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Campo Grande

Servidores de Campo Grande ficam sem aumento pelo 3º ano

Adriane Lopes sancionou aumento escalonado para si mesma e altos cargos

Publicado em 11/06/2025 10:09 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O funcionalismo público de Campo Grande, composto por cerca de 40 mil servidores, enfrentará o terceiro ano consecutivo sem o reajuste linear previsto na Constituição Federal. O anúncio da prefeita Adriane Lopes (PP), feito ontem (10), veio semanas após a sanção de uma lei que aumentou o próprio salário e o de altos cargos da administração municipal. A medida expõe uma assimetria gritante entre o tratamento dado à elite do funcionalismo e à base da máquina pública, aprofundando o desgaste social e moral da gestão municipal às vésperas de um ano eleitoral.

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Adriane Lopes teve seu salário elevado de R$ 21.263,62 para R$ 26.943,05, valor que chegará a R$ 31.915,80 até fevereiro de 2027, conforme a Lei nº 7.398/2025. O aumento também beneficia a vice-prefeita Camila Nascimento (PP), secretários, dirigentes de autarquias e aproximadamente 500 servidores com remunerações vinculadas ao teto municipal — como auditores fiscais, procuradores, profissionais da saúde e diretores de escola.

Enquanto isso, o restante do funcionalismo — mais de 98% do quadro — amarga uma defasagem acumulada. A inflação entre 2022 e 2024 gira em torno de 20%, segundo dados do IPCA/IBGE. Isso significa que, na prática, os salários encolheram. Desde a posse de Adriane Lopes, não houve um único reajuste linear para todos os servidores, o que contraria o princípio constitucional de revisão geral anual (art. 37, inciso X, da Constituição Federal).

“Estudo técnico” e justificativas protocolares

A prefeita, que há um mês havia sugerido que ainda avaliava a concessão do reajuste, alegou nesta terça que “esse ano não teremos reajuste para todas as categorias”, justificando a decisão com base em um suposto “estudo técnico”. Na prática, o único movimento concreto da gestão no campo da política salarial foi o encaminhamento, em regime de urgência, do projeto que beneficiou os altos salários com efeito retroativo a fevereiro.

A secretária municipal de Fazenda, Márcia Helena Hokama, estimou o impacto financeiro total do reajuste escalonado em R$ 95 milhões até 2027 — R$ 32,8 milhões em 2025, subindo para R$ 73 milhões em 2026 e alcançando R$ 95 milhões no último ano de mandato da prefeita. Mesmo assim, a gestão sustenta que os gastos com pessoal permanecerão abaixo do limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal, mantendo a receita corrente líquida comprometida em 51% nos dois primeiros anos e em 52,3% em 2027.

Política salarial como retrato de desigualdade institucional

A distinção entre os servidores que recebem reajustes generosos e os que enfrentam congelamento salarial expõe uma lógica que não é nova na política brasileira: o privilégio como critério de governabilidade. Como destaca o sociólogo Jessé Souza, em A Elite do Atraso, “os verdadeiros parasitas do Estado não são os pobres, mas as elites que operam o sistema em seu próprio benefício”. O caso de Campo Grande se encaixa com precisão nessa leitura.

A escolha de reajustar apenas o topo da pirâmide institucional, enquanto a base segue ignorada, reforça uma concepção patrimonialista do poder público — onde o Estado é administrado como se fosse propriedade privada do governante. “Esse tipo de postura mina a confiança na política e fortalece o cinismo institucional”, avalia o cientista político Cláudio Couto, professor da FGV-SP, em artigo publicado no Le Monde Diplomatique Brasil.

O precedente da ausência

Vale lembrar que o último reajuste linear ocorreu ainda na gestão de Marquinhos Trad (PDT), com um aumento de 10%. Desde então, os salários seguem congelados, enquanto o custo de vida dispara. O próprio vereador Marquinhos, agora na oposição, denunciou que o novo reajuste só contempla 1,66% do funcionalismo, composto justamente pelos que já ocupam cargos mais bem remunerados.

“É um tapa na cara do servidor comum”, declarou o parlamentar em sessão da Câmara. “Estão usando um argumento técnico para camuflar uma decisão política de autoproteção.” A fala resume o sentimento que se alastra entre professores, técnicos administrativos, agentes de saúde e outros profissionais que mantêm a cidade funcionando sem a contrapartida do poder público.

A erosão da legitimidade

Ao se conceder aumentos enquanto nega o direito constitucional à correção inflacionária dos demais servidores, a gestão Adriane Lopes fragiliza não apenas sua imagem administrativa, mas a própria legitimidade da política como instrumento de mediação entre interesses. A decisão sugere que os compromissos com a responsabilidade fiscal e com a austeridade são seletivos — aplicáveis à maioria, mas não à cúpula.

No plano simbólico, essa escolha se traduz em alienação institucional: uma liderança política que perde a capacidade de representar o conjunto da sociedade e passa a governar para um grupo restrito. Como alertava o filósofo alemão Jürgen Habermas, em sua teoria da ação comunicativa, “quando o poder se desconecta do consenso e passa a se autojustificar apenas por sua própria lógica, ele se torna ilegítimo, ainda que legal”.

A quem serve o poder?

Mais do que uma questão orçamentária, o congelamento salarial dos servidores públicos de Campo Grande é uma questão de escolha política — uma escolha que revela prioridades, valores e concepções de justiça. Enquanto isso, os servidores, empurrados para a invisibilidade orçamentária, seguem esperando por um reconhecimento que, até agora, tem se limitado ao discurso.

Ao concentrar aumentos em cargos de elite e deixar a maioria dos trabalhadores públicos sem reajuste, Adriane Lopes não apenas repete uma prática recorrente nas engrenagens do poder brasileiro: ela a escancara. E o faz sem disfarces, sem constrangimento — apenas com a frieza técnica de quem acredita que governar é calcular impacto financeiro, não impacto humano.

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