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Campo Grande

Adriane Lopes quer fechar 15 unidades básicas e dois CRSs em Campo Grande

População enfrenta filas, falta de remédios e superlotação na rede pública

Publicado em 15/05/2026 12:59 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A prefeita Adriane Lopes (PP) e o secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, estudam fechar 15 unidades básicas de saúde e dois Centros Regionais de Saúde (CRSs) em Campo Grande como parte de um plano de contenção de despesas da administração municipal. A medida, admitida pelo próprio secretário durante reunião com vereadores na quinta-feira (14), aprofunda a crise da saúde pública na Capital e ameaça ampliar o cenário já marcado por superlotação, falta de medicamentos, escassez de profissionais e filas intermináveis por consultas e exames.

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A possibilidade de fechamento das unidades provocou reação imediata dentro da própria base política da prefeita. O vereador Maicon Nogueira anunciou a renúncia ao cargo de líder do PP na Câmara Municipal após tomar conhecimento das articulações da prefeitura. Em declaração contundente, afirmou não ser possível permanecer na liderança partidária diante de uma proposta que atinge diretamente a população que depende do Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo informações discutidas nos bastidores da reunião, os Centros Regionais de Saúde do Coophavila II e do Nova Bahia estão entre as unidades ameaçadas. O CRS do Coophavila, localizado na saída para Sidrolândia, poderia ser transformado em Centro de Atenção Psicossocial (Caps). Já o CRS do Nova Bahia, referência para uma das regiões mais populosas da cidade, teria outra destinação ainda não esclarecida oficialmente pela prefeitura.

O eventual fechamento do CRS Nova Bahia teria impacto direto sobre milhares de moradores da região norte da Capital, especialmente da grande Nova Lima, área historicamente marcada pelo crescimento populacional acelerado e pela insuficiência de serviços públicos. Na prática, a proposta empurraria pacientes para unidades já saturadas, ampliando o tempo de espera e dificultando ainda mais o acesso ao atendimento de urgência e atenção básica.

A justificativa apresentada por Marcelo Vilela, segundo relatos de participantes da reunião, seria a necessidade de reduzir gastos e remanejar profissionais de saúde para outras unidades. O secretário também mencionou possíveis decisões judiciais como argumento para a reestruturação da rede. No entanto, não apresentou estudos técnicos, diagnósticos assistenciais ou qualquer levantamento público que demonstre a viabilidade da medida ou seus impactos sobre a população.

A ausência de transparência provocou forte reação do Conselho Municipal de Saúde. O coordenador do órgão, Jader Vasconcelos, afirmou que o colegiado não recebeu comunicação oficial da prefeitura nem teve acesso a documentos técnicos que embasem a proposta.

“Recebemos com extrema preocupação a informação de que a gestão municipal estaria estudando o fechamento de duas unidades de urgência, dois CRSs e outras 15 unidades de saúde da família. Se essa informação se confirmar, trata-se de uma medida gravíssima, que pode representar redução concreta do acesso da população aos serviços públicos de saúde”, declarou.

A crítica do Conselho ganha peso diante do cenário atual da rede municipal. Campo Grande enfrenta uma crise persistente na saúde pública, marcada por falta de medicamentos básicos, demora para consultas especializadas, deficiência estrutural nas unidades e superlotação nos atendimentos de urgência. Em diversas regiões da cidade, usuários do SUS relatam espera de horas por atendimento e dificuldades até mesmo para conseguir procedimentos considerados simples.

Nesse contexto, especialistas em saúde pública apontam que reduzir a estrutura física da rede tende a produzir um efeito em cadeia sobre todo o sistema. O sanitarista Jairnilson Paim, um dos principais estudiosos do SUS no país, afirma que “o subfinanciamento e a redução da capacidade pública de atendimento comprometem diretamente o princípio da universalidade do sistema”. A declaração consta em entrevistas e artigos acadêmicos publicados pelo pesquisador da Universidade Federal da Bahia (UFBA), referência nacional em políticas públicas de saúde.

Criado pela Constituição Federal de 1988, o SUS é considerado uma das maiores políticas públicas de saúde do mundo, responsável por atender gratuitamente cerca de 190 milhões de brasileiros. Segundo dados do Ministério da Saúde e do IBGE, aproximadamente 70% da população brasileira depende exclusivamente do sistema público para consultas, exames, cirurgias, vacinação e tratamentos de alta complexidade.

Foi o SUS, inclusive, que sustentou a resposta brasileira durante a pandemia da Covid-19, realizando milhões de atendimentos e coordenando a maior campanha de vacinação da história do país. Apesar das deficiências crônicas provocadas por décadas de subfinanciamento, o sistema permanece como principal instrumento de acesso à saúde para a população mais pobre.

Em Campo Grande, porém, o que se observa é um movimento contrário à ampliação da rede pública. Antes da atual proposta de fechamento das unidades, Marcelo Vilela já havia fracassado na tentativa de transferir a gestão dos CRSs Tiradentes e Aero Rancho para organizações sociais. A proposta de privatização foi rejeitada pela Câmara Municipal por 17 votos a 11 após forte resistência de trabalhadores da saúde, usuários do SUS e entidades ligadas ao controle social.

A contradição da gestão municipal passou a ser alvo de críticas entre vereadores e lideranças da saúde pública. Enquanto a prefeitura alega falta de recursos para manutenção da rede, cogitava ampliar gastos com contratos de terceirização para organizações sociais administrarem unidades de saúde.

Jader Vasconcelos alertou que qualquer medida envolvendo fechamento ou reorganização da rede deveria passar obrigatoriamente pelo controle social e pelo debate público. Segundo ele, decisões dessa magnitude não podem ocorrer sem análise territorial, impacto assistencial e participação popular.

“O Conselho entende que a prioridade deveria ser fortalecer a Atenção Primária, ampliar o acesso, melhorar a estrutura das unidades, garantir equipes completas, resolver os gargalos da urgência e ampliar a retaguarda hospitalar. Fechar unidades, especialmente em territórios vulneráveis, pode agravar ainda mais o sofrimento da população”, afirmou.

A declaração evidencia o principal ponto de tensão envolvendo a política de saúde da atual gestão: enquanto a população enfrenta dificuldades crescentes para acessar serviços básicos, a prefeitura discute medidas que podem restringir ainda mais a presença do Estado nos bairros periféricos.

Ao ser questionado sobre o fechamento das unidades, Marcelo Vilela limitou-se a encaminhar a reportagem para a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Saúde. Em nota de apenas uma frase, a Sesau afirmou que “não há qualquer projeto ou medida em andamento para fechamento de unidades de saúde da Rede Municipal”.

A negativa oficial, no entanto, entra em choque com os relatos feitos por vereadores, integrantes do Conselho Municipal de Saúde e participantes da reunião em que o tema foi discutido. O fato de o secretário não ter negado a possibilidade durante o encontro ampliou a desconfiança sobre a existência de estudos internos para enxugamento da rede.

Mais do que uma disputa administrativa, o episódio escancara o aprofundamento da crise da saúde pública em Campo Grande. Em uma cidade onde milhares de famílias dependem exclusivamente do SUS para sobreviver, reduzir unidades de atendimento significa ampliar distâncias, prolongar sofrimentos e transformar ainda mais o acesso à saúde em privilégio — exatamente o oposto do que determina a Constituição Federal.

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