Mas quis a biologia que este não fosse o caso. Posso, como todo homem, correr do filho e mandar um cheque, caso o juiz me ache. Caso contrário, o mundo é um moinho.

Isto posto, insisto ser contra o aborto e a favor do direito ao aborto seguro e descriminalizado. A razão é uma só: sou a favor da vida.

Abortos clandestinos matam 47 mil mulheres por ano, de acordo com a OMS. Um pouco mais que o número de mortes no trânsito brasileiro em 2015. Matam adolescentes pobres, em situação de miséria e abandono. O aborto legalizado salvaria mais vidas que o cinto de segurança e traria mais benefícios no combate à criminalidade que qualquer UPP. Na cauda longa, o aborto seguro seria uma das medidas mais humanas já implementadas pela sociedade brasileira. O que – sabemos – não é uma ótima base de comparação. Mas ponta do lápis, o aborto legalizado salva mais vidas do que sua proibição.

O direito à vida é, no final das contas, o direito de não ter a vontade alheia imposta ao seu corpo. Um direito que nossa sociedade não parece disposta a conceder às mulheres.

Mas aí entra aquele danadinho juízo de valor. Não é defender uma vida qualquer. A questão é defender a vida do "inocente". Uma afirmação carregada daquele conceito estranho de que quem faz sexo deve abrir mão da autonomia sobre o próprio organismo porque todo mundo já teve três semanas e todo mundo tem direito à vida.

Acontece que o direito à vida do feto não implica no direito de uso do corpo de outrem. Pessoas têm o direito de doar seus órgãos para salvar a vida de pessoas. Mas, pelo menos até onde eu sei, ninguém é obrigado a doar um rim, medula óssea ou mesmo sangue para uma criança já nascida. Mesmo em caso de vida ou morte do paciente (que provavelmente também é inocente, já que não fez sexo). Pelo contrário, tem muita gente de fé que prefere deixar inocente morrer para não contrariar as escrituras.

O direito à vida também não significa o direito a ameaçar a vida de uma outra pessoa. A gestação e o parto são processos que podem levar risco à vida da gestante. Particularmente de uma mulher desassistida de garantias mínimas de saúde e bem estar.

O direito à vida é, no final das contas, o direito de não ter a vontade alheia imposta ao seu corpo. Um direito que nossa sociedade não parece disposta a conceder às mulheres.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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