Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Campo Grande
Audiência expõe falhas estruturais, rombo bilionário e omissões da Prefeitura
Publicado em 02/03/2026 12:52 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
A crise na saúde pública de Campo Grande deixou de ser denúncia pontual para se consolidar como quadro estrutural de colapso assistencial. Superlotação nas UPAs, falta recorrente de medicamentos, desabastecimento de insumos básicos, paralisações na Atenção Primária e falhas graves na regulação de leitos foram expostas, de forma direta, em Audiência Pública realizada nesta segunda-feira (2) na Câmara Municipal.
SIGA A SEMANA ON NO YOUTUBE, INSTAGRAM, FACEBOOK E WHATSAPP
O debate reuniu pacientes, trabalhadores, gestores hospitalares, representantes do Ministério da Saúde, Conselho Municipal de Saúde e vereadores — e evidenciou um cenário em que a gestão municipal aparece como epicentro da crise.
A audiência, proposta pela vereadora Luiza Ribeiro, discutiu a necessidade de um “pacto institucional para desestrangular a municipalização do SUS” em Campo Grande. A parlamentar classificou o momento como de “grave crise estrutural e assistencial, marcada por reiteradas denúncias”. A formulação não é retórica: os relatos e os números apresentados sustentam a gravidade.
Leitos ociosos e gestão ineficiente
À frente do Fórum das Entidades Representativas dos Usuários de Saúde, Sebastião Arinos Junior trouxe um dado emblemático: há leitos disponíveis que não são contratualizados por falta de recursos. Segundo ele, o Hospital Universitário possui 30 leitos vagos. Também citou capacidade subutilizada no Hospital de Câncer e no Hospital do Pênfigo.
O problema, portanto, não é apenas físico ou estrutural. É financeiro e administrativo.
O diretor do Hospital Regional, Paulo Eduardo Limberger, reforçou que a regulação — mecanismo central do SUS — é regra básica do sistema. “Nossa guerra é diária”, afirmou, ao descrever a sobrecarga da urgência e emergência.
Já a Santa Casa enfrenta há dois anos dificuldades sem revisão contratual. O diretor João Carlos Marchezan alertou para o risco de intervenção precipitada, lembrando a experiência traumática de 2005, quando a dívida saltou de R$ 37 milhões para R$ 160 milhões. O recado foi claro: intervenção sem planejamento pode agravar o problema.
Falta do básico: servidores compram papel higiênico
Se a rede hospitalar sofre por financiamento e contratualização, a Atenção Primária enfrenta escassez elementar.
O presidente do Conselho Municipal de Saúde, Jader Vasconcelos, afirmou que 2025 foi “o ano mais difícil” em 14 anos de prefeitura. Segundo ele, faltam medicamentos e insumos, e servidores estão arcando com itens básicos como papel higiênico e material de limpeza para manter as unidades funcionando.
Esse dado não é apenas administrativo — é sintoma de desorganização sistêmica.
A jornalista Ana Rita Amarilia, paciente diabética, relatou episódios recorrentes de falta de insulina e, em situações ainda mais absurdas, entrega do medicamento injetável sem a seringa correspondente. O desabastecimento não é episódico; tornou-se rotina.
O secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, reconheceu que a prioridade da gestão é regularizar o estoque de medicamentos. “O que mais acomete os cidadãos é a falta, a sensação de falta de assistência”, afirmou. Segundo ele, 33% do caixa da Prefeitura é investido em saúde, percentual acima do mínimo constitucional de 15%. Ainda assim, declarou ser insuficiente.
Restos a pagar e ausência de transparência
O superintendente do Ministério da Saúde em Mato Grosso do Sul, Ronaldo Costa, trouxe um dado preocupante: há R$ 1,3 bilhão em restos a pagar do orçamento da saúde de 2025 para 2026. Informou ainda que a União repassou R$ 763 milhões e o Estado R$ 278 milhões.
“Não consigo enxergar aqui os recursos do Município”, afirmou, ao comentar as despesas liquidadas.
A fala expõe um ponto sensível: a execução orçamentária municipal.
A vereadora Luiza Ribeiro criticou a falta de clareza nas prestações de contas. “Temos que entender o que fizeram com o dinheiro, quanto dinheiro tinha e quanto foi aplicado”, cobrou.
