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Campo Grande

Transporte coletivo sem qualidade coloca Campo Grande na contramão do ‘Dia sem Carro’

De 450 ônibus, só 3 circulam com ar condicionado ligado na capital

Publicado em 22/09/2023 11:35 - Midiamax

Divulgação Reprodução Redes Sociais

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Em 22 de setembro é celebrado o “Dia Mundial Sem Carro”, a data foi criada para provocar uma reflexão sobre o uso excessivo de automóveis. No entanto, com quase um veículo para cada habitante, Campo Grande está distante do ideal de sustentabilidade. Até mesmo aqueles que não possuem veículo próprio aspiram pelo dia que não precisaram mais depender do transporte público.

Nas ruas de Campo Grande a resposta de quem depende do transporte público é sempre a mesma, se pudessem nunca mais usariam o ônibus.

“Uso o ônibus diariamente, tanto para lazer quanto para ir e voltar do trabalho. Os problemas são inúmeros: pagamos caro, os ônibus são velhos, demoram para passar, além do calor insuportável nos dias quentes. Se pudesse, trocaria sem pensar duas vezes”, afirma Florença Ruis, de 52 anos.

Moradora do bairro Santa Emilia, Yasmin Mariana Resende, 24, enfrenta a jornada de seis ônibus diários para se locomover entre casa e trabalho. Para ela, o principal problema está na desassistência de quem mora nos bairros, que contrastam com os investimentos feitos no centro da cidade. Enquanto o centro recebe novos veículos e pontos equipados, nos bairros mais distantes o povo sofre com a precariedade e frota insuficiente.

“Tem rotas que mal têm ônibus, enquanto em outros locais, como o centro, sobram ônibus. O horário de espera é muito longo; se perco um, espero mais de uma hora até o próximo, e às vezes fico em pontos sem nenhuma segurança”, relata.

Para a aposentada Seni Grati, 61, Campo Grande não é uma cidade que incentiva alternativas de transporte sustentáveis, segundo ela para que as pessoas optem pelo transporte público ainda é necessário investir em muitas melhorias.

“Em cidades mais desenvolvidas, como Curitiba, eu pegaria ônibus sem problemas. Sei que é melhor para o meio ambiente, mas em Campo Grande a situação é difícil. O serviço é tão precário que só uso em emergência. Hoje, precisei pegar três ônibus só para ir ao médico porque não tinha ninguém para me levar”, ressalta.

Mobilidade Urbana

As demandas de quem vivencia transtornos diários, evidenciam a necessidade urgente de melhorias no sistema de transporte público em Campo Grande. Para o vereador e presidente da comissão de mobilidade urbana da Câmara Municipal, Professor André Luis, a resistência da população ao uso de transporte coletivo está diretamente ligada a falta de investimentos.

“Não temos uma política de estímulo ao uso do transporte público aqui. Hoje, Campo Grande é a cidade com a maior proporção de veículos por habitante, o que indica que o serviço não atende à população”, enfatiza o parlamentar.

Em relação ao custo pago pelos usuários, o vereador observa que a baixa demanda de passageiros contribui para o aumento das tarifas.

“A concessionária é remunerada com base na venda de passagens. Quando o número de passageiros é elevado, a concessionária obtém lucro; caso contrário, a prefeitura precisa subsidiar. Dado que a qualidade é precária, a população prefere investir em veículos particulares”, explica.

Campo Grande têm quase um veículo por habitante

Dados do Detran-MS apontam que Mato Grosso do Sul possui uma frota atual de 1.798.452 veículos. Deste total, 35%, o que corresponde a 645.165 veículos, estão em Campo Grande. Levando em conta que a Capital possui 897.938 habitantes, a proporção é de aproximadamente 0,77 veículos para cada morador da cidade. Isso significa que há quase um veículo para cada morador da cidade.

Se comparado ao ano anterior, a frota de veículos subiu 4,84%, com 82.966 novos veículos nos últimos doze meses. Em 2022, o Estado contava com 1.715.486 veículos, sendo 617.691 somente em Campo Grande.

Tarifa zero

O vereador Professor André Luis destaca que, para que as pessoas passem a considerar o ônibus como uma alternativa viável, é necessário implementar políticas públicas de incentivo, como transporte rápido, preços acessíveis e veículos de boa qualidade.

“Para tornar o transporte mais rápido é preciso investir em linhas exclusivas, corredores de ônibus, que é algo que está sendo implantado aos poucos em Campo Grande”, enfatiza.

Para o parlamentar, uma proposta que poderia mudar a percepção ruim dos campo-grandenses, seria estabelecer horários específicos com tarifa zero, uma vez que o valor da passagem pago em Campo Grande, R$ 4,65, é um dos mais caros do país.

“Se tivesse tarifa zero em alguns horários, como das 19h às 23h, quem usa o ônibus entre 17h e 19h vai esperar um pouco mais para não pagar a tarifa. Isso diminui a lotação nos horários de pico e estimula que as pessoas usem os ônibus. O ideal seria um mês de tarifa zero”, disse o vereador.

