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Campo Grande
Nomeações para agências estratégicas reacendem debate sobre laicidade do Estado e limites entre fé e poder público
Publicado em 07/04/2026 2:23 - Semana On
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A prefeita Adriane Lopes (PP) promoveu na segunda-feira (6) uma nova rodada de mudanças no alto escalão da administração municipal, consolidando a presença de líderes religiosos em cargos estratégicos. Pastores ligados à Assembleia de Deus Missões passam a comandar a Agência Municipal de Regulação dos Serviços Públicos (Agereg) e a Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran), duas estruturas centrais para o funcionamento da cidade.
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De acordo com publicação no Diário Oficial, Paulo da Silva deixa a presidência da Agetran — função que exercia desde abril de 2024 — para assumir a chefia da Agereg. Em seu lugar, assume Ciro Vieira Ferreira, até então diretor de Trânsito desde janeiro de 2025, com salário de R$ 12 mil. Ambos, pastores da mesma igreja frequentada pela prefeita, passam a receber cerca de R$ 19 mil mensais como diretores-presidentes.
A trajetória técnica de Ciro Vieira Ferreira inclui passagem relevante pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), onde atuou como superintendente regional em Mato Grosso do Sul e exerceu funções estratégicas em operações nacionais, incluindo o planejamento de ações durante os Jogos Olímpicos Rio 2016. A experiência, embora robusta no campo operacional, agora se desloca para a gestão municipal em um contexto que levanta questionamentos sobre critérios de nomeação.
Já José Mário Antunes da Silva, que presidia a Agereg, foi deslocado para o cargo de assessor especial na Secretaria Municipal de Fazenda. Apesar da mudança, permanece em posição de confiança com remuneração equivalente, de R$ 19 mil. Histórico aliado da prefeita, José Mário já ocupou a Secretaria de Assistência Social, consolidando sua presença em áreas sensíveis da administração.
As mudanças ocorrem em meio a uma lacuna relevante: a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos segue sem titular desde a saída de Marcelo Miglioli para a disputa eleitoral. A pasta é responsável por serviços essenciais, como manutenção viária e operações de tapa-buraco, o que amplia a percepção de desorganização administrativa em setores-chave.
Religião, política e estrutura de poder
O avanço de lideranças religiosas na máquina pública não é um fenômeno isolado, mas ganha contornos mais explícitos na atual gestão. A IADMCG, frequentada pela prefeita, já emplacou ao menos 12 pastores em cargos comissionados na prefeitura. Entre eles estão Enoque Camposano, Emerson Irala de Souza, Jadir Cabral, Fausto Azevedo Tlaes e Emerson Marques do Amaral, além dos recém-nomeados.
O histórico político-religioso da capital sul-mato-grossense reforça a relevância desse movimento. A mesma igreja foi berço político de Gilmar Olarte, que assumiu a prefeitura em 2014 após a cassação de Alcides Bernal. O episódio, posteriormente relacionado à Operação Coffee Break, evidenciou conexões entre articulações políticas e interesses institucionais, culminando em investigações por corrupção e improbidade administrativa.
O princípio constitucional e o debate contemporâneo
A crescente presença de líderes religiosos em funções públicas estratégicas tensiona um princípio fundamental da República: a laicidade do Estado. A Constituição Federal de 1988 é explícita ao estabelecer, em seu artigo 19, inciso I, que é vedado à União, aos estados e aos municípios “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança” — ressalvada, apenas, a colaboração de interesse público.
A interpretação desse dispositivo tem sido reiterada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que reconhece a laicidade como condição essencial para garantir igualdade entre cidadãos, independentemente de suas crenças. Em julgamento da ADI 4439, por exemplo, a Corte reafirmou que o Estado brasileiro é laico, ainda que permita manifestações religiosas no espaço público, desde que não haja favorecimento institucional.
Nesse contexto, a nomeação sistemática de membros de uma mesma denominação religiosa para cargos estratégicos não é, por si só, ilegal — mas suscita questionamentos legítimos sobre critérios de escolha, diversidade institucional e possível confusão entre interesses públicos e vínculos confessionais.
Entre a fé e a gestão pública
A gestão pública exige critérios técnicos, transparência e compromisso com o interesse coletivo. Quando a ocupação de cargos estratégicos passa a refletir, de forma reiterada, vínculos religiosos compartilhados com o chefe do Executivo, o debate deixa de ser apenas administrativo e se torna estrutural.
Não se trata de interditar a participação de pessoas religiosas na política — o que seria, em si, incompatível com a democracia —, mas de assegurar que a máquina pública não seja capturada por redes de influência que escapam ao escrutínio republicano.
Em uma cidade como Campo Grande, onde religião e política historicamente se entrelaçam, o desafio é ainda maior: garantir que a fé permaneça no campo da convicção individual, e que o Estado siga sendo, de fato, de todos — inclusive daqueles que não compartilham da mesma crença.
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