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Campo Grande
Ataques a professora trans revelam nova investida contra direitos humanos e liberdade de expressão
Publicado em 17/02/2025 2:54 - Semana On
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O Brasil assiste, mais uma vez, a um espetáculo previsível, onde a extrema direita transforma a perseguição a minorias em palco para sua agenda política. A nova ofensiva tem como alvo a professora trans Emy Mateus Santos, que ousou vestir uma fantasia da personagem Barbie para recepcionar seus alunos no primeiro dia de aula em uma escola de Campo Grande (MS). O que deveria ser um gesto lúdico e inclusivo foi imediatamente convertido em motivo de ataques transfóbicos, inflamados por parlamentares bolsonaristas, que insistem em tratar a diversidade como inimiga da educação.
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A docente, que leciona Teatro e Dança na Escola Municipal Irmã Irma Zorzi, foi alvo de uma avalanche de discursos de ódio nas redes sociais e precisou registrar um boletim de ocorrência por transfobia. Seu “crime”? Exercitar uma abordagem pedagógica reconhecida, que utiliza elementos teatrais para envolver os estudantes no ambiente escolar.
No entanto, a fúria conservadora não tardou a instrumentalizar o caso para propagar sua cruzada moral. O vereador André Salineiro (PL) questionou publicamente a conduta da professora, insinuando que a escola havia sido transformada em “palco” para ideologias, enquanto o também vereador Rafael Tavares (PL) evocou o habitual argumento de “proteger as crianças” — um eufemismo frequentemente utilizado para mascarar discursos transfóbicos.
A reação mais grave, no entanto, veio da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, onde o deputado bolsonarista Cristiano Caporezzo (PL) apresentou um projeto de lei que visa proibir professores de usarem roupas que “enfatizem sua orientação sexual” e sejam “incompatíveis com a liturgia do cargo”. A proposta não apenas ignora a realidade do magistério, como escancara um viés autoritário e discriminatório, resgatando o fantasma de uma censura ideológica que remete aos tempos mais sombrios da história brasileira.
Extrema direita e a retórica da “neutralidade”
A tentativa de enquadrar o vestuário docente dentro de um código moralista e genérico — a chamada “liturgia do cargo” — nada mais é do que uma estratégia para impor um ideal excludente de normalidade. A falácia da neutralidade política e de gênero na escola já foi amplamente desmascarada por pedagogos e historiadores. A educação, por sua própria natureza, é um espaço de pluralidade, de contato com diferentes formas de pensar e existir.
O projeto de Caporezzo, ao buscar “dar um basta à militância LGBT em sala de aula”, não apenas reforça um discurso persecutório, mas também resgata a retórica do Escola Sem Partido — movimento amplamente rejeitado pela sociedade civil e pela Justiça por seu caráter autoritário. A suposta cruzada contra uma “doutrinação ideológica” nunca foi sobre proteger crianças, mas sim sobre silenciar identidades que não se encaixam na cartilha bolsonarista.
A história se repete: da censura à marginalização
A perseguição à diversidade na educação não é um fenômeno novo. Durante a ditadura militar (1964-1985), intelectuais, artistas e professores foram alvos de perseguições sistemáticas por desafiarem a ordem moral imposta pelo regime. Livros foram censurados, professores perderam seus empregos e estudantes foram submetidos a um ensino voltado à obediência e ao culto a valores conservadores.
Hoje, sob novas roupagens, essa mesma lógica repressiva se manifesta na tentativa de criminalizar a existência de pessoas LGBTQIA+ no ambiente escolar. Ao sugerir que um professor trans, ao vestir uma fantasia lúdica, estaria promovendo “autoafirmação das suas preferências sexuais”, Caporezzo ignora deliberadamente que identidade de gênero e orientação sexual não são sinônimos. Mais do que isso, reforça um discurso de patologização da diversidade, como se ser trans ou gay fosse um elemento que deve ser ocultado, reprimido ou punido.
O verdadeiro risco para as crianças
O verdadeiro perigo para as crianças brasileiras não está na presença de professores LGBTQIA+, mas sim na falta de uma educação que promova o respeito e a tolerância. Segundo um relatório da ONG Todos Pela Educação, o Brasil enfrenta uma grave crise educacional, com milhões de alunos em situação de evasão escolar e níveis alarmantes de analfabetismo funcional. Enquanto isso, parlamentares de extrema direita desperdiçam tempo e recursos com projetos que nada contribuem para a melhoria do ensino público, mas que cumprem o papel de alimentar sua base eleitoral.
A transfobia institucionalizada, expressa nesses ataques legislativos, também tem efeitos concretos. O Brasil segue sendo o país que mais mata pessoas trans no mundo, segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Negar a existência dessas pessoas na escola significa perpetuar esse ciclo de violência, impedindo que novas gerações cresçam em um ambiente onde o respeito à diversidade seja um valor fundamental.
Um país de exclusão ou de inclusão?
A questão central que emerge desses episódios é: que tipo de sociedade queremos construir? Uma que censure e persiga professores por sua identidade de gênero, impondo um modelo único de existência? Ou uma que abrace a diversidade como elemento fundamental da democracia?
A história nos mostra que as tentativas de silenciar minorias sempre acabam por fracassar. No entanto, o custo humano dessas ofensivas é alto. Emy Mateus Santos não é apenas uma professora trans atacada por extremistas — ela é o retrato de um país que precisa decidir entre a educação como ferramenta de libertação ou como instrumento de repressão.
Se o Brasil ainda deseja se ver como uma democracia plural, precisa reconhecer que sua escola deve ser um espaço de aprendizado, não de intolerância. O verdadeiro papel do professor não é se encaixar na “liturgia” autoritária de um grupo político, mas ensinar os alunos a pensar, respeitar e conviver com as diferenças. Pois, ao contrário do que prega a extrema direita, educação não é doutrinação — mas censura, sim.
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