Baita calor

Campo Grande bate recordes de calor durante essa semana e os passageiros de ônibus se viram como podem para amenizar a situação. Dos 450 ônibus que circulam na cidade, 40 são equipados com ar-condicionado, segundo o Consórcio Guaicurus, mas apenas três rodam ‘fresquinhos’.

Com isso, o jeito encontrado por muitos é improvisar. Um passageiro foi flagrado essa semana com um guarda-sol dentro do ‘busão’.

Levantamento realizado pelo grupo Ligados no Transporte expõe uma situação ainda pior. Dos 450 ônibus que compõem a frota atual da cidade, apenas 16 possuem ar-condicionado, o que representa aproximadamente 3,56% do total, segundo o grupo especializado no transporte de Campo Grande.

No entanto, a situação se torna ainda mais crítica quando apenas três veículos circulam com o ar ligado, ou seja, menos de 1% da frota.

“Apenas 16 ônibus possuem ar-condicionado e somente três deles circulam com o ar ligado. Além disso, há dois veículos do finado ‘executivo’ e foram descaracterizados e transformados em veículos convencionais, mas eles também circulam com o ar desligado desde a sua reativação”, explica Gabriel Santos, analista de suporte do grupo Ligados no Transporte.

Dos três veículos que circulam com o ar-condicionado ligado, apenas um deles opera em uma linha fixa, o ônibus 224, que faz o trajeto Santa Luzia/Centro. Os demais veículos não têm uma rota fixa e atendem às linhas 073 (Av. Euler De Azevedo / T. Júlio De Castilho), 086 (Shopping CG / T. Júlio De Castilho), 414 (Centro / Nova Campo Grande) e 070 (T. General Osório / T. Bandeirantes).

População se protege como pode

Em meio a desassistência do Consórcio Guaicurus, empresa responsável pelo transporte público, a população recorre aos meios mais inusitados para se proteger da onda de calor. Na tarde desta quarta-feira (20), uma imagem divulgada na página ‘Segredos do Busão’ viralizou nas redes sociais ao mostrar uma passageira da linha 081 com um guarda-sol aberto em pleno transporte coletivo.

Embora a cena possa parecer um tanto cômica, a publicação gerou indignação entre os moradores de Campo Grande, que há anos vêm clamando por melhorias no sistema de transporte público. Comentários na publicação questionaram a ausência do ar-condicionado, que havia sido prometido pela administração municipal.

Para Florença Ruis, 52, pegar ônibus em dias normais já é um desafio, mas no calor a situação se torna insustentável.

“Uso o ônibus diariamente, e no calor, fica muito quente. Nos horários de pico, é quase impossível; estão sempre cheios e não têm ar-condicionado. Fico triste como cidadã, porque pagamos caro por um serviço tão ruim”, relata.

Passageiros chegam a passar mal de calor

Com o calor excessivo, os ônibus viram uma sauna, principalmente quando cai uma chuvinha pela tarde e as janelas precisam ser fechadas. A sensação térmica de calor é tão alta que alguns passageiros chegam a passar mal dentro dos ônibus.

A doméstica, Eliane Primo de Souza, 41 anos, já presenciou mais de uma vez situações em que algum passageiro desmaiou dentro do veículo, e nesses casos, o motorista é orientado a parar o ônibus para prestar os socorros e chamar um ônibus de reforço para conduzir os demais passageiros a seus destinos.

“Eu pego ônibus 6h20 para vir trabalhar. O ônibus vem lotado, a gente vem ma porta, não consegue nem passar na catraca. E às vezes, como está aquele calor de manhã, tem pessoas que passam mal dentro do ônibus. O motorista para o ônibus, chama o SAMU, e a gente é obrigado a esperar o reforço”, conta.

Segundo Gabriel Santos, diariamente a página Ligados no transporte recebe relatos de passageiros que passaram mal devido ao calor intenso dentro dos ônibus.

Nova frota substituiu antigas ‘sucatas’

Em junho deste ano, uma nova frota de 71 ônibus substituiu as antigas “sucatas” que estavam em circulação em Campo Grande. Os veículos entregues pela prefeitura de Campo Grande foram divididos em dois tipos: curto, com 11,6m, e padrão, com 12,6m. Os antigos eram divididos em curtos do mesmo tamanho da nova frota e alongados com 13,2m. Com isso, para cada veículo padrão, a capacidade de transporte é reduzida.

Os modelos OF-1519 possuem 38 assentos e capacidade para até 70 passageiros. No entanto, os ônibus com idade entre 10 e 14 anos, que até então operavam em Campo Grande, eram dos modelos OF-1722 M e OF-1418, com capacidade para até 90 passageiros.

Apesar dos novos veículos em circulação, Campo Grande ainda conta com 182 ônibus ‘vencidos’ que estão prestes a completar 10 anos de serviço.

O Jornal Midiamax tem denunciado o descumprimento contratual por parte dos empresários de ônibus em Campo Grande, que mantêm uma frota velha e em estado precário. Em 2022, a idade média dos ônibus em operação na cidade superava os 8 anos, enquanto a concessão permitia uma idade média de 5 anos.


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