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Campo Grande
Recursos serão destinados a reparos na Rotunda e galpões, emblemáticos da história ferroviária, após anos de negligência e estragos causados por chuvas
Publicado em 20/01/2025 1:45 - Semana On
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Campo Grande dá o primeiro passo para preservar um importante capítulo de sua história ferroviária. O governo federal anunciou a liberação de R$ 800 mil para a elaboração de projetos executivos destinados à restauração do Complexo Ferroviário da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, tombado como patrimônio histórico. O recurso, previsto desde abril de 2024, busca reparar danos estruturais agravados por anos de abandono e pelas fortes chuvas que atingiram a região, causando, inclusive, o desabamento do teto da Rotunda, parte emblemática do conjunto.
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O termo de compromisso, assinado pelo presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Leandro Antonio Grass Peixoto, e pela prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes, foi publicado no Diário Oficial da União nesta segunda-feira (20). O acordo, que terá vigência entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, estabelece que os recursos serão empregados na elaboração de projetos de arquitetura, engenharia e planejamento para intervenções emergenciais nos edifícios mais danificados, incluindo a Rotunda e os galpões.
O montante foi aprovado no âmbito do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), programa federal voltado para obras estratégicas. Embora significativo, o valor representa apenas uma fração do necessário para restaurar as estruturas históricas, destacando a urgência de mais investimentos e maior comprometimento da administração local com a preservação do patrimônio.
Decisão judicial e negligência histórica
A liberação do recurso ocorre em meio a uma série de pressões judiciais e políticas. Em setembro de 2024, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou que a prefeitura de Campo Grande assumisse a responsabilidade pelos reparos no complexo ferroviário, apontando falhas recorrentes na gestão e manutenção do patrimônio. A decisão reforçou os apontamentos feitos por instâncias anteriores, como o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, que, em decisões passadas, já havia identificado descaso na conservação do conjunto histórico desde pelo menos 2015.
O Complexo Ferroviário, que ocupa uma área de 22,3 hectares e inclui 135 edifícios em alvenaria e madeira, é um testemunho da importância da ferrovia para a expansão urbana e econômica da região. Entre suas estruturas estão casas operárias, oficinas, a estação ferroviária – inaugurada em 1914 –, além de galpões e a Rotunda, que abrigava locomotivas.
Apesar de tombado como patrimônio histórico, o complexo tem enfrentado anos de negligência. Relatórios técnicos do Iphan indicam que a falta de ações efetivas para manutenção das estruturas contribuiu para a deterioração acelerada dos edifícios, colocando em risco tanto o patrimônio cultural quanto a segurança pública.
Uma história de conexões e desenvolvimento
A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, à qual o complexo está diretamente ligado, desempenhou papel crucial no desenvolvimento econômico do Centro-Oeste e na integração dessa região ao restante do Brasil. Construída a partir de 1905, a ferrovia conectava áreas isoladas ao mercado nacional e internacional, fomentando a produção agrícola e o comércio.
Segundo o historiador Boris Fausto, a expansão ferroviária no Brasil foi um dos marcos do processo de modernização do país no início do século XX. Ele observa, em sua obra História do Brasil, que a ferrovia representou um “instrumento de integração territorial e de estímulo à produção”, elementos visíveis no impacto que a Estrada de Ferro Noroeste teve para o desenvolvimento de Campo Grande e de outras cidades ao longo de sua linha.
Próximos passos e desafios
Embora a liberação do recurso represente um avanço, especialistas apontam que ainda há um longo caminho para garantir a preservação completa do complexo. Além de projetos executivos, será necessário captar novos investimentos e articular esforços entre diferentes esferas de governo e a iniciativa privada.
O restauro do Complexo Ferroviário também pode ser uma oportunidade para impulsionar o turismo cultural em Campo Grande. Experiências semelhantes em outras cidades brasileiras, como a recuperação da Estação da Luz, em São Paulo, demonstram que a valorização de espaços históricos pode gerar impacto positivo não apenas cultural, mas também econômico.
Enquanto isso, moradores e entusiastas do patrimônio ferroviário aguardam com esperança, mas também com ceticismo, a materialização das promessas. A memória de um tempo em que os trilhos conectavam não apenas cidades, mas também sonhos de progresso, agora depende de um esforço coletivo para resgatar o que foi perdido ao longo dos anos.
Com o prazo estipulado até dezembro de 2025, a restauração do Complexo Ferroviário será um teste de compromisso com a preservação histórica e o respeito ao patrimônio cultural. O futuro da memória ferroviária de Campo Grande está em jogo – e não há espaço para mais descaso.
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