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Campo Grande
Volume acima da média agrava alagamentos e revela limites de ações emergenciais da Prefeitura
Publicado em 26/02/2026 9:41 - Semana On
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Campo Grande encerra fevereiro com mais de 300 milímetros de chuva acumulada — quase o dobro da média histórica para o período, segundo a Defesa Civil Municipal. O volume elevado intensificou alagamentos, quedas de árvores e danos à malha viária. Diante do cenário, a Prefeitura reforça operações emergenciais e aponta investimentos em drenagem. Mas os episódios recorrentes, especialmente na Avenida Rachid Neder, indicam que medidas pontuais e respostas reativas seguem insuficientes frente a um problema estrutural que se repete ano após ano.
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De acordo com o coordenador de Proteção e Defesa Civil, Eneas Netto, houve aumento nas ocorrências em comparação ao mesmo período do ano passado. “Temos observado muitas quedas de árvores e alagamentos de maior intensidade que no mesmo período do ano passado”, afirmou. Somente neste mês, foram registrados 143 atendimentos relacionados às fortes chuvas.
O dado é expressivo, mas não surpreendente. O crescimento urbano acelerado, a impermeabilização do solo e a ocupação de áreas sensíveis exigem sistemas de drenagem compatíveis com a nova realidade climática e demográfica. A própria administração municipal reconhece a necessidade de ampliação e modernização da infraestrutura diante da expansão da cidade.
Investimentos anunciados
A Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep) destaca a implantação de bacias de amortecimento como uma das principais estratégias para conter enchentes. Segundo o secretário Marcelo Miglioli, desde 2023 duas estruturas foram ativadas, três estão em execução e outras duas devem ter obras iniciadas em breve. “Hoje, uma das ferramentas que se utiliza para evitar enchentes são as bacias de amortecimento”, afirmou.
Essas estruturas têm função técnica clara: reter temporariamente o volume de água das chuvas, retardando o escoamento e reduzindo o pico de vazão nos córregos urbanos. Também foram mencionadas intervenções como o desassoreamento do córrego Imbirussu, na região do Zé Pereira; obras de drenagem e pavimentação no Bosque das Araras; e a limpeza do córrego Prosa, nas imediações do Shopping Campo Grande, que teriam reduzido pontos recorrentes de alagamento.
Há ainda exigências legais para empreendimentos com área impermeabilizada superior a 500 metros quadrados, que precisam apresentar sistema próprio de drenagem para obter licenciamento ambiental. O volume a ser retido e o destino da água são definidos no processo de autorização.
O conjunto de medidas indica esforço administrativo. O problema é que, na prática, os alagamentos persistem em áreas críticas — algumas delas há mais de uma década.
O caso da Avenida Rachid Neder
O cruzamento da Avenida Rachid Neder com a Avenida Ernesto Geisel tornou-se símbolo da vulnerabilidade urbana. O local concentra o encontro dos córregos Segredo e Cascudo. Em dias de chuva intensa, a rotatória fica submersa; motos e carros já foram arrastados pela correnteza. Em entrevista ao G1MS, a comerciante Gerusa Santos, moradora da região, resume o impacto cotidiano: “Toda vez que chove forte, a gente fica sem conseguir sair de casa”.
No início do ano, a força da água arrancou parte do asfalto no cruzamento com a Rua Pedro Celestino. A via foi interditada e posteriormente recuperada. A operação tapa-buracos segue na avenida, com mais de 200 pontos identificados, enquanto a Sisep informa que fecha, em média, 2,1 mil buracos por dia na Capital.
São números que impressionam — mas que também revelam a lógica predominante: reparar danos depois que eles ocorrem.
Especialistas apontam falhas estruturais. O engenheiro civil Antônio Carlos Sampaio afirmou ao G1 que o sistema de drenagem não suporta o volume de água proveniente da parte mais alta do bairro. Entre os fatores agravantes estão o asfalto deteriorado, lixo acumulado nas bocas de lobo e obstruções no leito do córrego canalizado.
Ele é direto ao apontar uma medida negligenciada: “Uma das soluções seria garantir a manutenção adequada da barragem de detenção do Córrego Segredo, que foi inaugurada em 2012, mas hoje está assoreada e não funciona como deveria”. Segundo o engenheiro, a limpeza e conservação da estrutura reduziriam significativamente o volume de água que atinge a rotatória em dias de chuva intensa.
A barragem existe há mais de dez anos. Se está assoreada e ineficiente, trata-se de falha de manutenção — não de imprevisibilidade climática.
A diferença entre reação e prevenção
A cada novo temporal, repetem-se as imagens: ruas interditadas, carros ilhados, equipes emergenciais mobilizadas, máquinas tapando crateras abertas horas antes. A resposta é rápida, mas episódica. O que falta é planejamento de longo prazo, com manutenção sistemática, monitoramento permanente das estruturas existentes e ampliação da capacidade de drenagem compatível com a expansão urbana.
A literatura técnica é clara sobre esse ponto. O urbanista e pesquisador Carlos Tucci, referência em drenagem urbana no Brasil, afirma que “o problema das enchentes urbanas é, essencialmente, consequência da forma como as cidades ocupam o solo e da ausência de planejamento adequado da drenagem. Ou seja, não se trata apenas de volume de chuva, mas de modelo de ocupação e gestão.
Com mudanças climáticas intensificando eventos extremos, episódios acima da média histórica tendem a se tornar mais frequentes. Isso exige revisão contínua dos parâmetros de projeto e das políticas públicas. Obras estruturantes isoladas, sem manutenção e sem integração a um plano diretor de drenagem atualizado, tornam-se paliativas.
Um problema conhecido — e recorrente
Campo Grande já conviveu, em anos anteriores, com situações semelhantes. O ponto da Rachid Neder não é novidade. O padrão se repete: chuva intensa, alagamento, interdição, reparo emergencial. A diferença, agora, é o volume acumulado de precipitação que expõe ainda mais as fragilidades do sistema.
Ao anunciar bacias de amortecimento e operações de recuperação viária, a Prefeitura apresenta respostas importantes, mas insuficientes se não vierem acompanhadas de manutenção rigorosa das estruturas existentes — como a barragem do Córrego Segredo —, fiscalização efetiva da impermeabilização do solo e investimentos contínuos em drenagem de micro e macrossistemas.
Enquanto isso não ocorrer, a cidade seguirá refém do calendário das chuvas. E cada fevereiro acima da média continuará servindo como teste — e diagnóstico — de uma infraestrutura que precisa deixar de ser remendada para, de fato, ser planejada.
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