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Campo Grande
Com leitos lotados capital vive crise sanitária agravada por baixa cobertura vacinal
Publicado em 30/04/2025 10:35 - Semana On
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A crise na saúde pública em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, atingiu um ponto crítico: a ocupação de leitos hospitalares chegou a 100% e mais de 200 pacientes, entre adultos e crianças, aguardam por internação. A situação, desencadeada pelo aumento expressivo de doenças respiratórias, expõe não apenas a sobrecarga do sistema, mas também fragilidades históricas na estrutura hospitalar e na adesão da população à vacinação. Em meio à emergência, o poder público corre contra o tempo para conter o avanço da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), que já matou 79 pessoas na cidade.
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De acordo com o boletim da Sala de Situação de Vírus Respiratórios, divulgado nesta terça-feira (29), foram registradas 1.101 notificações de SRAG. Destas, 586 foram confirmadas, sendo 196 por Influenza, 196 por Vírus Sincicial Respiratório (VSR), 107 por Rinovírus e 44 por Covid-19. A Influenza, sozinha, foi responsável por 22 das mortes.
Com 186 adultos e 43 crianças na fila por leitos hospitalares, Campo Grande viu-se forçada a decretar situação de emergência no último sábado (26). As Unidades de Terapia Intensiva neonatal e pediátrica operam em sua capacidade máxima: 49 leitos neonatais e 24 pediátricos estão completamente ocupados. Em hospitais como a Santa Casa e o Hospital Regional, há três vezes mais pacientes do que vagas disponíveis.
A secretária municipal de Saúde, Rosana Leite, afirmou que a prefeitura vem adotando medidas emergenciais desde o início de abril, incluindo a capacitação de equipes para o manejo de doenças respiratórias, ampliação de atendimento pediátrico 24h em três unidades — UPA Coronel Antonino, UPA Universitário e CRS Tiradentes — e a contratação de 40 médicos. “Esse decreto foi muito bem analisado e pensado. Desde o dia 2 de abril ativamos nosso Centro de Operações de Emergência”, declarou. A projeção, no entanto, é sombria: a tendência de aumento nos casos deve persistir por pelo menos seis semanas.
Mesmo com a ampliação da vacinação contra a gripe para toda a população a partir de seis meses de idade, a adesão continua abaixo do esperado. Apenas 69.291 doses foram aplicadas — 18,52% de cobertura vacinal em uma população-alvo de 238 mil pessoas. Os números são especialmente alarmantes entre crianças e idosos, justamente os mais vulneráveis às complicações respiratórias.
Para o infectologista Júlio Croda, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a baixa adesão pode ter impactos devastadores. “Com elevadas coberturas e uma vacinação rápida, você pode, sim, reduzir o número, principalmente, de hospitalizações”, disse Croda. Ele alerta ainda para a importância de medidas preventivas, como o uso de máscaras e o distanciamento, sobretudo entre pessoas com mais de 60 anos ou com comorbidades. “Mais da metade dos óbitos se concentra nesse grupo”, afirmou (Fonte: Fiocruz, entrevista ao G1, 29/04/2025).
A atual situação de Campo Grande não é um caso isolado, mas espelha uma fragilidade sistêmica na saúde pública brasileira: subfinanciamento crônico, escassez de leitos e inércia nas políticas de prevenção. A pandemia de Covid-19 já havia revelado o quanto o país negligenciou por décadas os investimentos estruturais na saúde. Agora, diante de uma nova pressão viral — com a Influenza, VSR e outros vírus circulando simultaneamente —, os sistemas estaduais e municipais voltam a colapsar.
O filósofo francês Michel Foucault, em sua obra “O Nascimento da Clínica”, alertava para a forma como os sistemas de poder se expressam nos corpos e nas instituições. Em contextos de crise sanitária, essa relação se evidencia de maneira cruel: é o corpo do pobre, do idoso, da criança vulnerável que primeiro sucumbe à negligência estatal. No caso brasileiro, esse “biopoder” se manifesta na omissão em garantir acesso universal e igualitário à saúde pública de qualidade.
Além disso, como lembra a socióloga brasileira Vera Malaguti Batista, “a seletividade social da morte não é acidente: ela é planejada pelo abandono sistemático das políticas sociais” (“A Nova Qualidade do Castigo”, 2003). A atual crise, portanto, não é apenas sanitária — é também moral e política.
A prefeitura agora aposta em três frentes: reforço médico, ampliação da vacinação e reorganização do fluxo nas unidades de saúde. O apelo é para que os casos leves sejam direcionados às Unidades de Saúde da Família (USFs), que estão equipadas para esse tipo de atendimento, enquanto os casos mais graves devem seguir para as UPAs e CRSs, com atendimento 24 horas.
O quadro, contudo, só deve se reverter com maior mobilização coletiva. A vacinação, medida comprovadamente eficaz, depende da adesão popular. A resistência à vacina, nutrida por desinformação, negligência ou desconfiança, representa hoje um dos maiores obstáculos à superação da crise.
O momento exige mais do que gestão: requer consciência cívica, investimento público e ação coletiva. A defesa da vida, especialmente dos mais vulneráveis, deve ser o norte da política de saúde — e da democracia.
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