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Campo Grande

Adriane é intimada a provar acusações contra Marquinhos e Rose

Câmara cobra apuração sobre truculência da Guarda Municipal

Publicado em 05/12/2025 11:54 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A democracia se testa nos conflitos. E, em Campo Grande, ela parece em xeque — acuada entre a retórica beligerante da chefe do Executivo municipal e o uso controverso da força contra manifestações legítimas. No centro da tensão, a prefeita Adriane Lopes (PP) enfrenta uma queixa-crime por calúnia e difamação, apresentada pelo vereador Marquinhos Trad (PDT), e críticas severas à atuação da Guarda Civil Metropolitana (GCM) em protestos realizados durante o evento “Natal dos Sonhos”, no coração da capital sul-mato-grossense.

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Em decisão recente, o juiz convocado Ricardo Gomes Façanha, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, deu prazo de 15 dias para a prefeita apresentar provas que justifiquem suas declarações públicas contra Trad e a ex-deputada federal Rose Modesto. O vereador pede indenização de R$ 150 mil por danos morais, além da responsabilização criminal da prefeita, que, segundo ele, ultrapassou todos os limites da liberdade de expressão para adentrar no território da injúria institucionalizada.

“Contratados para tumultuar”: a narrativa sem provas

Durante entrevista concedida ao programa Tribuna Livre, da rádio FM Capital, Adriane Lopes afirmou que os protestos que interromperam o lançamento do evento natalino foram articulados pelos dois opositores — “ataques coordenados”, conforme descreveu. Acusou-os, ainda, de “contratar manifestantes que chegaram de ônibus”, além de atribuir a presença de “bandido armado com mais de 50 passagens” a uma suposta orquestração do vereador.

O problema? Nenhuma evidência foi apresentada. Os participantes do ato, majoritariamente mães atípicas que reivindicam atenção da gestão para políticas de inclusão, além de professores e servidores públicos insatisfeitos com o arrocho salarial, deslocaram-se por conta própria. A acusação, segundo Marquinhos Trad, é “notadamente falsa, delirante e infundada”.

As falas da prefeita seguiram um tom hostil: chamou Rose Modesto de “eterna desocupada” e “profissional da política”, e disse que Marquinhos Trad “não tem moral para defender as mulheres em Campo Grande”. Trata-se, como avaliam analistas políticos locais, de um movimento estratégico de desqualificação pessoal, num momento em que Adriane Lopes se vê politicamente enfraquecida e sob forte pressão social.

Da retórica à repressão: a Guarda Municipal no foco

Se a entrevista soou como ofensiva à reputação de opositores, a cena nas ruas foi ainda mais grave. O protesto ocorrido no sábado, 29 de novembro, terminou em confronto com a Guarda Civil Metropolitana. Houve prisões, uma mulher foi ao chão e ficou ferida, e uma idosa passou mal — imagens que correram as redes sociais e provocaram indignação generalizada.

Diante da repercussão, a Câmara Municipal convocou o secretário de Segurança e Defesa Social, Anderson Gonzaga, para prestar esclarecimentos. Em resposta, o gestor afirmou que os agentes agiram “em conformidade com a constitucionalidade” e que as imagens do ocorrido serão enviadas ao Ministério Público e à Polícia Civil. A corregedoria da própria Guarda também abriu investigação interna.

“Se houve excesso, isso precisa ser apurado”, afirmou o vereador Beto Avelar, líder do governo na Câmara. Já Rafael Tavares, autor do pedido de esclarecimentos, destacou que “o papel do Legislativo é garantir que a população tenha respostas”. As declarações evidenciam a tensão institucional entre os três poderes municipais — Executivo, Legislativo e forças de segurança — e o esforço de manutenção da legalidade e do controle democrático.

Criminalização da política e o risco à democracia local

O caso revela um sintoma mais profundo da política brasileira: a tentativa recorrente de deslegitimar protestos sociais, criminalizando opositores por meio de acusações infundadas. A cientista política Angela Alonso, pesquisadora do Cebrap, observa que “a repressão a protestos é, muitas vezes, sintoma de um poder acuado, que busca reafirmar autoridade pela força e pela retórica”. Em Campo Grande, esse diagnóstico parece ecoar com nitidez.

O uso da Guarda Municipal para conter manifestações não é novo, mas seu grau de truculência, aliado ao discurso agressivo da prefeita, levanta alarmes democráticos. É preciso recordar que o direito à manifestação pacífica é garantido pelo artigo 5º da Constituição Federal, e qualquer tentativa de constrangimento estatal deve ser vista com extremo rigor pela sociedade civil e pelos órgãos de controle.

Ademais, a retórica que associa o protesto à criminalidade remonta a práticas autoritárias — uma tendência preocupante que, como demonstrado no relatório da Human Rights Watch de 2023, tem se intensificado em administrações locais Brasil afora. A organização alerta que “a retórica de líderes políticos que estigmatiza opositores contribui para a erosão do espaço democrático”.

Ecos de um Brasil polarizado

O episódio em Campo Grande está longe de ser isolado. Ele se insere num contexto mais amplo de polarização política, onde o espaço público vira campo de batalha entre governo e oposição, e a divergência é tratada como afronta. Desde as manifestações de 2013, o Brasil testemunha a crescente tensão entre protestos populares e forças de segurança, fenômeno que sociologicamente pode ser interpretado como conflito entre cidadania ativa e institucionalidade resistente.

Max Weber já alertava que “a política é feita com a cabeça, não com as glândulas” — uma frase que parece ter sido esquecida por certos líderes públicos. O conflito atual em Campo Grande exige, mais do que nunca, maturidade institucional, responsabilidade com a palavra pública e respeito ao contraditório.

A reconstrução do diálogo democrático

O cenário campograndense coloca à prova o compromisso das instituições com a democracia. A resposta a esse episódio não pode ser o silêncio ou a complacência. A investigação precisa ser rigorosa, tanto no âmbito judicial quanto administrativo. E a palavra do poder público, sobretudo quando proferida por quem ocupa o mais alto cargo do Executivo municipal, precisa estar comprometida com a verdade, sob pena de enfraquecer toda a teia de confiança que sustenta a vida democrática.

Em última instância, o que está em jogo não é apenas uma disputa entre políticos, mas a qualidade do debate público e o respeito às garantias fundamentais. A política exige confronto, mas não calúnia. Divergência, mas não difamação. E, acima de tudo, exige compromisso com a cidadania — ativa, legítima e insubstituível.

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