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Campo Grande
Capital paga por opções equivocadas na área do urbanismo e na prevenção de desastres
Publicado em 12/11/2025 2:02 - Semana On
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A Defesa Civil Municipal de Campo Grande informa que o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) emitiu Alerta Laranja para risco de tempestade na Capital. O aviso meteorológico para risco de tempestade iniciou às 23h desta quarta-feira (12) e segue até sexta-feira (14), às 22h59.
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De acordo com o INMET, estão previstas chuvas com volume entre 30 e 60 mm/h ou 50 e 100 mm/dia, acompanhadas de ventos intensos e granizo. Há risco de corte de energia, estrago em plantações, queda de árvores e alagamentos.
A Defesa Civil orienta a população a redobrar os cuidados, especialmente em áreas de risco. É fundamental evitar o trânsito em vias alagadas e procurar abrigo seguro durante tempestades, longe de árvores e redes elétricas.
Em caso de emergências, os seguintes canais estão disponíveis:
Solicitação de serviços e pessoas em situação de rua: 156
Ocorrências relacionadas à rede elétrica: 193
Defesa Civil: 199
A equipe da Defesa Civil está em plantão 24 horas para monitoramento e atendimento à população. Fique atento às atualizações e siga as orientações dos órgãos oficiais.
Filme repetido?
No último dia 5, um temporal com ventos fortes gerou ruas alagadas e mais de cem árvores caídas na capital. A população viu-se, mais uma vez, confrontada com os limites da infraestrutura urbana diante da nova realidade climática. As tempestades — cada vez mais frequentes e intensas — expõem não apenas os desafios meteorológicos, mas também as escolhas urbanísticas de uma cidade que ainda aposta majoritariamente em soluções do século passado para lidar com problemas do século XXI.
A lógica das grandes obras de contenção, como piscinões e bacias de drenagem, segue sendo o eixo estrutural da política urbana de Campo Grande. Exemplo disso são os três piscinões implantados na região do Nova Campo Grande/Serradinho desde 2022 e a inauguração, em julho de 2024, do reservatório nos altos da Avenida Mato Grosso. Embora úteis na redução dos picos de cheia em áreas críticas, essas soluções têm se mostrado insuficientes quando o volume de água ultrapassa a capacidade projetada — especialmente diante de eventos extremos que já não são exceção, mas recorrência.
O temporal de ontem, que veio apenas três dias após outra forte chuva na capital sul-mato-grossense, causou alagamentos em bairros diversos — do Centro ao Aero Rancho — e interrompeu o fornecimento de energia elétrica em múltiplas regiões. Veículos foram atingidos por árvores, e moradores compartilharam nas redes sociais o rastro de destruição. Esses episódios reforçam uma constatação que urbanistas, climatologistas e organismos internacionais vêm apontando há anos: a crise climática está em curso, e as cidades precisam mudar sua forma de lidar com a água.
Do “fim do tubo” à cidade como esponja
A proposta das chamadas cidades esponja representa uma mudança de paradigma. Em vez de repelir a água com concreto e canalizações — uma lógica reativa e localizada —, o modelo propõe convivência inteligente com a água desde o início do ciclo urbano. A estratégia é dispersar pequenas infraestruturas verdes pela cidade: ruas permeáveis, parques alagáveis, jardins de chuva, telhados verdes, wetlands. Cada uma delas funciona como uma pequena esponja, absorvendo e desacelerando a água da chuva antes que ela se acumule e cause enxurradas.
“Trata-se de atacar a causa do problema, não apenas seus sintomas”, destaca o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), em seus relatórios mais recentes sobre adaptação urbana. A infraestrutura verde-azul não apenas ajuda a reter a água como também reduz ilhas de calor, melhora a qualidade do ar e oferece espaços de lazer. É política climática baseada em ciência — e com co-benefícios sociais, econômicos e ambientais.
Esse modelo tem ganhado corpo especialmente na China, onde dezenas de cidades aplicaram sistematicamente o conceito nos últimos dez anos. Resultados publicados pela IWA Publishing mostram que, quando bem implementadas e mantidas, essas redes descentralizadas melhoram o controle de cheias e a qualidade da água.
Campo Grande entre dois paradigmas
Em 7 de agosto de 2024, Campo Grande deu um passo importante ao integrar o primeiro programa nacional de Soluções Baseadas na Natureza (SBN), que inclui ações como parques lineares e jardins de chuva. É um movimento promissor, mas ainda tímido. A cidade caminha para um modelo híbrido, em que as grandes obras cinzas continuam predominando, enquanto soluções verdes aparecem como complementares, não estruturantes.
Essa hesitação revela um dilema recorrente nas cidades brasileiras: como modernizar suas políticas urbanas diante de restrições orçamentárias, heranças estruturais e resistência política? A experiência de São Paulo, que há décadas investe em piscinões mas começa a incorporar soluções da cidade esponja, mostra que uma transição é possível — desde que haja vontade política, planejamento técnico e envolvimento comunitário.
Os grandes reservatórios funcionam como baldes gigantes. Mas quando chove a cântaros, não há balde que resolva. É preciso espalhar a inteligência da água pela cidade inteira.
Urbanismo e democracia: a quem serve a cidade?
A escolha entre piscinões e cidades esponja não é apenas técnica — é política. Trata-se de decidir entre modelos que concentram recursos em obras pontuais e aqueles que democratizam o acesso aos benefícios urbanos. Uma cidade que aposta em soluções verdes e integradas está, no fundo, escolhendo uma forma de urbanismo mais justa, que considera o bem-estar coletivo e a sustentabilidade futura como prioridade.
Como já advertia o filósofo francês Henri Lefebvre, autor do conceito de “direito à cidade”, a urbanização não deve se restringir à engenharia do espaço, mas incluir o direito dos cidadãos a participar da construção do ambiente urbano. Nesse sentido, adaptar a cidade ao clima não é apenas uma questão de infraestrutura — é um imperativo democrático.
O tempo mudou, a cidade precisa mudar
O caso de Campo Grande ilustra uma encruzilhada urbana global: manter o modelo de “obras de emergência” ou apostar numa cidade que absorve, aprende e convive com a água. Os temporais recentes não são acidentes, mas alertas. E como toda crise, oferecem uma oportunidade de reorientação.
Em tempos de colapso climático, como lembra o sociólogo Bruno Latour, “é a própria noção de progresso que precisa ser redesenhada, não como expansão infinita, mas como capacidade de permanecer habitável”.
É hora de decidir se queremos cidades com grandes reservatórios ou cidades que se tornem, elas mesmas, grandes instrumentos de resiliência. Porque a próxima tempestade não é uma questão de “se”, mas de “quando”.
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