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Campo Grande

Fiação solta vira risco de morte em Campo Grande

Acidentes envolvendo cabos expostos expõem falhas da Energisa

Publicado em 23/05/2025 2:21 - Semana On

Divulgação Semana On

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Uma cidade onde andar pelas calçadas pode custar a vida. É essa a realidade que começa a emergir em Campo Grande com o agravamento de um problema tão crônico quanto negligenciado: a presença de cabos soltos, pendurados e expostos em postes da capital. Em 2025, ao menos duas mulheres — uma fotógrafa e uma auxiliar de limpeza — sofreram acidentes graves por conta da chamada “maçaroca de fios”, como já é conhecida a desorganização da infraestrutura urbana de energia e telecomunicações. O caso se tornou agora um embate judicial, político e regulatório, que envolve a concessionária Energisa, a Câmara Municipal, o Ministério Público Federal e diversas agências públicas.

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A ausência de manutenção adequada e a sobreposição de responsabilidades entre empresas de energia, telefonia e internet se transformaram em um risco letal. Não se trata de um incidente isolado, mas do resultado de anos de omissão e falta de fiscalização — um cenário que reflete o colapso silencioso da gestão do espaço público urbano.

Vidas partidas por fios esquecidos

Aline Pinto de Amorim, 39 anos, auxiliar de limpeza, teve sua rotina interrompida de forma brutal no dia 24 de fevereiro. Pilotando sua motocicleta no cruzamento entre a Avenida Mato Grosso e a Rua Rui Barbosa, foi atingida no pescoço por um fio solto de energia, caiu ao chão e precisou ser socorrida pelo SAMU. Lesões, afastamento do trabalho, gastos com medicamentos e reparos no veículo transformaram a vida de Aline num drama judicial. Representada pela advogada Rosane Neusa da Silva, ela cobra da Energisa indenização por danos morais e materiais: “Trata-se de típico caso de responsabilidade objetiva por risco da atividade, sendo incontroverso o ato ilícito da concessionária”, afirma a petição.

Semanas antes, a fotógrafa Maria Célia, 63, viveu algo semelhante. No cruzamento das ruas Rui Barbosa e 15 de Novembro, um emaranhado de fios enroscou-se num carro que fazia uma conversão e, esticado, a atingiu pelas costas. O impacto resultou em trauma craniano, perda de mobilidade no braço direito e uma labirintite pós-traumática. “Hoje não consigo nem segurar minha câmera. Minha vida virou de ponta cabeça”, relatou à imprensa.

Ambos os casos ocorreram em pontos centrais da cidade e não se tratam de acidentes fortuitos, mas de sintomas de um problema estrutural.

A omissão oficial e o silêncio das empresas

A rede aérea urbana de Campo Grande é um território de ninguém. A Energisa, responsável pela infraestrutura de energia elétrica, alega que o compartilhamento dos postes com operadoras de telefonia e internet é regido pela Resolução Conjunta ANEEL/ANATEL n° 4/2014. Esta prevê obrigações mútuas, mas, na prática, criou um limbo: ninguém assume a culpa quando acidentes ocorrem.

Diante dos casos recentes, a concessionária limitou-se a informar, por meio de nota, que irá “traçar iniciativas cabíveis no limite de sua atuação”. A Agência Estadual de Regulação (AGEMS), por sua vez, admitiu que não tem poder legal direto sobre a gestão do compartilhamento da rede, mas notificou a Energisa em outubro de 2024 e iniciou uma ação fiscalizatória inédita com engenheiros em campo. A inspeção ocorre agora, meses após os primeiros alertas da sociedade civil.

A AGEMS reforçou que a fiscalização do serviço de distribuição de energia é formalmente responsabilidade da ANEEL, mas reconheceu que, “diante das demandas do consumidor”, decidiu agir por iniciativa própria. Mesmo assim, a resposta pública ainda parece tímida frente à gravidade dos fatos.

Câmara Municipal reage, mas cobra ação efetiva

A tragédia de Maria Célia chegou ao Legislativo. Recebida pelo vereador Landmark (PT), a fotógrafa encontrou apoio institucional. O parlamentar questionou: “Quem vai indenizar a dona Maria? A Energisa? A prefeitura? A Claro? A NET? Essa é uma pergunta que ninguém responde”. Landmark já acionou a prefeitura, a ANATEL, a Energisa e as operadoras de telefonia e internet, e prepara um projeto de lei para regulamentar responsabilidades. “A cidade continua com fios pendurados nos postes, sobre rampas, sobre as cabeças das pessoas. Isso é um absurdo”, criticou.

Outros vereadores, como Ronilço Guerreiro e André Salineiro, também apresentaram propostas legislativas sobre o tema, mas a falta de regulamentação e fiscalização faz com que esses projetos permaneçam no papel.

O Ministério Público Federal, por sua vez, instaurou inquérito civil para apurar as responsabilidades, um passo que pode abrir caminho para ações civis públicas ou sanções administrativas. A fiscalização realizada pela AGEMS, ainda em andamento, poderá subsidiar juridicamente o MPF.

O fio invisível da negligência

Não é a primeira vez que infraestrutura urbana precária transforma acidentes em tragédias anunciadas. A recorrência de casos como os de Aline e Maria Célia denuncia uma lógica de abandono: a negligência se normaliza, os riscos se tornam parte do cotidiano e o poder público apenas reage após as vítimas.

O filósofo francês Paul Virilio já advertia que “todo novo meio técnico carrega em si um novo tipo de acidente”. No caso de Campo Grande, o avanço da urbanização sem coordenação, a privatização da infraestrutura urbana e o compartilhamento irresponsável de redes criaram um acidente permanente — cotidiano, silencioso, mas devastador.

Segundo relatório da ANEEL de 2023, as concessionárias brasileiras de energia foram responsáveis por mais de 8 mil incidentes com fiação em áreas urbanas em cinco anos, incluindo quedas de postes, curtos-circuitos e acidentes com pedestres. Mas os dados, quando não organizados de forma transparente por cidade, invisibilizam a escala local do problema.

Campo Grande não é exceção: é um microcosmo.

Entre o emaranhado físico e o institucional

O que os postes da cidade materializam não é apenas a fiação solta. É o nó institucional de uma cidade onde a infraestrutura é negligenciada, os direitos do consumidor são relativizados e a responsabilidade pública se dilui entre agências, empresas e departamentos.

É nesse contexto que a reação da sociedade civil, dos parlamentares locais e do Ministério Público se torna vital. Não apenas para buscar justiça às vítimas, mas para reformular a forma como os serviços urbanos são geridos.

A partir da dor de duas mulheres, e do clamor de uma cidade que não quer mais tropeçar na própria omissão, talvez seja possível enfim colocar ordem no caos elétrico – e devolver às ruas a segurança que é direito de todos.

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