Sem transparência detalhada da execução, o debate sobre subfinanciamento torna-se incompleto.
Produção elevada, concentração na alta complexidade
Os números apresentados pela Secretaria mostram alta produção na Atenção Primária no terceiro quadrimestre de 2025:
1.082.481 visitas domiciliares (ACS)
541.644 atendimentos individuais
895.824 procedimentos
73.320 atendimentos odontológicos
Total: 2.593.269 procedimentos
Na produção hospitalar, foram 28.348 procedimentos, totalizando R$ 74,4 milhões. A Atenção Especializada Ambulatorial registrou 1.531.982 procedimentos, somando R$ 48,8 milhões.
Já o investimento municipal no Componente Básico da Assistência Farmacêutica foi de R$ 22,6 milhões em 2025.
O paradoxo é evidente: alta produção formal, mas percepção generalizada de desassistência. Isso sugere gargalos logísticos, falhas de planejamento e má distribuição de recursos.
Violência contra trabalhadores e desgaste institucional
O representante do Conselho de Psicologia, Walkes Vargas, relatou aumento de agressões verbais e situações de violência contra profissionais de saúde. A tensão social, segundo ele, decorre da frustração do paciente que não encontra atendimento ou insumos básicos.
O vereador Landmark reforçou o desgaste psicológico dos servidores e pediu política interna de valorização e cuidado com o RH.
Quando o sistema entra em colapso, o elo mais visível — o trabalhador da ponta — torna-se alvo.
Judicialização e sequestro de recursos
Outro ponto apresentado pelo secretário foi o impacto da judicialização. Em 2025, quase R$ 38 milhões foram sequestrados judicialmente do Fundo Municipal de Saúde, principalmente para custear cirurgias.
A judicialização é fenômeno nacional. Como aponta o jurista Lenio Streck, “quando o Judiciário passa a substituir o gestor público na formulação de políticas, há distorção institucional”. Contudo, a judicialização também costuma ser sintoma de falha administrativa prévia — quando o cidadão não encontra resposta no sistema regular.
Intervenção: instrumento extremo
A proposta de intervenção estadual ou federal foi defendida por representantes de entidades, mas tratada com cautela pelo secretário Marcelo Vilela, que a classificou como instrumento excepcional.
O Conselho Municipal de Saúde concedeu prazo até maio para avaliação de melhorias antes de avançar no debate sobre intervenção, atendendo solicitação do Ministério Público Estadual.
A intervenção, prevista na legislação do SUS, é medida grave. Pressupõe incapacidade comprovada de gestão local. Não é solução mágica — mas o simples fato de estar no centro do debate revela o grau de deterioração institucional.
A raiz do problema
A Constituição Federal de 1988 estabelece que a saúde é direito de todos e dever do Estado. O SUS opera sob lógica tripartite: União, Estado e Município. É fato que há subfinanciamento crônico do sistema no país — problema histórico reconhecido por diversos estudos do Conselho Nacional de Saúde e do Ipea.
Mas o que a audiência revelou vai além do subfinanciamento estrutural nacional. Há indícios de falhas na execução orçamentária, atraso a fornecedores, ausência de revisão contratual hospitalar, problemas logísticos na compra de medicamentos e deficiência na transparência dos dados municipais.
Quando servidores compram papel higiênico, quando paciente recebe insulina sem seringa, quando leitos ficam vazios por falta de contratualização e quando vereadores afirmam que prestações de contas são “constrangidas”, o problema não é apenas falta de dinheiro. É gestão.
A capital sul-mato-grossense, como lembrou Walkes Vargas, é município de gestão plena do SUS. Isso implica autonomia — e responsabilidade.
O pacto institucional defendido na audiência pode ser caminho. Mas pacto pressupõe compromisso real, planejamento estratégico, transparência integral e metas verificáveis.
Sem isso, a crise deixa de ser conjuntural e passa a ser política.
E, em saúde pública, crise política significa sofrimento concreto na ponta.
Campo Grande não debate apenas orçamento. Debate o direito básico de sua população a atendimento digno.
Campo Grande reduz atendimento ao público e impõe cortes até o fim de junho
Deixe um comentário