Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Campo Grande

Campo Grande afunda em buracos e promessas

Falta de planejamento e histórico de abandono revelam crise mais profunda

Publicado em 08/04/2025 1:47 - Semana On

Divulgação PMCG

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Campo Grande (MS) vive uma realidade cada vez mais áspera — não apenas pelo asfalto irregular que desafia motoristas, ciclistas e pedestres diariamente, mas por um modelo de gestão que insiste em responder a problemas crônicos com soluções paliativas. Na manhã de ontem (7), a prefeitura deu início a mais uma edição da chamada “operação tapa-buracos”, com a ambiciosa meta de reparar de 1,5 mil a 2 mil buracos por dia. Mas por trás da marreta e da massa asfáltica, permanece uma pergunta inquietante: por que as ruas da cidade chegaram a esse ponto?

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

A ação, segundo a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), será realizada por sete equipes distribuídas em todas as regiões da cidade. No discurso oficial, o foco recai sobre o alto volume de chuvas e a necessidade de intervenções emergenciais. “Nós vamos fazer o mais rápido possível e vamos atacar os problemas mais graves”, afirmou o secretário Marcelo Miglioli.

Contudo, especialistas em planejamento urbano e políticas públicas apontam que a culpa não deve recair exclusivamente sobre o clima. “Problemas de infraestrutura são frequentemente resultado de décadas de má gestão, falta de manutenção e políticas públicas ineficazes”, destaca o urbanista e professor da USP Kazuo Nakano. Campo Grande não foge a essa lógica: o que vemos agora é o acúmulo de uma ausência histórica de planejamento estratégico e investimento adequado em infraestrutura.

A política do remendo

A ideia de “tapar buracos” não é apenas literal. Ela ilustra perfeitamente a postura adotada por administrações que preferem remendar os efeitos em vez de encarar as causas. A operação atual é apenas uma repetição de campanhas anteriores, sempre embaladas por promessas de eficiência, mas com resultados de curto prazo. A recorrência dessas ações aponta para uma falha estrutural: o modelo de manutenção adotado é reativo e improvisado, não preventivo nem sustentável.

Segundo dados do IBGE, Campo Grande tem mais de 4.000 quilômetros de vias urbanas. A ausência de recapeamento completo e sistemático em muitos desses trechos leva a um ciclo vicioso — buracos surgem, são remendados, o remendo cede, e um novo buraco aparece. O resultado é uma cidade esburacada, onde o cidadão comum paga com pneus estourados, acidentes evitáveis e um sentimento de abandono crescente.

A crise da cidade e o silêncio da gestão

Em um momento em que grandes centros urbanos discutem mobilidade sustentável, requalificação de espaços públicos e inclusão urbana, Campo Grande parece presa a um modelo de gestão urbana dos anos 80. O asfalto deteriorado não é só um problema visual ou funcional; é um retrato da negligência com o bem público. Como destacou o filósofo italiano Norberto Bobbio em Direita e Esquerda (1994), “a democracia não é apenas o governo da maioria, mas o governo em benefício de todos”. Quando um serviço essencial como o asfalto se torna uma loteria territorial — onde apenas algumas ruas são atendidas e outras seguem esquecidas —, rompe-se com esse princípio.

Mais grave ainda é o tratamento que a prefeitura parece dar à participação popular. A população pode relatar buracos via Central 156 ou pelo aplicativo Fala Campo Grande, mas essas ferramentas frequentemente enfrentam lentidão no atendimento e descompasso entre demanda e resposta. A retórica da “priorização de riscos” serve mais como escudo político do que como garantia de eficácia.

A cidade que se afunda

Do ponto de vista sociológico, a precarização da infraestrutura urbana tende a aprofundar desigualdades. Regiões periféricas — onde a mobilidade é mais dependente do transporte coletivo e a pavimentação já é precária — sofrem de forma mais intensa com os impactos da buraqueira. Em bairros como Coophavila, Los Angeles e Jardim Noroeste, moradores relatam dificuldades diárias para chegar ao trabalho ou levar filhos à escola. Nesses territórios, o buraco é também símbolo de invisibilidade política.

Enquanto isso, ruas como Afonso Pena, 14 de Julho e Júlio de Castilho voltam a receber atenção, perpetuando a lógica da centralidade privilegiada — uma crítica antiga feita por urbanistas como Ermínia Maricato, que já apontava em seu livro O Impasse da Política Urbana no Brasil (2000) que “as cidades brasileiras tendem a servir a uma minoria que usufrui do centro, em detrimento das maiorias periféricas”.

Caminhos possíveis

A solução não está em operações emergenciais, mas em políticas públicas integradas e duradouras. Exige-se um plano diretor urbano que funcione, auditorias nos contratos de recapeamento, transparência nas licitações e, sobretudo, vontade política de romper com o ciclo da precariedade institucionalizada.

É preciso ir além da estética do remendo. Campo Grande merece ruas transitáveis, mas também uma gestão que veja a cidade como espaço de vida — e não apenas como um campo de obras eleitoreiras. O buraco, afinal, não está apenas no asfalto. Está no modelo de cidade que se aceita construir.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Os comentários estão desativados.