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Campo Grande
Semáforos falham e testes de radares avançam com custo milionário
Publicado em 11/07/2025 11:13 - Semana On
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Campo Grande enfrenta uma encruzilhada urbana: ao mesmo tempo em que anuncia a entrada em operação de um moderno sistema de fiscalização eletrônica avaliado em mais de R$ 50 milhões, convive com falhas estruturais que comprometem a mobilidade básica da população — como o apagão simultâneo de semáforos em cruzamentos estratégicos, ocorrido em plena hora de pico.
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Na última quarta-feira (9), um problema na rede semafórica afetou ao menos oito pontos de grande circulação, como as avenidas Afonso Pena, Mato Grosso, Ernesto Geisel e Fernando Corrêa da Costa. A interrupção comprometeu a fluidez do tráfego, gerou congestionamentos significativos e aumentou o risco de acidentes. Em nota, a Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran) informou que o apagão foi causado por uma manutenção na rede elétrica. A concessionária Energisa, no entanto, negou qualquer registro de falha no fornecimento de energia naquelas regiões — nem por parte dos seus sistemas internos, nem por reclamações da população.
Esse desencontro de versões entre poder público e concessionária não apenas levanta dúvidas sobre a real origem do problema, como escancara a fragilidade da comunicação entre as partes — e, pior, a vulnerabilidade de um sistema de controle viário que deveria garantir segurança e previsibilidade, especialmente em horários de pico.
A cidade que para, mas se monitora
Em contraste com a precariedade dos semáforos, a Prefeitura de Campo Grande anunciou que a partir do dia 6 de agosto entrará em fase de testes um novo e robusto sistema de radares. A medida faz parte da licitação de até R$ 50,2 milhões, cujo edital foi publicado no Diário Oficial do município. Seis pontos da cidade receberão os primeiros equipamentos em escala real: entre eles, os cruzamentos da Avenida Afonso Pena com a Rua Rui Barbosa, e da rotatória da Avenida Gury Marques com vias como a Costa e Silva e a Senador Antônio Mendes Canale.
O investimento é expressivo e vai muito além dos radares de velocidade. Inclui câmeras de videomonitoramento, sensores de ruído, sistemas de coleta de imagem, softwares para autuação eletrônica, uma plataforma integrada de dados e ainda um sistema de cerca eletrônica capaz de ler e armazenar placas veiculares por até 60 dias. Também está prevista a instalação de uma central de monitoramento no valor de R$ 1,5 milhão. Com isso, a prefeitura afirma que pretende modernizar a fiscalização, coibir infrações como avanço de sinal vermelho, paradas sobre a faixa de pedestres, circulação em faixas exclusivas e excesso de velocidade.
Durante o período de testes, a Agetran assegura que as infrações registradas não resultarão em multas. A avaliação é puramente técnica, segundo a pasta. Empresas de tecnologia de São Paulo e do Paraná já demonstraram interesse em participar do processo licitatório.
Diagnóstico duplo: tecnologia de vigilância versus ausência de controle
O que chama atenção nesse cenário é o paradoxo urbano que ele representa. De um lado, a administração municipal investe pesadamente em tecnologia de ponta para controle e punição do motorista — recurso legítimo, desde que atrelado a políticas públicas mais amplas de mobilidade, educação no trânsito e melhoria da infraestrutura viária. De outro, falhas corriqueiras em sistemas semafóricos, desatualização da sinalização e ausência de soluções efetivas para o transporte coletivo expõem a fragilidade do planejamento urbano de longo prazo.
Afinal, não há câmera que funcione se o cruzamento está às escuras. Não há radar que reduza congestionamento se a fluidez do tráfego depende da sorte de um semáforo funcionar. E não há banco de dados eficiente se a cidade não consegue sequer garantir o básico da circulação.
O sociólogo espanhol Manuel Castells já apontava, em sua teoria das cidades informacionais, que a simples introdução de tecnologias no espaço urbano não resolve os conflitos estruturais da vida nas metrópoles — pode, inclusive, agravá-los, ao priorizar o controle sobre o planejamento. Campo Grande parece estar entrando nessa armadilha.
Mobilidade como direito, não como vigilância
Embora a fiscalização eletrônica seja importante no combate a infrações e na prevenção de acidentes, sua eficácia depende da confiança da população e de sua articulação com um sistema de mobilidade mais justo. O investimento público precisa ser equilibrado: tão importante quanto fiscalizar é garantir que o cidadão consiga circular com segurança, previsibilidade e transporte de qualidade.
Em um momento em que cidades do Brasil inteiro debatem a mobilidade urbana como um direito — associado à acessibilidade, à inclusão e à sustentabilidade —, Campo Grande precisa responder: qual o plano maior para além dos radares?
Se a tecnologia for usada apenas para punir, e não para reorganizar o trânsito com foco no coletivo, o risco é transformar a cidade num grande campo monitorado onde tudo é visto, mas nada é resolvido.
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