Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Campo Grande
Redução no orçamento da infraestrutura agrava crise na manutenção urbana em Campo Grande
Publicado em 07/11/2025 10:24 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
A Prefeitura de Campo Grande reduziu em 25% os recursos destinados à manutenção urbana desde janeiro, e a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep) já admite que haverá demissões. A informação foi confirmada pelo titular da pasta, Marcelo Miglioli, durante audiência pública na Câmara Municipal, na quinta-feira (6). Segundo o secretário, a crise orçamentária afeta diretamente a operação tapa-buracos e outros serviços essenciais, agravando os transtornos causados pelas chuvas e acirrando a insatisfação da população.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
O cenário é de retração. Desde o início de 2025, a Sisep vem sendo submetida a sucessivos cortes. Além da redução de 25% nos contratos de manutenção viária, Miglioli revelou que houve corte de 50% nos serviços de zeladoria executados pela empresa Solurb e que novas contenções de gastos estão em andamento, incluindo a folha salarial da secretaria. “Alguns casos de demissão, sim. Estamos terminando o levantamento, mas vai haver incidência. Protegemos quem ganha abaixo de R$ 3 mil. Fizemos uma coisa equilibrada”, afirmou o secretário.
A estimativa é de uma redução de 20% na folha bruta da secretaria. Embora o discurso oficial apele para o equilíbrio, os impactos práticos são visíveis nas ruas da capital sul-mato-grossense, com vias esburacadas, alagamentos e colapso nos serviços de resposta rápida.
O problema se tornou insustentável após as fortes chuvas que atingiram Campo Grande nesta semana, provocando mais de 80 quedas de árvores. A prefeitura, no entanto, optou por suspender uma licitação de R$ 20 milhões que previa o manejo da arborização urbana — medida anunciada um dia antes do temporal. A justificativa, segundo Miglioli, foi evitar futuras contestações judiciais após questionamentos técnicos feitos por uma empresa participante do certame.
A decisão provocou perplexidade entre os vereadores. “Muita conversa, muita expectativa para o futuro, mas ação para agora é zero”, criticou o presidente da Câmara Municipal, Epaminondas Neto, o Papy (PSDB), que também lamentou a ausência da secretária de Finanças, Márcia Hokama, na reunião. Para ele, a falta de critérios claros na definição de prioridades orçamentárias compromete a credibilidade do Executivo. “Precisamos de informações sobre quais foram os critérios adotados para priorizar alguns pagamentos em detrimento de outros”, cobrou.
Em resposta à ausência, os vereadores aprovaram o Requerimento nº 62, convocando Márcia Hokama para prestar esclarecimentos no dia 18 de novembro, às 9h. O objetivo é obter detalhes técnicos e financeiros sobre as dotações orçamentárias, repasses e liberação de recursos para as operações de manutenção viária. A autora do pedido, vereadora Ana Portela (PL), argumentou que “torna-se imprescindível assegurar uma gestão orçamentária eficiente, responsável e transparente, especialmente em áreas sensíveis como infraestrutura e serviços urbanos”.
O presidente da Comissão Permanente de Obras e Serviços Públicos da Câmara, vereador Flávio Cabo Almi, reforçou a necessidade de ação imediata. “O secretário garantiu que começará a executar 20% da operação pelo menos agora em novembro, e entre novembro e dezembro tentará sanar os problemas dos buracos. Mas com as chuvaradas que vêm acontecendo, se não começar uma operação forte, a gente sabe que não vai resolver”, afirmou.
Apesar das garantias do Executivo de que os serviços essenciais serão mantidos, a realidade aponta para o contrário. A Sisep administra atualmente sete contratos regionais de manutenção viária, mas não consegue colocá-los em operação simultânea por falta de verba. “A hora que colocarmos em ordem essa questão financeira, teremos todas as empresas trabalhando simultaneamente, em ritmo acelerado”, prometeu Miglioli, sem apresentar prazos concretos ou plano emergencial.
A crise expõe não apenas um problema de gestão fiscal, mas um impasse estrutural na política de manutenção urbana da capital. A falta de planejamento e previsibilidade orçamentária, somada à comunicação precária entre Executivo e Legislativo, fragiliza a capacidade de resposta da cidade frente a eventos climáticos extremos — que tendem a se intensificar, segundo previsões científicas.
Para especialistas em gestão pública, como o professor Fernando Abrucio, da FGV, “a manutenção da infraestrutura urbana é um dos pilares da credibilidade de qualquer governo local, pois impacta diretamente na vida cotidiana da população”. Em um contexto de mudanças climáticas e crescimento urbano, cortes mal planejados podem ter efeitos multiplicadores, atingindo desde a segurança viária até a saúde pública.
A gestão municipal alega estar passando por um “momento de dificuldade”, mas falha em demonstrar medidas estratégicas para superá-lo. A política do improviso, os contingenciamentos sucessivos e a ausência de transparência não apenas comprometem a prestação dos serviços, como colocam em xeque a capacidade da prefeitura de conduzir a cidade com responsabilidade fiscal e compromisso com o bem público.
Deixe um comentário