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Campo Grande

Consórcio Guaicurus admite frota sucateada e descarta renovação

Empresa culpa desequilíbrio contratual e prefeitura pela crise no transporte em CG

Publicado em 21/07/2025 12:30 - Semana On

Divulgação Correio do Estado

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Mesmo com quase 200 ônibus fora da idade permitida circulando pelas ruas de Campo Grande, o Consórcio Guaicurus afirma que não há plano — nem previsão — para renovar a frota. Em entrevista ao Campo Grande News, o diretor-presidente da empresa, Themis de Oliveira, atribuiu a paralisação no investimento à falta de crédito no mercado financeiro, causada pelo “desequilíbrio econômico-financeiro” do contrato firmado com a Prefeitura.

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A declaração ocorre no momento em que a CPI do Transporte Público da Câmara Municipal prepara seu relatório final. O documento, a ser elaborado pela vereadora Ana Portela (PL), deverá recomendar justamente a renovação da frota, diante da constatação de que 197 dos 460 veículos operacionais já ultrapassaram a idade máxima permitida.

“Simples assim. Nenhuma montadora, Mercedes, Volkswagen, ninguém me entrega um ônibus sem financiamento para pagá-los”, afirmou Themis, ao justificar a paralisação dos investimentos. Segundo ele, o custo unitário de um ônibus a diesel, modelo atualmente utilizado, é de R$ 850 mil. Para renovar 200 veículos, seriam necessários cerca de R$ 170 milhões — valor inviável sem acesso a crédito, o que, por sua vez, depende de “um balanço saudável”.

Gratuidades e descumprimento contratual

Na tentativa de explicar o cenário de desequilíbrio, o consórcio aponta ainda o volume de gratuidades no sistema: “Hoje, de todo mundo que entra em um ônibus, um terço é gratuidade”, afirma Themis. Segundo ele, o repasse feito pelo poder público cobre apenas os estudantes das redes estadual e municipal, além de parte dos idosos, deixando um “desencaixe gigante” nas contas operacionais.

A crise, de acordo com o consórcio, não é pontual. Themis sustenta que o desequilíbrio contratual vem se acumulando desde 2012, com sucessivos descumprimentos por parte do poder público. “Em 2019 era prevista uma revisão contratual. O contrato previa duas revisões: uma em 2019 e outra em 2026. A de 2019 não foi feita. Estamos em 2025 e a próxima revisão será no ano que vem, sem que a primeira tenha ocorrido”, criticou.

Em 2019, o consórcio entrou com ação judicial contra a Prefeitura, alegando uma dívida de R$ 377 milhões. Segundo Themis, o único caminho possível para evitar o colapso é uma renegociação com a mediação de órgãos como a Agereg, Agetran, Câmara Municipal, Ministério Público, Tribunal de Contas e Tribunal de Justiça.

Prefeitura mandou retirar ônibus irregulares

Apesar do diagnóstico da empresa, a Prefeitura já havia determinado, em março deste ano, a retirada de 98 ônibus da frota — todos em desacordo com os critérios de idade máxima. Os veículos representam cerca de 20% da frota, conforme dados apresentados pela Agereg à CPI. O consórcio, no entanto, recorreu da medida, alegando que a retirada comprometeria a operação: “Se eu tirar 90 ônibus, vai faltar ônibus para a população. Vou deixar de atender linhas, vou deixar gente a pé”, disse.

Para Themis, a renovação da frota é prioridade “zero”, mas só poderá ser realizada após um reequilíbrio financeiro que viabilize acesso a crédito. “Se eu pudesse, trocava ontem”, afirmou. Ele reconhece que a modernização dos veículos reduziria custos de manutenção e melhoraria o atendimento à população, além de valorizar a empresa. Mas, por enquanto, admite que depende de ajuda dos acionistas para cobrir até mesmo despesas básicas, como a folha de pagamento e o diesel dos ônibus.

Um sistema em colapso anunciado

O colapso no transporte coletivo de Campo Grande não é novidade. Mas o que chama atenção, agora, é a naturalização da precariedade por parte de quem deveria garantir um serviço essencial. Enquanto a população enfrenta veículos sucateados, atrasos e superlotação, o consórcio e o poder público travam uma disputa de responsabilidades que se arrasta há mais de uma década — sem resultado prático.

Segundo o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), um sistema de transporte público eficiente exige previsibilidade de receitas, subsídios bem calibrados e fiscalização contínua. A ausência de qualquer um desses elementos leva à deterioração crônica do serviço. Campo Grande, ao que tudo indica, falhou em todos os pontos.

A CPI do Transporte Público se tornou, portanto, uma oportunidade rara: ou se constrói um novo modelo com regras claras, metas de renovação e mecanismos de financiamento estáveis, ou a cidade continuará refém de um sistema que reconhece seus próprios limites, mas não oferece soluções. Enquanto isso, quem paga a conta — literalmente — é o passageiro.

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