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Campo Grande
Valor consome mais da metade de um salário mínimo
Publicado em 09/07/2025 1:14 - Semana On
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Em meio a um cenário nacional de instabilidade econômica e perdas de poder aquisitivo, Campo Grande (MS) passou a figurar entre as capitais com os maiores custos da cesta básica do Brasil. Dados divulgados ontem, terça-feira (8), pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) mostram que a capital sul-mato-grossense registrou alta de 0,46% no custo da cesta básica entre maio e junho de 2025, a quarta maior variação entre as 17 capitais pesquisadas. Com isso, o valor médio da cesta chegou a R$ 793,02, posicionando a cidade como a quinta mais cara do país.
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O aumento, aparentemente modesto, se soma a uma tendência preocupante: no acumulado de dezembro de 2024 a junho de 2025, a alta foi de 2,94%, índice superior à média nacional para o período. Entre as capitais, Porto Alegre (1,50%), Florianópolis (1,04%) e Fortaleza (0,91%) apresentaram aumentos ainda mais expressivos no mês de junho.
Mais alarmante, porém, é a relação entre esse custo e o rendimento do trabalhador. De acordo com o DIEESE, 56% do salário mínimo líquido atual (R$ 1.518,00) já são consumidos apenas para garantir os alimentos básicos de uma única pessoa. O cenário se agrava quando se leva em conta o cálculo do salário mínimo necessário para a sobrevivência digna de uma família de quatro pessoas, como previsto na Constituição: R$ 7.416,07, valor 4,89 vezes maior que o salário vigente.
Alimentos sob pressão: altas pontuais, queda em itens estratégicos
Entre os itens que puxaram os preços para cima em Campo Grande em junho, estão o café, com aumento de 3,32% no mês e impressionantes 113,14% nos últimos 12 meses, e o tomate, com alta mensal de 6,54%. O pão francês, ícone do café da manhã brasileiro, teve alta de 0,80% em junho e acumula 7,66% de aumento em um ano, com preço médio atual de R$ 17,13.
Já o leite integral, que havia ensaiado estabilidade, teve aumento discreto de 0,34%, fechando o semestre em R$ 5,88 por litro. Entre os derivados, a manteiga foi uma das poucas exceções à regra inflacionária, com queda de 3,01%, caindo para R$ 13,42 por embalagem de 200g.
Entre os in natura, o comportamento foi divergente: a batata caiu 0,88%, enquanto o tomate seguiu a tendência de alta. O feijão carioquinha, base da alimentação brasileira, teve leve aumento (1,18%) no mês, mas ainda registra queda de 9,71% em 12 meses, passando de R$ 7,62 para R$ 6,88. Já o arroz agulhinha, essencial em qualquer lar, caiu 4,68% no mês e acumula retração significativa de 20,87% no ano.
Impactos sociais e o abismo entre o real e o ideal
O aumento no custo da cesta básica evidencia uma fragilidade estrutural que se repete em diversas regiões do Brasil: mesmo com produtos pontualmente mais baratos, a alimentação continua a pesar de forma desproporcional no orçamento do trabalhador de baixa renda. O DIEESE alerta que a atual política de reajuste do salário mínimo está longe de acompanhar a elevação dos custos essenciais — um cenário que compromete o direito constitucional à alimentação adequada e à dignidade.
Segundo Ana Georgina Dias, economista do DIEESE e especialista em desigualdade social, “a alta do custo da cesta básica, mesmo que gradual, tem um efeito devastador para as famílias de menor renda, que destinam a maior parte do orçamento à alimentação” (Fonte: Entrevista concedida à Agência Brasil, 2024).
O contraste entre o salário mínimo real e o salário mínimo necessário — uma defasagem de mais de R$ 5.800 — evidencia uma desconexão entre as políticas salariais e as necessidades básicas da população. Em um país em que 33 milhões de pessoas vivem em insegurança alimentar grave, segundo dados da Rede Penssan, o debate sobre renda, acesso à alimentação e justiça social não pode ser adiado.
Perspectivas e desafios
Com a inflação dos alimentos pressionando famílias brasileiras e a recuperação econômica ainda incerta, a escalada silenciosa do custo da cesta básica em cidades como Campo Grande acende um sinal de alerta para gestores públicos e formuladores de políticas sociais. Combater a alta dos preços exige ação coordenada entre União, estados e municípios, com atenção especial à regulação de cadeias produtivas, apoio à agricultura familiar e ampliação das redes de proteção social.
Mais do que números, o valor da cesta básica reflete as condições reais de vida da população — e, em 2025, a matemática do cotidiano segue desafiando o discurso oficial de estabilidade econômica.
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