Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Campo Grande

Campo Grande continua submersa em promessas vazias

Chuvas expõem décadas de descaso e ineficiência na infraestrutura da capital

Publicado em 19/03/2025 10:16 - Semana On

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Campo Grande amanheceu mais uma vez entre escombros e alagamentos. A tempestade que caiu na cidade na terça-feira (18) trouxe consigo um roteiro já conhecido pelos moradores: ruas transformadas em rios, motoristas ilhados, casas e comércios invadidos pela enxurrada, resgates dramáticos e a sempre presente explicação oficial de que “choveu o esperado para quinze dias”. O discurso, repetido agora pela prefeita Adriane Lopes (Progressistas), é apenas mais um capítulo na longa novela da inoperância do poder público diante de um problema crônico: a incapacidade de lidar com as chuvas.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

O volume de água registrado – cerca de 71 mm, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) – foi o suficiente para desmoronar, pela terceira vez em pouco mais de um ano, a estrutura da Avenida Filinto Müller e do Lago do Amor. Um local que deveria ser um cartão-postal da cidade se tornou o símbolo do desperdício de dinheiro público: apenas a última reforma custou R$ 3,8 milhões aos cofres municipais. Em menos de seis meses, a obra já cedeu novamente.

A enxurrada não apenas deteriorou infraestruturas recém-reformadas, como também colocou vidas em risco. Em uma cena dramática, um motorista e seu passageiro quase foram levados pela correnteza do Córrego Bandeira, sendo resgatados pela Polícia Militar no último momento. Enquanto isso, um morador em situação de rua foi flagrado “surfando” na enxurrada, em uma imagem que oscila entre a tragédia e o absurdo. O que poderia ser interpretado como um gesto de bravata diante do caos é, na verdade, o retrato do abandono e da vulnerabilidade social que também escorrem pelas ruas alagadas de Campo Grande.

A história se repete, e o poder público assiste

A destruição causada pela chuva não pode ser atribuída apenas a um evento climático extremo. O problema é estrutural e tem raízes profundas. A capital sul-mato-grossense sofre historicamente com uma urbanização desordenada, falta de investimentos consistentes em drenagem e, acima de tudo, com a negligência de sucessivas gestões municipais.

O Lago do Amor, por exemplo, já havia desmoronado em janeiro de 2023. Após dez meses de obras e promessas de que o problema não se repetiria, a barragem caiu novamente em outubro. Dois meses depois, a Prefeitura finalizou a recuperação da estrutura. Em março de 2024, menos de três meses após a última obra, o local voltou a ceder. O ciclo vicioso da reconstrução precária e das promessas não cumpridas se repete, como se a cidade estivesse fadada a viver sob os escombros de sua própria incompetência administrativa.

O secretário de Infraestrutura e Serviços Públicos, Marcelo Miglioli, atribuiu os danos à força da natureza e afirmou que “qualquer cidade do país que pega uma chuva torrencial vai enfrentar problemas”. A fala ecoa a tradicional estratégia dos governantes de minimizar o problema e naturalizar o desastre, como se o colapso das ruas e da infraestrutura urbana fosse um fenômeno inevitável. O argumento ignora que cidades como Curitiba e São Paulo, que também enfrentam chuvas torrenciais, possuem redes de drenagem robustas e estratégias eficazes para mitigar impactos.

Campo Grande e a urbanização sem planejamento

Os alagamentos de Campo Grande não são uma fatalidade climática, mas uma consequência de decisões políticas equivocadas e de décadas de negligência. O geógrafo e urbanista Milton Santos já alertava para os efeitos perversos da urbanização acelerada sem planejamento adequado: “O crescimento urbano descontrolado, aliado à falta de infraestrutura, transforma as cidades em verdadeiros laboratórios de desastres”.

A capital sul-mato-grossense cresceu sem o devido investimento em saneamento e drenagem. A Prefeitura não enfrenta o problema de frente, optando sempre por soluções paliativas e emergenciais, ao invés de estruturar políticas de longo prazo. Obras são feitas às pressas, com qualidade duvidosa e sem um planejamento que leve em conta a drenagem urbana, resultando em colapsos recorrentes e desperdício de recursos públicos.

A ausência de um plano eficiente de macrodrenagem se reflete no número alarmante de pontos de alagamento: 80 apenas nesta última chuva. Além disso, a precariedade da estrutura urbana coloca vidas em risco – uma bicicleta encontrada no Lago do Amor pode ser o único vestígio de uma vítima levada pela correnteza.

O que pode ser feito?

O problema dos alagamentos de Campo Grande não será resolvido com medidas paliativas e discursos vazios. São necessárias mudanças estruturais, como:

Revisão e ampliação do sistema de drenagem – O sistema atual é insuficiente para suportar chuvas intensas, o que demanda investimentos robustos e contínuos.

Gestão transparente dos recursos – Os sucessivos desmoronamentos do Lago do Amor mostram que o dinheiro público está sendo mal aplicado. Auditorias independentes podem garantir que obras sejam feitas com qualidade.

Desenvolvimento sustentável – O crescimento da cidade precisa ser acompanhado de planejamento adequado, evitando ocupações desordenadas que agravam os problemas de drenagem.

Adoção de infraestrutura verde – Técnicas como jardins de chuva, pavimentos permeáveis e recuperação de áreas alagáveis podem contribuir para minimizar os impactos das enchentes.

A negligência histórica das gestões municipais tem um custo alto, que recai sobre a população. Moradores perdem bens, comerciantes veem seus negócios inundados, e vidas são colocadas em risco. Enquanto o poder público se limita a justificativas e discursos evasivos, Campo Grande continua submersa – não apenas pela chuva, mas pelo descaso.

As águas que tomam as ruas da cidade a cada tempestade não são apenas consequência da natureza. São o reflexo de uma administração que, há décadas, prefere lidar com os escombros do que impedir que eles se formem.

Busca ativa contra a pobreza em MS


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *