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Campo Grande
Crise de relação da Prefeitura com fornecedores deixa milhares de pessoas sem medicação
Publicado em 10/10/2025 1:33 - Semana On
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A crise no abastecimento de medicamentos na rede pública de saúde de Campo Grande será tema de Audiência Pública na Câmara Municipal na próxima segunda-feira (13), às 9h. A iniciativa, proposta pela vereadora Luiza Ribeiro, busca discutir a precarização da assistência farmacêutica na Capital, incluindo o funcionamento do Programa Farmácia Popular e do Programa Dignidade Menstrual.
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O debate ocorre em meio a um cenário crítico: pelo menos 50 medicamentos essenciais estavam em falta nas unidades básicas e de pronto atendimento da cidade até julho deste ano, segundo reportagem do portal Semana On. A escassez atinge desde remédios simples, como dipirona, até insumos vitais, como oxigênio medicinal, comprometendo diretamente o atendimento primário e emergencial à população.
Segundo apuração do mesmo veículo, o desabastecimento não decorre da ausência de processos administrativos. Licitações já foram concluídas, ordens de serviço emitidas — mas os fornecedores deixaram de entregar os produtos devido à inadimplência da Prefeitura. Empresas que já haviam fornecido parte dos medicamentos retiveram novos lotes como forma de pressionar a gestão municipal pelo pagamento dos valores em atraso, alguns acumulados desde 2023, ainda sob a administração de Adriane Lopes (PP).
Com o impasse, pacientes que dependem do SUS precisam recorrer ao próprio bolso ou interromper tratamentos. Em bairros periféricos, moradores relatam dificuldades até para obter medicações para febre e hipertensão. Nas palavras de servidores e sindicatos da área, a rede de saúde da Capital vive um “colapso iminente”.
A gravidade da situação é reconhecida por especialistas. Para a médica sanitarista Lígia Bahia, professora da UFRJ e pesquisadora do SUS, o problema transcende a falta de verba: “O financiamento é, sim, um desafio histórico no SUS, mas a desorganização da gestão local é o que torna a situação dramática em muitos municípios”, afirmou à imprensa. Ela ressalta que a ruptura no fornecimento de medicamentos representa uma falha estrutural no princípio básico do sistema público: o acesso universal e contínuo à assistência.
A gestão municipal ainda não apresentou uma explicação oficial sobre os atrasos nos pagamentos, tampouco estabeleceu prazos para a regularização dos estoques. A ausência de transparência soma-se ao clima de desconfiança que já paira sobre a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), cujos próprios técnicos apontam a falta de planejamento como fator-chave da crise.
Do ponto de vista fiscal, os números chamam atenção. De acordo com dados do Tesouro Nacional, Campo Grande encerrou 2024 com mais de R$ 1,3 bilhão em receitas próprias. No entanto, enfrenta aumento de gastos fixos e atrasos em repasses estaduais e federais. A má alocação de recursos, combinada à inadimplência, coloca a gestão em xeque.
Além da assistência farmacêutica básica, a Audiência também discutirá o funcionamento do Programa Dignidade Menstrual, lançado pelo Governo Federal para garantir a distribuição gratuita de absorventes a pessoas em situação de vulnerabilidade. A execução local do programa, segundo denúncias de usuários e movimentos sociais, também é marcada por atrasos e cobertura irregular.
A crise em Campo Grande não é isolada. Ela reflete um problema estrutural que se repete em diversas cidades brasileiras: a negligência política com a saúde pública. Como alertou o ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, em artigo publicado na Folha de S.Paulo, “a crise do SUS não é apenas de financiamento, mas de vontade política”.
Enquanto vereadores, gestores e representantes do setor se reúnem para discutir saídas, a população segue enfrentando farmácias públicas vazias, filas intermináveis e a frustração de um sistema que, em vez de garantir o cuidado, abandona os mais vulneráveis.
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