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Eles em Nós

24h horas sem Fredric Jameson

Idelber Avelar fala sobre a influência do crítico literário e teórico marxista

Publicado em 23/09/2024 4:27 - Idelber Avelar

Divulgação

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24 horas do falecimento de Fredric Jameson (1934-2024) e eu ainda sem palavras: como escrever o obituário do professor que mais te influenciou na vida?

Fredric Jameson não foi apenas o maior crítico literário e o marxista mais brilhante das últimas décadas. Foi, talvez, o último grande literário no sentido completo do termo: um modelo de erudição já não disponível para nós, de gerações subsequentes.

Era um professor impressionante: em geral de sandálias, carregando pilhas de livros em bolsas de supermercado, passava pelos grandes nomes da filosofia ocidental citando obra e trecho com uma memória exata, sem afetação, com naturalidade. Gente do mundo todo se reunia em suas aulas: Fred, como fazia questão de ser chamado pelos alunos, sempre teve uma relação muito próxima com a América Latina, com a China, com o Japão e com a Rússia. Além, claro, de trazer consigo toda a formação em francês e alemão que trouxe de seus períodos de estudo na Europa.

Sua obra é tão vasta que qualquer intento de resumi-la em um post ou artigo está fadado ao fracasso. Com “Marxism and Form” (1971), fez o grande balanço do pensamento humanista de corte marxista no século XX. Com “The Political Unconscious” (1980), escreveu a resposta marxista definitiva à onda estruturalista das décadas anteriores. Com “Postmodernism, or the Cultural Logic of Late Capitalism” (1988), tomou um fenômeno que parecia pairar no ar, a “pós-modernidade”, e criou-lhe o mais acabado marco de análise. E assim sucessivamente até os anos mais recentes, com cada livro transformando totalmente o panorama de estudo do objeto.

Fred tinha a característica de tomar um autor ou um tema e fazer sobre ele o melhor estudo já feito. Foi assim com Brecht, foi assim com Sartre, foi assim com o modernismo. Era um marxismo heterodoxo, cheio de respiros, que não se furtava ao embate com o melhor pensamento contemporâneo. A generosidade com que acolhia alunos como eu, críticos e distantes do marxismo, era um exemplo para todos os que passamos por Duke naquele momento.

A foto que segue foi tirada recentemente, na minha última visita a ele, depois da pandemia, quando eu já sabia que este dia chegaria em breve. Viveu uma vida bem vivida e será honrado por muita gente, por gerações e gerações. Minhas condolências a Susan, à família toda, e aos camaradas ex alunos, que mesmo de cabelos brancos nos sentimos hoje meio órfãos.

IDELBER AVELAR

Professor titular na Universidade Tulane (EUA), é autor de “Alegorias da Derrota” (UFMG), “Figuras da Violência (UFMG) e “Eles em Nós; Retórica e Antagonismo Político no Brasil do Século 21 (Record). Prepara um livro sobre a memória e o futebol

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Idelber Avelar


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