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Campo Grande
Assembleia de Deus Missões concentra influência sobre orçamento bilionário e decisões administrativas
Publicado em 03/05/2026 11:26 - Semana On
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A presença de lideranças religiosas em posições-chave da administração municipal de Campo Grande deixou de ser episódica para assumir contornos estruturais. A atual configuração da prefeitura revela um arranjo político-administrativo no qual integrantes da Igreja Assembleia de Deus Missões passaram a ocupar postos estratégicos, com influência direta sobre decisões orçamentárias, contratações públicas e formulação de políticas.
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Esse movimento não é recente. Ele estaria vinculado a uma articulação política consolidada ao longo de quase uma década pelo casal Adriane Lopes e Lídio Lopes. Com a prefeita à frente do Executivo municipal, a presença de pastores da igreja se intensificou, alcançando áreas sensíveis da administração e ampliando o alcance institucional de uma organização religiosa dentro do poder público.
Ao menos 12 pastores da Assembleia de Deus Missões ocupam cargos na estrutura municipal, com impacto direto na folha salarial e, sobretudo, na gestão de recursos públicos, aponta levantamento feito pelo site O Jacaré. Mais do que a remuneração — superior a R$ 130 mil mensais —, o que chama atenção é o nível de responsabilidade desses postos, muitos deles vinculados à administração financeira, licitações e execução de políticas públicas.
No primeiro escalão, três nomes exemplificam essa concentração de poder. O secretário municipal de Fazenda, Isaac José de Araújo, egresso da contabilidade da própria igreja, é hoje o responsável por administrar um orçamento de R$ 6,9 bilhões. Trata-se de uma posição central, que define prioridades fiscais e o destino de recursos que impactam toda a população.
Outros dois cargos estratégicos foram preenchidos em 2026: Paulo da Silva assumiu a presidência da Agereg, enquanto Ciro Vieira Ferreira passou a comandar a Agetran. Juntas, essas estruturas administram mais de R$ 100 milhões, incluindo receitas provenientes de multas de trânsito — um ponto sensível tanto do ponto de vista financeiro quanto social.
A influência se estende também à área da saúde, responsável pelo maior orçamento da prefeitura: R$ 2 bilhões em 2026, cerca de 30% das receitas municipais. Nesse setor, quatro membros da igreja atuam em funções ligadas ao controle financeiro e processos de aquisição. Julinei Herão Ferreira, Fausto Azevedo Tlaes, Marcos Ferreira Chaves de Castro e Moacir Frank da Costa ocupam posições que influenciam diretamente a gestão de recursos e contratos em um dos setores mais críticos da administração pública.
Na educação, Emerson Irala de Souza atua na estrutura de licitações, participando da fase preparatória de contratações e aquisições. Já na Casa Civil, Jadir Cabral exerce função estratégica como assessor-executivo, após passagem pelo gabinete da prefeita.
Outros nomes completam o quadro, como Hemerson Ortiz da Mota, Jorge Luís Franco e Enoque Camposano — este último, inclusive, apresenta inconsistências administrativas, já que deixou de constar na folha de pagamento sem registro formal de exoneração.
O caso de Douglas Alves Mandu, exonerado após envolvimento em um crime grave, também expôs fragilidades no critério de nomeações, ampliando o questionamento público sobre os mecanismos de controle e seleção de ocupantes de cargos.
A relação entre a gestão municipal e a igreja tornou-se ainda mais explícita após a reeleição de Adriane Lopes, celebrada pela Assembleia de Deus Missões sob o argumento de que a prefeita também atua como “missionária”. O episódio reforça a percepção de uma sobreposição entre identidade religiosa e função pública — um ponto sensível em democracias que adotam o princípio do Estado laico.
Esse princípio, previsto na Constituição brasileira, estabelece a separação entre religião e poder público, garantindo que políticas governamentais sejam formuladas com base no interesse coletivo, e não em orientações confessionais. Quando essa fronteira se torna difusa, abre-se espaço para conflitos de interesse, favorecimento institucional e comprometimento da imparcialidade administrativa.
A concentração de membros de uma mesma instituição religiosa em áreas estratégicas do governo levanta questionamentos legítimos sobre pluralidade, transparência e equilíbrio na gestão pública. Mais do que um debate sobre indivíduos, trata-se de discutir os limites institucionais entre fé e Estado — uma distinção essencial para assegurar igualdade de acesso, diversidade de representação e decisões pautadas pelo interesse público.
Em um cenário de elevada reprovação administrativa — superior a 85%, segundo dados mencionados no levantamento —, o modelo adotado pela atual gestão intensifica o debate sobre governança, accountability e os riscos de instrumentalização do aparato estatal por grupos organizados, sejam eles políticos ou religiosos.
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