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Campo Grande

Ônibus a gás entra em teste em CG em meio à crise no transporte público

Nova tecnologia aposta em eficiência e sustentabilidade, mas convive com o caos

Publicado em 17/07/2025 10:37 - Semana On

Divulgação PMCG

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Enquanto um ônibus movido a gás natural e biometano faz suas primeiras voltas pelas ruas de Campo Grande, com promessas de eficiência energética e conforto ao usuário, o restante da frota segue enfrentando o velho roteiro conhecido pelos moradores: atrasos, superlotação, baixa frequência e estruturas sucateadas. A cena da novidade contrasta com o pano de fundo de uma crise profunda no transporte coletivo da capital sul-mato-grossense, que atualmente é alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal para apurar possíveis irregularidades na gestão do sistema operado pelo Consórcio Guaicurus.

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O teste com o novo modelo de ônibus começou nesta quinta-feira (17), em caráter experimental, numa parceria entre a Prefeitura de Campo Grande, o Governo do Estado, a MSGás e o próprio Consórcio Guaicurus. O veículo, da marca Scania, funciona com gás natural/biometano e opera por cerca de 30 dias na linha 61 (Moreninha/Shopping), das 6h25 às 21h30. Além de ser menos poluente, o ônibus conta com ar-condicionado, e sua avaliação levará em conta consumo, desempenho técnico, conforto e a opinião dos passageiros.

A diretora-adjunta da Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran), Andreia Figueiredo, afirma que “os testes são fundamentais diante do compromisso da Prefeitura de encontrar formas mais eficientes na prestação de seus serviços”. Já a CEO da MSGás, Cristiane Schmidt, destaca que a iniciativa pode contribuir significativamente para a redução de poluentes e melhoria da qualidade do ar: “Essa tecnologia pode fazer uma grande diferença na vida dos cidadãos”, disse ela.

Contudo, essa aposta no futuro esbarra na urgência do presente.

Transporte sob investigação

O anúncio da inovação ocorre em um momento sensível. Desde maio de 2024, a Câmara de Vereadores conduz uma CPI para investigar o contrato entre a Prefeitura e o Consórcio Guaicurus, responsável exclusivo pela operação do transporte coletivo urbano da cidade desde 2012. Entre os principais pontos da investigação estão o descumprimento de metas de renovação da frota, reajustes tarifários sem justificativa clara, precarização do serviço e denúncias de que a concessionária teria sido favorecida indevidamente em aditivos contratuais.

O vereador Tiago Vargas (PSD), relator da CPI, afirmou que “há fortes indícios de irregularidades que comprometeram a qualidade do serviço prestado à população”. As audiências já revelaram que, dos mais de 500 ônibus previstos em contrato, menos de 350 estariam circulando atualmente — e parte significativa deles em condições precárias. “É um sistema em colapso”, declarou o parlamentar em entrevista à rádio CBN Campo Grande.

Promessas antigas, problemas antigos

A introdução do ônibus a gás evoca uma promessa já conhecida pelos campo-grandenses: a modernização do transporte público. Desde 2013, sucessivas gestões anunciaram planos de reestruturação do sistema, com pouco ou nenhum avanço efetivo. Em 2016, a Prefeitura chegou a lançar um plano de mobilidade urbana que previa corredores exclusivos, integração tarifária e renovação da frota com veículos mais sustentáveis. Nenhuma dessas metas saiu do papel.

Para o urbanista e pesquisador da mobilidade urbana Nazareno Stanislau Affonso, coordenador do MDT (Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte Público de Qualidade), o problema é sistêmico: “O transporte coletivo brasileiro sofre com falta de planejamento de longo prazo e com concessões pouco transparentes. É preciso inverter a lógica: não se trata de apenas colocar ônibus novos, mas de redesenhar todo o modelo de gestão e financiamento”, declarou ele em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil.

Um futuro possível — mas distante?

O uso do gás natural e do biometano pode, de fato, representar uma alternativa mais limpa e econômica ao diesel — hoje predominante na frota nacional. Segundo dados da Associação Brasileira de Biogás (ABiogás), o Brasil tem potencial para substituir até 70% do diesel consumido no transporte público urbano por biometano até 2030, com significativa redução de emissões e geração de emprego na cadeia do gás renovável.

Contudo, em Campo Grande, a distância entre o veículo em teste e o ônibus que não chega ao ponto ainda é grande. A experiência com o novo modelo será útil para decisões futuras, mas não resolve o drama diário de milhares de usuários que dependem do sistema para trabalhar, estudar ou simplesmente se deslocar.

Até lá, a cena continua a mesma: a cidade avança em um ônibus experimental, enquanto a população espera — literalmente — pelo básico.

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