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Campo Grande

Marcha para Jesus: vitrine da fé e palanque da direita em MS

Evento em Campo Grande consolida uso da religião como ferramenta de mobilização bolsonarista

Publicado em 25/08/2025 2:08 - Semana On

Divulgação PMCG

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A Marcha para Jesus, marcada para esta terça-feira (26), em Campo Grande (MS), vai ocupar as principais avenidas da capital sul-mato-grossense no mesmo dia em que a cidade completa 126 anos de fundação. Mas, mais do que uma celebração de fé, o evento se consolida como espaço de afirmação política, especialmente para lideranças da extrema direita alinhadas ao bolsonarismo, que encontraram no discurso religioso um canal eficaz de comunicação com a população evangélica — majoritária e cada vez mais mobilizada no Mato Grosso do Sul.

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Em sua 33ª edição, a Marcha tem como tema “Que Ele cresça” e reunirá nomes de peso da música gospel nacional, como Midian Lima, Discopraise, Pr. Antônio Cirilo e Thamilis Campos, entre outros. A concentração será às 13h na Praça do Rádio Clube, com programação voltada ao público evangélico de toda a região. A organização está a cargo do Consepams (Conselho Estadual de Pastores de MS) e do Consepacg (Conselho de Pastores de Campo Grande), que planejam realizar edições simultâneas do evento em 40 municípios do Estado, reforçando o alcance político do movimento.

De evento religioso a plataforma política

Oficialmente, o objetivo do evento é “fortalecer a integração e a atuação das igrejas em todo o Estado”. Na prática, porém, o crescimento da Marcha para Jesus coincide com o avanço da retórica bolsonarista entre lideranças evangélicas e políticos locais. Em Mato Grosso do Sul, onde Jair Bolsonaro obteve 59,8% dos votos válidos no segundo turno de 2022, a fusão entre religião e política se tornou rotina — e eventos como a Marcha funcionam como catalisadores dessa aliança.

A presença frequente de parlamentares e lideranças bolsonaristas nos palanques evangélicos, inclusive durante cultos e celebrações como esta, tem sido cada vez mais comum. O discurso é quase sempre o mesmo: defesa da “família tradicional”, ataques ao Supremo Tribunal Federal, crítica ao “globalismo” e ao “comunismo”, e exaltação de Bolsonaro como “instrumento de Deus”. O palanque é religioso, mas o conteúdo é explicitamente político.

Segundo a cientista política Camila Rocha, pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), “o bolsonarismo soube capturar o imaginário religioso, especialmente evangélico, ao associar-se a pautas morais e a uma retórica de perseguição, onde o líder político se apresenta como mártir”. Para ela, esse fenômeno “não é espontâneo; é fruto de uma estratégia deliberada de ocupação de espaços que antes eram essencialmente espirituais”.

Estado laico em xeque

O problema, no entanto, não está no exercício da fé em si — garantido pela Constituição Federal —, mas na instrumentalização da crença para fins político-partidários. O artigo 19 da Constituição proíbe que o Estado brasileiro “estabeleça cultos religiosos ou igrejas, subvencione-os, embaraçe-lhes o funcionamento ou mantenha com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança”. O princípio da laicidade, portanto, não é apenas simbólico: é legalmente estruturante.

Mas esse limite tem sido frequentemente ultrapassado. O Mato Grosso do Sul, um dos estados mais conservadores do país segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresenta um ambiente fértil para a fusão entre púlpito e palanque. Segundo dados do Censo 2022, mais de 33% da população do estado se declara evangélica — percentual superior à média nacional.

A história mostra que a sobreposição entre religião e política raramente resulta em avanços democráticos. Pelo contrário. Em diversas experiências históricas — do Irã dos aiatolás à Hungria de Orbán —, o uso da fé como ferramenta de poder tem conduzido à erosão de liberdades civis, repressão de minorias e instrumentalização do Estado por interesses sectários.

O alerta também foi feito por Rubem Alves, teólogo e educador: “Quando a religião se casa com o poder, ela se prostitui” (Alves, R. “Religião e Repressão”, 1982).

Celebração legítima, apropriação questionável

A Marcha para Jesus é, sem dúvida, um dos maiores eventos cristãos do Mato Grosso do Sul — e merece respeito enquanto manifestação de fé coletiva. Mas quando o espaço espiritual passa a ser ocupado por estratégias de mobilização partidária, especialmente num contexto de radicalização da extrema direita, o sinal de alerta se acende.

Em pleno aniversário da capital, a cidade vê, mais uma vez, a praça pública se transformar em extensão do culto político-ideológico de um movimento que insiste em confundir religião com projeto de poder. É preciso garantir o direito ao culto, mas também o direito à laicidade. O risco de ignorar essa fronteira é grande — e os exemplos históricos não faltam.

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