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Campo Grande
Crise humanitária sem precedentes: especialistas alertam para a lógica do descarte humano
Publicado em 21/02/2025 9:56 - Semana On
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A cena urbana brasileira foi transformada nos últimos anos por um fenômeno que já não pode ser ignorado: a explosão da população em situação de rua. O crescimento vertiginoso de pessoas vivendo sem moradia atinge números alarmantes em Campo Grande (MS) e em todo o país, consolidando um padrão de marginalização que denuncia o colapso do sistema socioeconômico.
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Dados do Cadastro Único (CadÚnico) revelam que, na capital sul-mato-grossense, a quantidade de famílias vivendo nas ruas saltou de apenas uma em 2012 para 1.068 em janeiro de 2025 – um crescimento exponencial que acompanha a tendência nacional. Ao mesmo tempo, especialistas alertam que esse fenômeno não é um desvio do sistema, mas um de seus subprodutos mais perversos.
Os dados falam por si. Em Campo Grande, a escalada da população de rua se intensificou especialmente a partir de 2017, quando o número de famílias cadastradas passou de 208 para 454 em 2019. A pandemia de Covid-19 agravou a situação: em 2020, foram registradas 525 famílias nas ruas, número que continuou crescendo até ultrapassar, em 2024, a marca de mil. Hoje, 1.068 famílias compõem esse contingente invisibilizado, o maior da história.
A situação em Mato Grosso do Sul acompanha essa tendência. Em 2012, apenas cinco famílias estavam cadastradas no estado, número que saltou para 1.930 em 2024. Embora proporcionalmente abaixo dos índices de São Paulo (SP) e Roraima (RR), onde a crise é ainda mais acentuada, os números demonstram uma progressiva degradação social que se espalha por todas as regiões do país.
No panorama nacional, São Paulo lidera com 135.969 famílias em situação de rua. Minas Gerais e Rio de Janeiro também registram números expressivos, acima de 30 mil famílias. Entretanto, especialistas alertam que a estatística bruta não capta toda a dimensão do problema: além da contagem oficial, há um exército invisível de pessoas que vivem em condições extremas, mas que, por diversos fatores, não entram nos registros estatais.
O fracasso das políticas públicas e a lógica do descarte
O crescimento de 1.000% da população em situação de rua na última década expõe o esgotamento das políticas públicas voltadas para essa questão. Como observa o sociólogo Igor Rodrigues, autor do estudo Trocas Sinistras: a vida na rua sob novo prisma, há anos os governos insistem em medidas ultrapassadas que falham em conter a crise. “Sem uma abordagem criativa e humanitária, as políticas permanecem presas ao modelo albergacionista, quando não seguem uma escalada para a barbárie e a eliminação”, afirma.
O estudo de Rodrigues e de seu colega, o sociólogo Dimitri Fernandes, reforça a tese de que o fenômeno da população de rua não pode ser reduzido a explicações simplistas, como o uso de drogas ou a suposta “vagabundagem” dos indivíduos. “O problema está nas rupturas nos ciclos de troca social e no crescimento do descarte humano promovido por um sistema econômico que destrói subjetividades e expulsa pessoas da cidadania”, explica Rodrigues.
A chamada “teoria da multicausalidade” frequentemente utilizada para justificar o fenômeno – ou seja, a ideia de que fatores diversos como desemprego, drogas, saúde mental e conflitos familiares levam à rua – é, segundo os pesquisadores, insuficiente para compreender a raiz do problema. “Toda questão social é multicausal, mas precisamos identificar o que há em comum nessas causas. O que vemos é um colapso das relações sociais, da dignidade humana e da própria noção de cidadania”, argumenta o pesquisador.
A “feiura do capital” e a ascensão das trocas sinistras
O fenômeno da população em situação de rua não é exclusividade do Brasil. França, Estados Unidos, Alemanha, Índia, Argentina e Portugal registram aumentos significativos no número de pessoas vivendo nas ruas. O problema se tornou um sintoma global de um modelo econômico que descarta não apenas materiais, mas também vidas humanas.
Segundo Rodrigues, a exclusão das pessoas em situação de rua é um erro conceitual. “Elas não estão fora do sistema capitalista. Pelo contrário, são fabricadas por ele, embaladas e descartadas”, afirma. Essas pessoas ocupam posições marginalizadas na pirâmide produtiva, trabalhando em setores invisibilizados como a catação de materiais recicláveis, a colheita agrícola e o comércio ambulante – atividades precárias que garantem a sobrevivência, mas não a inclusão social.
O conceito de “trocas sinistras”, desenvolvido pelos pesquisadores, ajuda a compreender a relação entre sociedade e população de rua. “O que percebemos é que a sociedade estabeleceu um padrão de trocas sem reciprocidade com essas pessoas. Elas recebem esmolas, mas não são incluídas em ciclos sociais produtivos. O que ocorre é um tipo de relação humilhante e excludente, que reforça a marginalização”, explica Rodrigues.
Quando a Constituição não chega às ruas
Apesar do ideal de cidadania inscrito na Constituição Federal de 1988, apelidada de “Constituição Cidadã”, a realidade das ruas reflete um país onde direitos básicos são negados a uma parcela crescente da população. “Os indivíduos em situação de rua vivem um banimento contínuo da ordem dos direitos”, diz Rodrigues.
O Estado, por sua vez, assume uma postura ambígua. “Ora é uma fonte de assistência, ora de repressão e humilhação”, avalia o sociólogo. Centros de acolhimento, embora essenciais, muitas vezes operam como espaços de controle rígido, impondo regras que reforçam a desumanização. “Muitas dessas instituições estabelecem rotinas humilhantes, transformando a assistência em um fardo”, denuncia Rodrigues.
A precarização do trabalho e a “uberização” da economia também intensificam a crise. O avanço da automação e a extinção de postos de trabalho empurram milhares de brasileiros para a informalidade. Para muitos, a rua é o estágio final de um processo de eliminação social.
A encruzilhada: o que fazer diante do colapso?
O Brasil chegou a uma encruzilhada na questão da população em situação de rua. O aumento contínuo dos investimentos sociais sem a reversão do problema aponta para a necessidade de um redesenho estrutural das políticas públicas. “Precisamos entender por que as políticas fracassam. Não basta investir, é preciso que esses investimentos sejam eficazes e transformadores”, alerta Rodrigues.
Medidas como renda básica universal, ampliação de moradias populares e acesso real a políticas de reinserção social são urgentes, mas não suficientes. O que está em jogo é uma mudança profunda na forma como a sociedade enxerga e se relaciona com essas pessoas. “Se continuarmos tratando a população de rua como um problema a ser eliminado, estaremos apenas reproduzindo a lógica do descarte humano”, conclui o pesquisador.
A cidade moderna, que expulsa de seu convívio aqueles que não podem consumir, precisa decidir se seguirá normalizando a miséria ou se buscará alternativas para reconstruir os laços sociais. A população de rua não é um desvio do sistema. Ela é, como aponta Rodrigues, sua expressão mais brutal.
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