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Campo Grande
Sem resposta do poder público, campo-grandenses tapam buracos com entulho e terra
Publicado em 27/10/2025 10:12 - Semana On
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Cansados de esperar por um serviço público que não chega, moradores de Campo Grande têm assumido, com as próprias mãos, a função de tapar os buracos que tomam conta das ruas da cidade. Reportagem do G1MS mostra que, na Travessa Waldeck, bairro Carandá Bosque, comerciantes e vizinhos passaram a despejar pedra, terra e entulho nas crateras que comprometem o tráfego de veículos e o dia a dia dos moradores. A prefeitura, por sua vez, afirma que segue um cronograma permanente de reparos — mas não apresentou qualquer calendário atualizado das ações.
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A dentista Caroline Moreira, que também possui um consultório na mesma rua onde mora, relata o descaso. “Começamos por conta própria a colocar entulho, pedra e terra. Os vizinhos ajudam, porque quanto maior o buraco, mais água e sujeira acumula. Está horrível”, desabafa. A comerciante Rivanilda Lopes confirma que há meses tenta, sem sucesso, uma resposta oficial. “Os vizinhos disseram que já quebraram uns três carros. Eu protocolei pedido na prefeitura, mas até agora nada.”
As reclamações se multiplicam enquanto o poder público patina. O canal 156, central de atendimento da prefeitura, tornou-se mais uma etapa frustrante para quem busca solução. As ruas esburacadas não apenas dificultam o tráfego, mas agravam riscos de acidentes, prejuízos materiais e danos à saúde pública.
Mobilidade urbana comprometida e custos crescentes
Para o engenheiro civil David Alex Arancibia, especialista em pavimentação urbana, a falta de manutenção compromete diretamente a segurança viária e onera o poder público a longo prazo. “O motorista perde qualidade na mobilidade, precisa reduzir a velocidade e frear com frequência. Isso causa desgaste, desconforto e falta de segurança para quem está no veículo”, afirma.
Segundo ele, buracos não tratados a tempo tornam-se problemas estruturais maiores, cujo custo de reparo pode dobrar ou triplicar. Além disso, acidentes relacionados a falhas no asfalto sobrecarregam o sistema público de saúde. Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) já indicava em 2020 que 28% dos gastos com acidentes de trânsito urbanos estão associados a falhas de infraestrutura viária, como ausência de sinalização e pavimentação inadequada.
Investigações e contratos sob sigilo
A crise na pavimentação de Campo Grande não é apenas operacional. Conforme revelou o G1, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul apura 12 ações de improbidade administrativa ligadas ao serviço de tapa-buracos. Há ainda uma ação criminal em curso, sob sigilo, tramitando nas Promotorias de Justiça do Patrimônio Público.
Diante da pressão popular e do desgaste político, a Câmara Municipal solicitou formalmente à Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep) informações sobre as empresas contratadas para os serviços nas sete regiões da cidade. O pedido inclui também o cronograma atualizado das ações e a lista de contratos em vigor — especialmente diante da aproximação do período de chuvas, quando os buracos costumam se multiplicar.
Apuração da TV Morena com fontes ligadas à prefeitura revelou que as empresas responsáveis pelo serviço estão com pagamentos atrasados, o que explicaria a paralisação ou lentidão nas operações. Ainda assim, a prefeitura não confirmou oficialmente os atrasos e tampouco apresentou um novo plano de contingência.
A resposta oficial
Em nota, a prefeitura alegou estar promovendo uma “ampla reforma administrativa” e admitiu dificuldades financeiras. “O serviço de tapa-buracos é permanente e segue um cronograma previamente definido (…). Em alguns períodos pode haver maior ou menor intensidade na execução, de acordo com diversos fatores, entre eles disponibilidade de matéria-prima, condições climáticas, estado das vias e possibilidades de custeio”, diz o comunicado. A íntegra está disponível no site da prefeitura.
Apesar da promessa de que os pagamentos aos fornecedores serão honrados, a ausência de informações claras e a recusa em divulgar o cronograma dos serviços colocam em xeque a gestão da infraestrutura urbana da capital.
Cenário que se repete
Campo Grande não é exceção. A precarização da manutenção viária é uma realidade em diversas cidades brasileiras, reflexo direto da má gestão orçamentária, da terceirização sem controle efetivo e da falta de transparência nos contratos públicos. Em vez de tapa-buracos, o que se vê é um modelo de gestão que remenda as demandas da população com promessas genéricas e respostas protocolares.
Enquanto isso, moradores seguem expostos aos riscos — físicos, econômicos e administrativos — de uma cidade que transfere ao cidadão a responsabilidade por aquilo que deveria ser garantido como direito básico.
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