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Campo Grande
Anúncio de parque tecnológico contrasta com terceiro ano sem reajuste para servidores municipais
Publicado em 01/07/2025 10:25 - Semana On
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A prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes (PP), anunciou com entusiasmo um investimento de R$ 33 milhões para transformar o antigo Centro de Belas Artes, obra paralisada há três décadas, em um parque tecnológico e sede da agência municipal de inovação. O projeto, que promete envolver universidades e fomentar o setor de tecnologia, é apresentado como símbolo de modernização e avanço. No entanto, a euforia com o anúncio contrasta com o silêncio da mesma gestão diante de uma crise latente: o congelamento, pelo terceiro ano consecutivo, dos salários dos servidores públicos municipais — uma violação clara ao preceito constitucional da revisão anual da remuneração.
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A contradição entre a ostentação de investimentos em obras de apelo simbólico e a recusa sistemática em cumprir o artigo 37, inciso X, da Constituição Federal, foi o centro das críticas da vereadora Luiza (PT) durante sessão realizada na Câmara Municipal na terça-feira (24). “A revisão anual não é um favor do governo, é um direito constitucional. A não concessão do reajuste significa, na prática, uma perda progressiva do poder aquisitivo dos servidores”, declarou a parlamentar ao apresentar requerimento — posteriormente rejeitado — que exigia explicações formais da prefeita e da secretária de Fazenda, Márcia Helena Hokama.
O pedido, que buscava transparência e acesso a estudos técnicos que justificassem a ausência do reajuste, esbarrou em manobras políticas. Por orientação do líder do governo na Casa, vereador Beto Avelar (PP), a base aliada votou em peso contra a iniciativa. Com apenas quatro votos favoráveis, o requerimento foi derrubado — um gesto que revela não apenas o controle da prefeita sobre o Legislativo, mas uma deliberada blindagem diante de temas sensíveis à maioria da população trabalhadora da administração pública.
Enquanto isso, avança a obra milionária no Bairro Cabreúva. O edifício, iniciado ainda nos tempos do ex-governador Pedro Pedrossian, se tornou um marco do abandono urbano. Hoje, com o novo destino anunciado, a prefeitura tenta ressignificar sua função, apostando na economia do conhecimento e na integração com o setor acadêmico. A iniciativa, em si, não é desprovida de mérito. Parques tecnológicos têm potencial para dinamizar economias locais, gerar empregos qualificados e atrair investimentos — como mostram exemplos de sucesso em cidades como Florianópolis e Recife. Mas a escolha política de investir recursos públicos vultosos em uma infraestrutura de longo prazo, ao mesmo tempo em que nega o básico aos servidores — como a recomposição inflacionária — escancara um projeto de gestão que hierarquiza o simbólico em detrimento do humano.
A prefeita, em declaração recente, afirmou que “não haverá reajuste para todas as categorias, apenas para algumas que estavam em déficit desde o ano passado”, mas sem apresentar critérios claros ou dados que justifiquem essa seletividade. Segundo a vereadora Luiza, não há compromisso assumido com uma futura correção geral, e a última recomposição linear ocorreu ainda na gestão do ex-prefeito Marquinhos Trad. Para piorar, a mesma administração aprovou a Lei nº 7.398/2025, que elevou os subsídios da própria prefeita, do vice, de secretários e dirigentes de autarquias — além de beneficiar cerca de 500 servidores que recebem pelo teto do funcionalismo. “Essa falta de isonomia escancara uma política de valorização seletiva, que aprofunda desigualdades e desrespeita o conjunto do funcionalismo”, afirmou Luiza.
A tensão entre investimentos estruturais e justiça social não é nova na história brasileira. Em diferentes momentos, gestores públicos priorizaram grandes obras e monumentos como forma de consolidar imagem política, mesmo às custas de políticas públicas essenciais. No clássico “Raízes do Brasil”, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda já alertava para a tendência patrimonialista das elites políticas, que confundem o público com o privado e operam sob a lógica do favor e da distinção — algo que, em pleno 2025, parece resistir à erosão do tempo.
Na prática, a não concessão de reajuste aos servidores representa um confisco silencioso de direitos. A inflação acumulada corrói salários e afeta diretamente a capacidade de consumo de milhares de trabalhadores que sustentam os serviços públicos da capital sul-mato-grossense. Em um país marcado por desigualdades profundas, esse tipo de política tem efeitos amplificadores de injustiças. Segundo o IBGE, o índice de inflação acumulado entre 2022 e 2024 ultrapassa 15%, o que significa que, mesmo mantendo os mesmos vencimentos nominais, o servidor perdeu parte considerável de seu poder de compra.
Especialistas em gestão pública alertam que a desvalorização do funcionalismo compromete a eficiência e a qualidade dos serviços prestados. Para o economista e professor da FGV, Fernando Abrucio, “o funcionalismo público é o pilar da política pública no Brasil. Quando você o desvaloriza, está, na verdade, desvalorizando o próprio Estado e o atendimento à população”.
Campo Grande, portanto, está diante de uma encruzilhada política e moral. O investimento em tecnologia é desejável e necessário, mas não pode servir de biombo para a negligência com o funcionalismo público. A reconstrução simbólica de um esqueleto urbano pode até render boas manchetes, mas nada compensará o vazio deixado pela desvalorização cotidiana de quem mantém viva a estrutura da cidade.
Em tempos de crise institucional e descrença na política, é justamente a coerência entre discurso e prática que distingue gestões democráticas das meramente performáticas. E a democracia, vale lembrar, não se constrói com grandes obras, mas com pequenas justiças — repetidas todos os dias.
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