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Eles em Nós
Qualquer um que lhe disser que há um único motivo para esta gigantesca vitória de Trump/derrota de Harris está mentindo, deliberada ou ignorantemente
Publicado em 08/11/2024 3:20 - Idelber Avelar
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Na dúvida sobre qual imagem usar para ilustrar o post, acabei optando por um jpeg que destaca a demografia do voto, porque serve para lembrar ao Partido Democrata e seus ideólogos que a vantagem desta tunda inédita é que, desta vez, eles podem xingar todos os eleitores!
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Se organizar direitinho, tem xingamento de racista e misógino para todo mundo, de todos os gêneros e etnias, porque afinal de contas todo mundo votou em Trump em porcentagens superiores às tradicionais ou esperadas. O Partido Democrata conseguiu perder até entre latinos e árabes.
A cada oito anos, mais ou menos, quatro a mais aqui, quatro a menos ali, em cada derrota do Partido Democrata, repete-se na universidade e na imprensa, com tediosa previsibilidade, o mesmo macabro ritual.
Acadêmicos e jornalistas, sejam epígonos, sejam líderes do Partido Democrata, recusam-se a explicar as eleições olhando para seus próprios candidatos, para a mensagem que eles transmitem, e para a realidade realmente existente. Preferem os dedos apontados e os epítetos dirigidos ao eleitorado, com a maturidade de uma criança de 12 anos de quem roubaram um pirulito, como se fossem donos dos votos dos outros. Analisar as coisas com mapas eleitorais, claro, é mais difícil.
Em defesa de Kamala Harris, diga-se que provavelmente nada do que a candidata fizesse teria adiantado. Foi uma campanha que começou atrasada, a candidata foi forçada a se lançar porque o candidato natural, atual ocupante do cargo, estava gagá demais para fazer campanha e concorrer, e ela é a atual vice desse presidente, ou seja, ela não tinha como se distanciar de um governo que é muito impopular.
Portanto, qualquer um que lhe disser que há um único motivo para esta gigantesca vitória de Trump/ derrota de Harris está mentindo, deliberada ou ignorantemente. Basta olhar os mapas eleitorais. Sobre eleições dos EUA, não vale a pena ouvir quem não é capaz de dissertar sobre as diferenças entre Michigan e Wisconsin, ou quem nunca analisou um mapa eleitoral da Pensilvânia. É perda de tempo.
Em Michigan, por exemplo, o financiamento da máquina de guerra israelense foi decisivo para a derrota, e basta saber o básico da história das eleições ali para ver isso. Em áreas como Dearborn, houve viradas de 20, 30 pontos em relação ao voto árabe-americano de 2020.
“Ignorantes não sabem que com Trump será pior para os palestinos,” brada o professor universitário ou comentarista da imprensa privilegiado que não tem a menor consideração real pelo sofrimento dos palestinos. O fato é que a pior operação de limpeza étnica da mais longeva ocupação militar da era moderna foi realizada sob o governo Biden-Harris, e financiada por ele. Esse é o fato. O que o eleitorado faz com esse fato é algo que o analista/ acadêmico/ jornalista deveria explicar, em vez de julgar.
Mas seria um erro dar peso demais ao tema israelo-palestino. Acredito que ele foi decisivo mesmo apenas em Michigan. Nos outros lugares, Kamala perderia do mesmo jeito. Foi uma vitória de goleada, no campo inteiro, e isso tem razões tanto político-econômicas como culturais.
Sobre estas últimas, Raul Juste Lores escreveu um texto brilhante no UOL, em que diz: “A esquerda abandonou a retórica de ascensão coletiva e abraçou a defesa exclusiva de pequenos grupos. Muita gente se sente de fora. Para muito americano pobre, líder democrata virou sinônimo de rico alienado. Assim como para muito brasileiro, nossa esquerda é grã-fina do Leblon ou da Vila Madalena (e não estão totalmente errados).”
Só alguém deliberadamente cego pode olhar para os EUA hoje e não enxergar que, do ponto de vista da massa de gente que vive entre os dois litorais, há enorme sensação de estar sendo excluído, julgado e estigmatizado pela retórica dominante na imprensa (CNN, MSNBC, CBS, ABC, NYT etc.) e nas universidades de elite. Essa sensação de exclusão é o berço do trumpismo.
