21/04/2024 - Edição 540

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Não é fome!

O que explica os cães lamberem a própria boca

Publicado em 23/03/2024 8:32 - UOL

Divulgação Unsplash

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É muito comum cães apresentarem o comportamento de lamber a própria boca (mouth-licking, em inglês). Se isso ocorre quando o cão está prestes a ser alimentado ou diante de um alimento, trata-se de algo ligado à salivação e ao desejo de comer. Entretanto, muitos cães apresentam esse mesmo comportamento em situações não associadas ao ato de se alimentar. Um artigo publicado por pesquisadores do IP/USP (Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo) na revista “Behavioural Processes” ajuda a entender por que isso ocorre.

O estudo constatou que quando os cães percebem algo negativo que afeta o próprio estado emocional deles (possivelmente também de forma negativa), eles apresentam um sinal visual, que é o ato de lamber a própria boca. Quando nós, seres humanos, vemos alguém com um rosto fechado, com uma cara de bravo, isso pode mudar nosso estado interno. Com os cães parece ocorrer algo semelhante.

O estudo constatou que os cães lambem a própria boca a partir de um contato visual com uma expressão negativa seja de um homem, de uma mulher ou de um outro cão. Entretanto, nos estudos realizados, o mouth-licking ocorreu predominantemente a partir da visualização de uma imagem de expressão negativa de um ser humano (homem ou mulher), mas independentemente da emissão de algum som indicativo de emoção.

O fato de expressar mais esse comportamento para seres humanos e estar relacionado apenas com o visual e não auditivo permitiu associar esse comportamento à domesticação. Ao longo do processo de evolução, isso teria facilitado a comunicação entre cães e pessoas.

Entretanto, ainda não há informações comprovando que os cães fazem isso de forma intencional, ou seja, com a intenção de comunicarem o que sentem aos seres humanos. Talvez em estudos futuros seja possível desvendar o fato, mas, por enquanto, não há mais detalhes.

Existe uma literatura que associa o mouth-licking a respostas ao estresse no cão. No entanto, esse comportamento nunca havia sido avaliado sistematicamente por meio de estudos científicos. Em meio a isso, há muitas informações circulando sobre comportamento de cães sem real fundamentação teórica.

Como exemplo, podemos citar um desses mitos: o de que, ao balançar o rabo, o cão está sinalizando amizade e que podemos nos aproximar dele.

Atualmente, estudos têm mostrado que balançar o rabo pode sinalizar diversas coisas, como agressividade, frustração e felicidade. Isso mostra que não é algo tão simples e não compreender verdadeiramente esses comportamentos pode até ser perigoso, pois o cão pode balançar o rabo por se sentir acuado e estar sinalizando que não quer uma aproximação.

Cães reconhecem expressões faciais

Para chegar à conclusão de que o mouth-licking expressa uma reação do cão a emoções negativas, foram analisados vídeos gravados anteriormente, durante uma pesquisa sobre reconhecimento de emoções faciais por cães. Os testes foram realizados com 17 animais e as filmagens resultaram em 34 horas de vídeos.

Neste estudo anterior, os cães foram expostos a imagens de homens, mulheres e cães com expressões faciais de raiva e de alegria. No momento da exposição era tocado um som (vozes de humanos e latidos de cachorros), durante 5 segundos (mesmo tempo de apresentação das imagens), e que poderia ser positivo, negativo ou ser um som neutro.

Foi constatado, com o comportamento dos cães, que eles reconheciam o conteúdo emocional do estímulo. Diante de um som positivo, os cães passavam mais tempo olhando para a imagem correspondente a essa emoção. E o mesmo acontecia para estímulos negativos.

Ao fazer uma codificação detalhada dos vídeos, notou-se que era comum os cães apresentarem o comportamento de mouth-licking. As análises atuais, então, mostraram que o mouth-licking está relacionado à percepção de emoções negativas, de seres humanos, transmitidas pelo canal visual.

Fonte: os dados dessa análise fazem parte de uma tese de doutoramento da bióloga Natalia de Souza Albuquerque, pelo Instituto de Psicologia da USP. A orientação do trabalho é da professora Briseida Dôgo de Resende, além da colaboração do grupo de pesquisadores da Universidade de Lincoln


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