21/07/2024 - Edição 550

Meia Pala Bas

A Maldição do Isentão

Publicado em 28/07/2017 12:00 - Rodrigo Amém

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Se você é do tipo que nunca muda de ideia, as pessoas elogiam sua personalidade forte, sua convicção. Se você muda de ideia depois de considerar fatos, é como se você tivesse um problema de caráter.

Isso é abominável. Quase tão abominável quanto a necessidade de ter que expressar isso. Mudar de opinião é um ato de bravura. De integridade moral e honestidade intelectual. Significa que você considerou as informações e percebeu seu equívoco. Você está dizendo ao mundo: "Eu estava errado."

Permita-me reafirmar o óbvio que, infelizmente, é um tabu na sociedade de hoje: mudar de opinião é o que todo mundo devia fazer o tempo todo, sempre que confrontado com fatos que contradizem seu ponto de vista. Sua posição deve ser consequência dos fatos à mão, até que outros dados refutem os primeiros. E tudo bem se isso acontecer.

Mas não. Se você simplesmente considera a validade dos argumentos do outro lado, a internet tem um nome para você: o isentão.  

O cara está lá, pilhadão na sua treta online e você emerge das trevas das pradarias suíças com suas platitudes sobre as nuances da vida: "Não é bem assim", "Isso é uma generalização" ou o mais irritante "os dados mostram que não é tão simples". Nada é mais arrogante e insuportável do que interromper uma discussão ideológica com fatos. Às favas com os fatos, pensam os internautas envolvidos.

Mudar de opinião é o que todo mundo devia fazer o tempo todo, sempre que confrontado com fatos que contradizem seu ponto de vista. Sua posição deve ser consequência dos fatos à mão, até que outros dados refutem os primeiros. E tudo bem se isso acontecer.

Não tem para comunistas de iPhone, não tem para neonazista, nem para bolsomito ou fã do Justin Bieber. O ser humano mais ojerizado da internet é o isentão.

Essa é uma história de ódio tão antiga que começou no apocalipse. Não o da presidência do Trump ou do meteoro do Luan Santana. O Apocalipse de São João, 3:15-16. "Seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito". Ser isentão é pecado.

Não é de bom-tom não oferecer um posicionamento definido e imutável. As pessoas exigem um rótulo para saber como lidar com esse outro ser humano. Ninguém tem mais tempo ou paciência para as nuances, para a análise caso-a-caso. Todo mundo está perdido demais, não dá para perder uma oportunidade de validar sua visão do mundo. Esse é o papel do grupo social. Nós, da tribo, olhamos um para o outro e afirmamos: "estamos no caminho certo, não é pessoal?!" e todos respondem: "Claro! Não tem ninguém errado aqui!" E você olha do outro lado da cerca: "E aqueles caras ali?" Seu grupo grita: "todos os outros são marginais, tolos ou malucos!" É um alívio, a vida na bolha.

Como o importante é ter razão, e não estar certo, ser isentão não serve a um específico propósito social, tanto para um lado da balança quanto para o outro. É só uma inconveniência, uma perda de tempo.

Considere, por exemplo, o feminismo, que é obviamente a busca pela igualdade social entre homens e mulheres. Todo mundo é a favor de que homens e mulheres sejam tratados de forma igualitária, não? Não. Como a esquerda tem precedência histórica nesta luta, quem é de direita sofre uma pré-disposição a ser contrário ao feminismo. Por isso temos mulheres que se opõem ao feminismo. Não tem nada a ver com o princípio de igualdade em si. É apenas uma bandeira do outro lado da cerca. E então nós demonizamos seus defensores, expressamos indignação por seletos casos de extremismo no movimento, fazemos tentativas ridículas de "rebranding" declarando a preferência pelo "humanismo". "Moça, não sou obrigada a ser feminista". Não, claro que não é. Mas isso não significa que sua identidade social não te obrigue a assumir posições ainda piores, sem que você se dê conta disso. Ouvi algum cristão defendendo pena de morte?

Mas tanto as mulheres chovinistas quanto os vingadores de Jesus têm um inimigo em comum. O isentão. O que está de um lado da cerca num assunto. E do outro no tópico seguinte. Esse sim, merece a cadeira elétrica e ganhar apenas a metade do salário pelo mesmo trabalho. Afinal, mudar de opinião é coisa de mau caráter.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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