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Campo Grande

MP investiga espera de até um ano por exame cardíaco em Campo Grande

Prefeitura relança licitação para hospital municipal em meio a filas e gargalos

Publicado em 17/03/2026 9:24 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) abriu um inquérito civil para apurar a longa espera por exames cardíacos na rede pública de Campo Grande. A investigação, divulgada ontem (16), mira a fila de pacientes que aguardam a realização do exame Holter 24 horas — procedimento utilizado para detectar arritmias, taquicardias e pausas nos batimentos cardíacos durante as atividades cotidianas.

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A apuração foi iniciada após a 32ª Promotoria de Justiça da capital identificar cerca de 500 pessoas aguardando pelo exame. De acordo com o levantamento preliminar, o tempo médio de espera chega a aproximadamente 12 meses.

Para o Ministério Público, o intervalo entre a solicitação médica e a realização do procedimento levanta dúvidas sobre a capacidade de atendimento da rede pública. O órgão avalia que a demora não é compatível com o direito constitucional à saúde nem com a relevância clínica do exame, fundamental para o diagnóstico e acompanhamento de distúrbios do ritmo cardíaco.

Mesmo após ajustes pontuais no sistema de atendimento, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) informou que ainda há centenas de pacientes na fila. O pedido mais antigo registrado data de setembro de 2024.

Atualmente, o Holter é realizado por meio de unidades contratadas pela rede municipal. Segundo o Ministério Público, porém, a estrutura disponível não tem sido suficiente para absorver a demanda acumulada.

Durante a investigação, o MPMS também verificou a existência do programa estadual “MS Saúde — Mais Saúde, Menos Filas”, criado para reduzir a espera por consultas, exames e cirurgias na rede pública. A ampliação da oferta do Holter, contudo, depende da adesão dos municípios e da articulação entre gestores estaduais e municipais — processo que, segundo a apuração, ainda não está plenamente organizado em Campo Grande.

A Promotoria solicitou à Secretaria Municipal de Saúde informações detalhadas sobre a fila atualizada, a capacidade de atendimento da rede, o cumprimento de contratos com prestadores e as medidas previstas para ampliar a oferta do exame. Entre as alternativas em análise estão a aquisição de novos equipamentos, a reorganização do fluxo de atendimento e a eventual participação em programas estaduais ou federais.

Também foram requisitados dados ao Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap/UFMS), que adquiriu equipamentos para a realização do exame.

Por envolver informações pessoais de usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), o Ministério Público determinou que o procedimento tramite em caráter restrito, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). O órgão informou que continuará acompanhando as respostas das instituições envolvidas e cobrando medidas para reduzir o tempo de espera.

Como funciona o exame

O Holter 24 horas é um dispositivo portátil utilizado para registrar continuamente a atividade elétrica do coração ao longo de um dia ou mais. Diferentemente do eletrocardiograma tradicional, que capta os batimentos em poucos minutos, o monitoramento prolongado permite identificar alterações que podem surgir apenas durante a rotina diária do paciente.

Para a realização do exame, sensores — chamados eletrodos — são fixados no peito e conectados a um pequeno gravador portátil. Durante o período de monitoramento, o paciente deve manter suas atividades habituais, incluindo trabalho, sono e, quando autorizado pelo médico, exercícios físicos.

Também é recomendado registrar em um diário eventuais sintomas percebidos ao longo do dia, como palpitações, tontura ou falta de ar, para auxiliar na interpretação dos dados coletados.

Novo hospital em meio a filas e gargalos

Enquanto a rede pública de saúde da capital sul-mato-grossense enfrenta dificuldades para atender demandas básicas, a Prefeitura de Campo Grande decidiu avançar com um dos projetos mais ambiciosos de sua política sanitária: a implantação do Complexo Hospitalar Municipal.

O aviso de nova licitação foi publicado ontem (16) no Diário Oficial do município. O processo ocorrerá na modalidade de concorrência eletrônica e prevê a contratação de uma empresa responsável pela construção e estruturação do hospital em modelo built to suit — formato em que o empreendimento é construído sob medida para o poder público e posteriormente locado à administração municipal.

Nesse arranjo, a empresa contratada ficará responsável não apenas pela construção da unidade hospitalar, mas também pelo fornecimento de equipamentos, mobiliário e pela gestão da infraestrutura predial, incluindo serviços de manutenção e operação das instalações. A condução do processo licitatório está a cargo da Secretaria Especial de Licitações e Contratos (SELC), com a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) como órgão demandante e participação da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep).

As propostas poderão ser apresentadas até as 7h44 do dia 19 de junho de 2026, com a abertura da disputa de preços prevista para o minuto seguinte, por meio do portal eletrônico de compras do município.

Licitação fracassada e retomada do projeto

A iniciativa não é inédita. O mesmo projeto chegou a entrar em fase de análise de propostas em um processo licitatório anterior, cuja tramitação foi interrompida após questionamentos judiciais. Depois da análise do caso pela Justiça — que rejeitou a ação — o processo administrativo foi retomado.

Ainda assim, o certame acabou sendo declarado fracassado: as empresas participantes não atenderam aos requisitos técnicos previstos no edital.

Diante desse resultado, a prefeitura decidiu republicar o processo licitatório. Segundo a administração municipal, as diretrizes do projeto foram mantidas, com ajustes pontuais destinados a tornar as regras mais claras e aumentar a segurança jurídica da contratação. Os documentos do edital foram disponibilizados nos portais oficiais de transparência e no sistema nacional de contratações públicas.

Projeto ambicioso em meio a desafios estruturais

Concebido como uma estrutura hospitalar de grande porte, o complexo pretende ampliar a capacidade de atendimento da rede municipal e aliviar a pressão sobre unidades já existentes. O projeto prevê espaços voltados à assistência médica, áreas de diagnóstico e suporte hospitalar para diferentes especialidades.

De acordo com o secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, a licitação representa apenas uma etapa do planejamento. Após a contratação, ainda será elaborado o plano operacional da unidade, que definirá o funcionamento do hospital, o dimensionamento das equipes e a integração com os demais serviços da rede pública.

A iniciativa, contudo, surge em um contexto que expõe fragilidades na gestão da saúde municipal. Filas prolongadas para exames e dificuldades de acesso a procedimentos diagnósticos evidenciam gargalos na capacidade de atendimento do sistema atual.

Nesse cenário, o anúncio de um novo hospital levanta um questionamento inevitável no debate público: como o município pretende sustentar uma estrutura hospitalar de grande porte se ainda enfrenta dificuldades para garantir a oferta regular de serviços básicos da rede?

A resposta dependerá não apenas da construção da nova unidade, mas da capacidade de reorganizar o sistema de saúde como um todo — tarefa que envolve financiamento, planejamento de pessoal e integração eficiente entre os diferentes níveis de atendimento. Sem isso, o risco é que a promessa de um hospital moderno se transforme apenas em mais um projeto ambicioso diante de uma rede que ainda luta para atender o essencial.

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