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Campo Grande

Vacinação em Campo Grande avança, mas cobertura segue distante do ideal

Capital enfrenta desinformação, escassez de leitos e sobrecarga do sistema de saúde

Publicado em 05/06/2025 11:06 - Semana On

Divulgação Marcelo Camargo - Abr

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Campo Grande alcançou 41% de cobertura vacinal contra a gripe entre o público-alvo, após um mês do decreto municipal de emergência, tornando-se a capital brasileira com melhor desempenho na campanha de imunização em 2025. Apesar do avanço, o índice revela uma realidade preocupante: mesmo na liderança nacional, a cidade está longe da meta de 90% estipulada pelo Ministério da Saúde, enquanto a média nacional se arrasta em torno de 32%.

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A informação foi divulgada pela secretária municipal de Saúde, Rosana Leite, durante audiência pública de prestação de contas do primeiro quadrimestre, realizada na Câmara Municipal no dia 30 de maio. Segundo ela, o decreto de emergência, publicado em 26 de abril, foi fundamental para conscientizar a população, embora não tenha reduzido expressivamente a demanda nas unidades de saúde. “É um índice que coloca Campo Grande entre as capitais com melhor desempenho”, afirmou.

A medida foi adotada em meio a uma escalada nos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), que pressionou o sistema de saúde local. O decreto autorizou contratações emergenciais, remanejamento de servidores e compras sem licitação — medidas que, embora eficazes em curto prazo, escancaram a fragilidade estrutural da saúde pública diante de surtos previsíveis.

Emergência e reação

O avanço da cobertura — que saltou de 19,31% para 41% em pouco mais de um mês — foi impulsionado por ações como o “Dia D”, realizado em 10 e 11 de maio. Com 15 pontos de vacinação espalhados pela cidade, incluindo drive-thrus, a mobilização buscou romper a barreira do acesso físico ao imunizante. A vacinação segue disponível nas 74 unidades de saúde durante a semana, com plantões nos fins de semana.

Apesar da liderança, a capital do Mato Grosso do Sul ainda simboliza um fracasso coletivo. A meta de 90% de cobertura para os grupos prioritários — estabelecida para garantir imunidade de rebanho e prevenir internações — continua distante, inclusive nos melhores cenários.

Entre a desinformação e a sobrecarga

A baixa adesão à vacina contra a gripe reflete uma combinação tóxica de desinformação, negacionismo e erosão da confiança pública nas instituições de saúde. “Vivemos uma crise de confiança institucional. Quando a ciência perde espaço para as crenças individuais e para a desinformação digital, a saúde pública sofre”, analisou a socióloga Ilona Szabó, em entrevista à BBC Brasil em 2022, referindo-se ao impacto da pandemia na cultura vacinal.

A disseminação de fake news e o enfraquecimento de campanhas educativas têm minado o que já foi um dos maiores orgulhos do sistema público de saúde brasileiro: o Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado em 1973, que consolidou o Brasil como referência internacional em campanhas de vacinação em massa.

Hoje, no entanto, as coberturas vacinais têm despencado. A gripe, apesar de sua banalização, pode ser letal — especialmente entre crianças, idosos e pessoas com comorbidades. “A vacina contra a gripe salva vidas. Mas, para surtir efeito coletivo, é preciso escala. E essa escala depende de informação e confiança”, alertou a médica Margareth Dalcolmo, da Fiocruz, ao El País Brasil em 2023.

Estrutura hospitalar sob estresse

Além do desafio da cobertura vacinal, Campo Grande enfrenta outro problema estrutural: o déficit crônico de leitos hospitalares. Segundo a secretária Rosana Leite, dos 1.719 leitos existentes, apenas 409 pertencem à rede pública — os demais estão sob gestão da saúde complementar. “Nossas UPAs e CRSs ocupam o papel de unidades internadoras”, lamentou.

Entre janeiro e abril de 2025, a rede municipal registrou 923.941 atendimentos ambulatoriais e 19.383 procedimentos hospitalares, dos quais 10.756 foram cirurgias. Os números revelam um sistema operando no limite — realidade que se agrava com o aumento de doenças respiratórias no outono.

Esse desequilíbrio entre rede pública e privada não é exclusivo da capital sul-mato-grossense. Como aponta a pesquisadora Lígia Bahia, da UFRJ, “o SUS é universal no discurso, mas desigual na prática”, com uma estrutura que depende excessivamente da contratualização com o setor privado, o que compromete a equidade no acesso à saúde.

Imunizar é resistir

A vacinação, nesse contexto, não é apenas um ato médico. É um gesto político, coletivo, de solidariedade e resistência. Em uma sociedade marcada por desigualdades históricas, o ato de vacinar-se ultrapassa a esfera individual. É uma resposta civilizatória a uma era de pós-verdade e desinformação.

Campo Grande mostra que, mesmo em tempos de retrocesso, avanços são possíveis com decisão política e mobilização. Mas o caminho é longo, e o desafio é nacional. Como já escreveu Hannah Arendt, “o que realmente importa é que o mundo permaneça habitável”. Nesse sentido, garantir a saúde coletiva é preservar o direito de existir em comum.

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