A diferença neste pleito é que esta coalizão, com base nos brancos de classe trabalhadora rural e semi-urbana do miolão dos EUA, expandiu-se para vencer a eleição ou exceder as expectativas em todas as demografias. Nas demografias que são consideradas pêndulo (decisivas e indicadoras) nos EUA, Trump venceu em todas, por exemplo entre católicos e mulheres brancas de classe média alta (as chamadas soccer moms). A outra demografia que tradicionalmente é considerada pêndulo nos EUA os democratas já perderam não é de hoje: os homens brancos de classe trabalhadora, entre os quais o trumpismo já vence de goleada há tempos.
Sabendo que o direito ao aborto é um direito popular nos EUA (mais gente apóia do que se opõe), o Partido Democrata mobilizou-se para colocar nas cédulas provisões pró-direito ao aborto, na esperança de que isso aumentasse o comparecimento às urnas para Harris.
Deu certo para o direito, deu errado para a candidata. Em 8 dos 10 estados em que isso ocorreu, a medida foi aprovada, mas o comparecimento às urnas para Harris foi abaixo do esperado. De novo, entre analistas/ acadêmicos/ jornalistas democratas, a resposta foi acusar o eleitorado, como se o eleitor não pudesse apoiar o direito ao aborto e, ao mesmo tempo, privilegiar outros critérios na hora de escolhar presidente.
No campo econômico, dá para cravar que, mesmo a inflação tendo sido debelada, ela foi, sim, um fator decisivo. Eu sei que, para um brasileiro da minha geração, que conviveu com hiperinflação, os níveis dos EUA nos últimos anos são ínfimos. Mas também me lembro do terror que sente o pobre com alterações de preços minimamente além do esperado. E aqui, de novo, a estratégia democrata foi atirar no mensageiro, pondo o dedo na cara de quem apontava que o problema era real e existia.
Para concluir, não tenho como não dizer uma palavra a quem acredita na polícia como resolução dos problemas da política: a estratégia de vocês fracassou.
Durante 4 anos, os democratas colocaram nas mãos de procuradores, juízes, acusadores, delegados etc. o poder de palavra final acerca de quem o eleitor poderia escolher. Usaram o conceito de “crime” da forma mais naturalizada possível, como se esse conceito fosse a palavra definitiva sobre o bem e o mal (imagine um professor universitário que leciona Foucault gritando “É um absurdo Trump poder concorrer, é um criminoso condenado!”; isso acontece, acreditem).
Abusaram das hipérboles, como a de chamar um motim de 90 minutos (insuflado pelo presidente, sim, o que é grave o suficiente) de “insurreição armada.”
Abusaram das fake news do bem, como a “interferência russa” nas eleições de 2016, um dos maiores colapsos jornalísticos do século XXI, conhecido como Russiagate.
Quando amigos acadêmicos comemoraram a condenação judicial de Trump em Nova York, eu fiz a observação (e eles se lembrarão) de que eles estavam comemorando o ato que sacramentava a derrota deles na eleição de 2024. Não era difícil prever. Eleitor (e eleitor americano, em especial) detesta tapetão, detesta o juiz determinando, antes do jogo, quem é que pode jogar. A resposta nesses casos costuma ser devastadora.
Muito mais se poderia dizer, mas enfatizo, então, minha recomendação, em uma época na qual algo bem mais prazeroso que a política ocupa a minha pesquisa.
Sobre os EUA, leiam gente que: 1) sabe navegar em um mapa eleitoral dos EUA; 2) tenta explicar com argumentos e fatos o que fez o eleitorado, em vez de pontificar, dedo em riste, sobre o que eleitorado deveria ter feito para não ser xingado ou julgado com algum epíteto.
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IDELBER AVELAR
Professor titular na Universidade Tulane (EUA), é autor de “Alegorias da Derrota” (UFMG), “Figuras da Violência (UFMG) e “Eles em Nós; Retórica e Antagonismo Político no Brasil do Século 21 (Record). Prepara um livro sobre a memória e o futebol.
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