25/05/2024 - Edição 540

Artigo da Semana

Tenho medo das pessoas comuns que veem em Bolsonaro um exemplo

Publicado em 09/10/2018 12:00 -

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Hoje fui resolver algumas questões burocráticas num departamento público. Em meio a troca de papeladas e assinaturas, o funcionário faz um comentário positivando a “honestidade” do candidato Jair Bolsonaro: “eu gosto dele, porque ele pelo menos diz a verdade. Ele fala o que pensa, sem medo do que os outros vão falar”.

Eu começo a argumentar (consciente de que não estava sendo ouvida) que a valorização dessa dita liberdade de expressão, na verdade, mascara o apoio ao conteúdo do que ele está falando, e não a forma. Ou seja, o que seria um simples “apoio a forma livre e desimpedida de falar do candidato’, na realidade, é um apoio às ideias racistas, homofóbicas e machistas que ele propaga. É apoiar o ódio à diferença. É apoiar a possibilidade de expressar abertamente e mesmo colocar em exercício esse ódio. Tanto é isso, que logo em seguida o funcionário começa a defender a importância de se legalizar o porte de armas, para que “as pessoas possam se defender”.

Questiono ele se a resposta à violência seria propagar mais violência, ao facilitar o acesso e a convivência com armas letais. Ele, então, pega um pesado grampeador que estava na mesa, aponta o grampeador na direção da minha cabeça e diz, enquanto eu me encolho ao seu movimento, “isso pode ser uma arma. Se eu quisesse, podia te matar com uma paulada disso na sua cabeça. Não precisaria de um revólver.”

Ainda continuando a conversa, porque, afinal, eu aguardava o término do processamento dos meus documentos, ele continua: “Porque eu, por exemplo, não tenho nada contra homossexual, contra negro, contra mulher. Mas isso é a opinião pessoal dele, do Bolsonaro. Cada um tem a sua. Agora, se tem uma coisa que eu odeio, é motoqueiro.”

Eu interrompo: Ok, você não gosta de motoqueiros, mas nem por isso você prega a violência contra os motoqueiros. — “Eu já atropelei um motoqueiro”. — Peraí, você PROPOSITALMENTE atropelou um motoqueiro, na intenção de machucar/matar ele? — “Sim. Esses caras não têm limite, eles têm que aprender o que é limite”.

Fico muda. Pergunto se preciso assinar mais alguma coisa, ele diz que não. Pego meus papéis e saio da sala, pálida.

Me assusta menos pensar o que efetivamente vai fazer o candidato Jair Bolsonaro – que conseguiu aprovar dois projetos em quase 30 anos na política – se ganhar as eleições, do que a revelação daqueles/as que o têm como exemplo, como alguém a se admirar. A admiração da sua “liberdade de fala” é, na verdade, a libertação que ele representa de todas as amarras morais e éticas que fazem com que um holocausto, tal qual aconteceu na Alemanha nazista, por exemplo, não volte a acontecer.

O que ele representa é a liberdade de poder odiar a diferença, tudo aquilo que não cabe em padrões extremamente restritos de existência (ser homem, branco, hétero, magro, não pobre…) e, ainda assim, não sofrer repreensões morais, éticas e até mesmo penais. É a liberdade de poder atropelar o motoqueiro “para ensinar limites”. De fingir ameaçar uma mulher com um grampeador para ilustrar o lugar de vulnerabilidade dela na conversa.

Um Hitler, por si só, seria totalmente incapaz de criar a magnitude de todo um sistema genocida responsável por matar mais de 6 milhões de pessoas. Foram “pessoas comuns”, funcionários públicos, profissionais das mais diversas áreas que não apenas apoiaram o ódio à diferença pregado por Hitler, como efetivamente tornaram possível a existência e perpetuação de campos de concentração que exterminavam centenas de pessoas por dia.

Me assusta pensar que, em larga medida, a maior parte das pessoas são fascistas. E agora elas têm um exemplo para poder se espelhar, orgulhosamente.

 Sara Vieira Antunes – Doutoranda em Antropologia Social pela USP. Mestre em Antropologia Social pela UNICAMP. Graduada em Ciências Sociais pela UNICAMP. Integrante do Grupo de Trabalho “Saúde Mental e Liberdade” da Pastoral Carcerária de São Paulo.


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