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Campo Grande
Empresários são investigados por manipular greves para pressionar por R$ 45 milhões em subsídios
Publicado em 10/11/2025 10:08 - Semana On
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Paralisação orquestrada, pressões financeiras sobre o erário público e um modelo de concessão marcado por interesses cruzados entre empresários, sindicalistas e figuras do poder público. Este é o cenário que se desenha em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, onde o Consórcio Guaicurus, responsável pelo transporte coletivo urbano, se vê no centro de investigações por práticas que afrontam não apenas a legalidade trabalhista, mas o próprio sentido de serviço público em uma democracia.
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A crise atual deflagrou-se com a paralisação dos motoristas de ônibus em 22 de outubro. À primeira vista, uma greve por direitos trabalhistas. Mas investigações reveladas pelo Jornal Midiamax e acolhidas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT-MS) sugerem outra versão: a greve teria sido arquitetada pelos próprios empresários — uma prática ilegal conhecida como locaute, pela qual os patrões manipulam paralisações para forçar concessões financeiras do poder público.
O locaute e a manipulação do direito de greve
A prática do locaute é expressamente proibida pela Lei Federal nº 7.783/1989, que regula o direito de greve no Brasil. Como explicou o procurador do Trabalho Leontino Ferreira de Lima Júnior, coordenador de Promoção da Liberdade Sindical do MPT-MS, “se comprovadamente o empregador coage ou obriga os empregados a participar de paralisação ou greve com o objetivo de, em tese, atender a interesses da própria empresa, há desvio da finalidade constitucional do direito de greve”. A conduta, segundo o procurador, configura “ato antissindical” e pode gerar indenizações por danos individuais e coletivos.
A denúncia foi formalizada pelo vereador Maycon Nogueira (PP) e resultou na abertura de um procedimento preparatório, fase inicial da apuração pelo MPT. O órgão também deu prazo de cinco dias para o sindicato STTCU, representante dos motoristas, comprovar se houve deliberação legítima para a greve. O envolvimento do sindicato levanta suspeitas de conivência, compondo um tripé entre empresários, sindicalistas e agentes públicos em um suposto conluio para pressionar a prefeitura por mais verbas.
Um esquema de “extorsão velada”
Motoristas ouvidos pelo Midiamax foram categóricos: a paralisação não partiu da base trabalhadora, mas foi instrumentalizada como chantagem indireta contra a prefeitura, visando o aumento dos repasses públicos. Essa “extorsão velada”, como nomearam os próprios trabalhadores, está sendo investigada como violação de direitos coletivos. O que está em jogo não é apenas a legalidade do ato, mas a integridade das instituições públicas e a confiança da população em seus serviços essenciais.
O pano de fundo é um modelo de concessão marcado pela assimetria de poder, em que empresários do setor, com histórico de lucros vultosos, operam à sombra da lei para garantir ainda mais recursos públicos.
A tentativa de reajuste tarifário baseado em perícia inválida
A greve “fake” teria ocorrido poucos dias antes de outra ofensiva do Consórcio Guaicurus: um pedido judicial para reajuste da tarifa técnica de R$ 6,17 para R$ 7,79, um salto de 26%, baseado em perícia técnica contratada pela própria concessionária por R$ 272 mil. A peça, no entanto, não foi homologada pela Justiça, e enfrenta impugnação da Prefeitura de Campo Grande, que aponta tentativa de manipulação financeira.
Se acolhido o pedido do consórcio, o impacto nos cofres públicos seria de R$ 45 milhões ao ano, fazendo os repasses saltarem de R$ 34 milhões para R$ 79 milhões — valor que se somaria aos R$ 64 milhões já repassados em subsídios e isenções. No total, R$ 143,5 milhões de recursos públicos anuais estariam sendo canalizados para a empresa, mesmo com evidências de frota sucateada e má prestação do serviço.
Contradições contábeis e lucros milionários
As alegações do consórcio sobre um suposto déficit de R$ 1,3 bilhão contrastam com auditoria oficial da prefeitura, baseada em perícia contábil autorizada pela Justiça, que apontou lucro líquido de R$ 68 milhões nos primeiros sete anos do contrato e faturamento de R$ 1,27 bilhão entre 2012 e 2019. Como assinala o diretor de estudos econômico-financeiros da Agereg (Agência de Regulação dos Serviços Delegados), Luciano Assis Silva, o reajuste para R$ 7,79 “não reflete a realidade da prestação do serviço de transporte público de Campo Grande”.
Não por acaso, a prefeitura recorreu às Súmulas 346 e 473 do STF, que garantem à administração pública o direito de revogar seus próprios atos quando verificado erro ou ilegalidade.
O transporte coletivo como direito social, não negócio privado
O transporte público, à luz da Constituição Federal, é um direito social e dever do Estado. Sua concessão à iniciativa privada não pode subverter esse princípio em nome do lucro. O filósofo e sociólogo Zygmunt Bauman já advertia que “num mundo onde tudo vira mercadoria, até os direitos mais básicos passam a depender do poder de compra”. Quando o transporte público é reduzido a uma equação financeira sem contrapartida em qualidade, o pacto democrático é rompido.
A insistência do Consórcio Guaicurus em judicializar cada aspecto do contrato para maximizar ganhos evidencia um modelo centrado na privatização dos lucros e socialização das perdas. Uma concessão pública que rende milhões aos empresários enquanto transfere riscos e prejuízos à população e ao poder público.
A importância do controle social e da transparência
Diante desse cenário, impõe-se uma ação rigorosa do Ministério Público do Trabalho e dos órgãos de controle. Mas, sobretudo, a sociedade precisa ser chamada à vigilância. O transporte público de qualidade, acessível e eficiente é essencial à dignidade humana, à mobilidade urbana e à equidade social. Permitirmos que se torne refém de interesses privados e práticas ilícitas é abrir mão de um direito fundamental.
Como advertia o jurista italiano Norberto Bobbio, “a democracia não é apenas um conjunto de regras institucionais, mas um modo de viver em comum, baseado na confiança pública e na legalidade”. Quando empresas concessionárias distorcem o sistema legal para arrancar mais recursos sem oferecer um serviço minimamente digno, é a democracia que sangra — silenciosa, mas profundamente.
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