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Campo Grande

Dívida com fornecedores deixa Campo Grande sem remédios

Adriane Lopes transformou direito em via-crúcis para quem precisa de atendimento

Publicado em 28/06/2025 10:11 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A crise da saúde pública em Campo Grande escancara mais do que a falência de uma gestão: revela a decomposição de um pacto social que deveria ter a dignidade humana como princípio. Sem medicamentos, sem profissionais, sem organização e — sobretudo — sem pagamento aos fornecedores desde 2023, a Prefeitura transformou o que deveria ser um direito universal em uma via-crúcis para quem precisa de atendimento. À margem de promessas, a população paga do próprio bolso pela sobrevivência. E morre esperando pelo que a Constituição já lhe garantiu.

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O Sistema Único de Saúde (SUS), criado pela Constituição de 1988 como resposta à histórica exclusão sanitária da população brasileira, foi concebido como uma das maiores conquistas da redemocratização. A ideia era simples e revolucionária: saúde como direito universal, gratuito e integral, sem discriminação de classe, cor, origem ou condição. No entanto, ao longo das décadas, esse ideal foi sendo corroído por políticas de austeridade, precarização da gestão pública e negligência administrativa — um processo que agora se manifesta de forma brutal em Campo Grande.

Sob a gestão de Adriane Lopes (PP), a capital sul-mato-grossense protagoniza um colapso não apenas orçamentário, mas ético. A falta de medicamentos em praticamente todas as unidades de saúde, inclusive os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), não decorre da ausência de insumos na indústria farmacêutica, como tenta justificar a Secretaria Municipal de Saúde. O problema é mais direto — e mais grave: trata-se de calote institucionalizado.

Fornecedores que abastecem a rede municipal relatam que a Prefeitura não quita faturas desde o ano passado. Um deles, com cerca de R$ 800 mil a receber, afirma que só recebeu parte do pagamento na última quinta-feira (26), mediante promessa de regularização até julho. Enquanto isso, as distribuidoras retêm os lotes de medicamentos vendidos, e os processos licitatórios são declarados desertos — porque ninguém quer fornecer para quem não paga.

A saúde como moeda política

O desmonte da saúde pública em Campo Grande reflete, em escala local, um processo político mais amplo que afeta o país desde os anos 1990: o avanço da lógica de mercado sobre os serviços públicos. Sob o discurso de eficiência e racionalidade fiscal, o Estado vai se retirando de áreas essenciais, transferindo responsabilidades para a iniciativa privada e para o próprio cidadão.

Essa transição é documentada por estudiosos como o economista francês Pierre Dardot, que chama a atenção para o “neoliberalismo como nova razão do mundo”, onde os direitos se transformam em produtos, e o cidadão vira cliente. No caso da saúde campo-grandense, o que se vê é uma gestão que cobra da população paciência, enquanto submete os mais pobres ao risco sanitário e ao abandono institucional.

Na audiência pública de 23 de junho, a superintendente Ana Paula Rezende apresentou um diagnóstico claro: de 23 medicamentos essenciais da rede de atenção psicossocial, 9 estavam em falta — entre eles, fármacos indispensáveis para epilepsia, transtornos de humor e crises psicóticas. Mas não cabe a ela resolver o problema. A responsabilidade recai sobre a Secretaria de Finanças, que retém os recursos e bloqueia a engrenagem de abastecimento.

A violência da falta e a banalidade do mal

Judith Butler, filósofa norte-americana, lembra que há vidas que o poder reconhece como dignas de luto — e outras que são deixadas morrer em silêncio. Quando o Estado deixa de fornecer medicamentos para epilepsia, quando impede o acesso a um psiquiatra ou recusa agendamento para especialidades médicas, ele não está apenas sendo ineficiente: está produzindo morte.

Foi isso que sentiu Gevanilson Cordeiro, 46 anos, que procurou por dois dias a UPA Tiradentes após crises de ansiedade. Ouviu que não havia consultas disponíveis. “Está a Deus dará”, resumiu. Já a jovem Nathiele Dias da Silva esperou mais de quatro horas por atendimento na UPA Leblon, dividindo espaço com pacientes que dormiam no chão.

Essas histórias individuais são, na verdade, expressões de uma experiência coletiva de abandono. A filósofa Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, fala da “banalidade do mal” como a normalização da violência burocrática — aquela que mata por omissão, não por fuzil. Campo Grande, hoje, é um estudo de caso em tempo real dessa lógica perversa.

Quando o direito vira luxo

A Constituição é clara: “A saúde é direito de todos e dever do Estado”. Mas quando o Valproato de Sódio, necessário para controle de epilepsia, custa R$ 60 nas farmácias e está indisponível nas unidades públicas, o que temos é uma inversão perversa — o cidadão que já paga impostos ainda precisa bancar sua própria sobrevivência.

O site da Prefeitura, que deveria oferecer transparência, apresenta listas de medicamentos com inconsistências: remédios que, segundo a gestão, estão em estoque, na prática, não são encontrados em nenhuma unidade. A própria Sesau admite que aguarda a entrega de lotes já licitados, mas ainda não pagos — como o Biperideno, Carbonato de Lítio, Diazepam, Fenitoína e outros.

A responsabilidade política

Desde abril, vereadores da Comissão de Saúde cobram soluções. O vereador Fábio Rocha (União Brasil) apresentou dados e ofícios ao líder da prefeita, Beto Avelar (PP), que reconheceu a gravidade da situação, mas pediu “paciência” à população. A fala é reveladora: quando a política abdica da gestão e apela à fé, resta aos cidadãos esperar milagres.

Mas paciência tem limite. E saúde não pode ser uma questão de sorte, fé ou favor. O drama de Campo Grande exige responsabilização administrativa, ação imediata do Ministério Público e, sobretudo, pressão popular organizada. É o pacto democrático que está em jogo.

O esquecimento como política de estado

Achille Mbembe, filósofo camaronês, define “necropolítica” como o poder de decidir quem vive e quem morre. A gestão municipal de Campo Grande, ao negligenciar sistematicamente a saúde pública, parece exercer esse poder todos os dias — de forma silenciosa, burocrática, mas devastadora.

É preciso romper esse ciclo. Porque cada medicamento negado, cada consulta adiada, cada paciente deixado no chão da UPA, representa não apenas uma falha de gestão. Representa um pacto rasgado entre Estado e sociedade. E esse pacto só se refaz com verdade, justiça e mobilização.

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