Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Tecnologia
Museus brasileiros enfrentam negligência e tragédias enquanto especialistas apostam na Inteligência Artificial como aliada
Publicado em 02/03/2025 10:07 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
Em 2 de setembro de 2018, o Brasil assistiu, perplexo, às chamas consumindo o Museu Nacional, no Rio de Janeiro. O incêndio destruiu mais de 20 milhões de itens históricos, incluindo fósseis, documentos científicos e artefatos indígenas inestimáveis. O desastre evidenciou o colapso da política de preservação do patrimônio cultural do país. O orçamento do museu, à época, era tão precário que não havia sequer um sistema de sprinklers para conter as chamas. O quadro de abandono se repetiu em 2015, quando o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, também foi devastado pelo fogo.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
Mais recentemente, as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, acrescentaram mais um capítulo trágico à história da negligência patrimonial no Brasil. O Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) perdeu cerca de 70% de seu acervo, evidenciando a vulnerabilidade estrutural das instituições culturais brasileiras.
Tais tragédias não são acidentes isolados, mas sintomas de um problema mais profundo: o desmonte da cultura como política pública. “Muitos museus pegaram fogo no Brasil nos últimos 15 anos, em sua maioria ligados à esfera pública. Certamente a falta de recursos colaborou para o que aconteceu. Mas é preciso destacar também a dificuldade e a necessidade urgente de adequação dos prédios históricos às tecnologias que garantam sua segurança física”, afirma Thainá Castro Costa, professora de Museologia da UFSC.
A precariedade é agravada por cortes sucessivos no orçamento da cultura. O Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), órgão responsável pela fiscalização e gestão de cerca de 4 mil museus no país, sofreu uma redução drástica de recursos para 2025. Dos R$ 106 milhões inicialmente previstos, apenas R$ 79 milhões foram mantidos após cortes do governo federal.
“Temos feito ações para que a fiscalização seja pedagógica e orientativa, para apresentar aos museus o que precisa ser feito para evitar novas tragédias”, afirma Dalton Lopes Martins, coordenador-geral de sistemas de informação museal do Ibram. No entanto, Martins reconhece que a falta de laboratórios de conservação, reservas técnicas adequadas e verbas regulares são desafios quase intransponíveis.
Diante dessa realidade de abandono, incêndios e enchentes, a pergunta que se impõe é: como garantir a preservação do patrimônio histórico e cultural brasileiro?
O potencial da Inteligência Artificial na proteção dos acervos
Enquanto o setor cultural enfrenta cortes orçamentários, a tecnologia avança em ritmo acelerado. Países como França, Reino Unido e Alemanha já utilizam Inteligência Artificial (IA) para digitalizar acervos e prever riscos estruturais nos museus.
No Brasil, a aposta em IA para gestão do patrimônio cultural começa a ganhar força com iniciativas como a pesquisa do doutorando Vagner Inácio de Oliveira, da Unicamp, que desenvolve um sistema de catalogação automatizado. O objetivo é reduzir o tempo e os custos da digitalização dos acervos, minimizando erros humanos.
“Hoje, um museólogo consegue catalogar, em média, apenas sete itens por dia, levando em conta todo o processo de curadoria e digitalização”, explica Oliveira. A IA pode aumentar essa produtividade em várias ordens de grandeza.
A segunda fase do projeto pretende criar algoritmos para identificar a origem e a época dos objetos históricos, permitindo a autenticação mais rápida de peças.
Além da catalogação, sistemas de IA podem ser empregados na segurança do patrimônio. Sensores inteligentes e algoritmos de machine learning são capazes de:
Detectar falhas estruturais nos prédios históricos antes que desastres aconteçam;
Monitorar variações climáticas e umidade para evitar a degradação de obras de arte e documentos;
Prever padrões de incêndios e inundações com base em simulações e históricos de incidentes.
Contudo, a implementação dessas tecnologias nos museus brasileiros ainda depende de investimentos contínuos e superação da burocracia estatal. “A burocracia pode atrasar essa adoção por anos”, alerta Oliveira. “Embora os investimentos tenham aumentado nos últimos anos, ainda há muito a ser feito para viabilizar plenamente essas tecnologias”.
O Brasil em contraste com experiências internacionais
A adoção de IA na preservação patrimonial já é uma realidade consolidada em diversos países. O Louvre, em Paris, por exemplo, digitalizou grande parte de seu acervo e usa algoritmos para monitoramento ambiental dentro do museu, garantindo a conservação de suas obras-primas.
Nos Estados Unidos, o Smithsonian Institution desenvolveu um banco de dados digital alimentado por IA, facilitando a pesquisa e proteção de peças raras. No Reino Unido, o British Museum utiliza aprendizado de máquina para autenticação de artefatos arqueológicos, reduzindo fraudes e aprimorando estudos históricos.
O Brasil, por outro lado, ainda engatinha nesse processo. Enquanto países desenvolvidos tratam a cultura como parte essencial de sua identidade e poder soft, no Brasil o setor sofre com desmonte, censura ideológica e cortes sistemáticos de verbas.
O que falta para o Brasil avançar?
A implementação da Inteligência Artificial na gestão dos museus brasileiros depende de uma mudança estrutural nas políticas públicas. Isso inclui:
Investimento contínuo em pesquisa e infraestrutura – A digitalização de acervos e a implementação de sensores inteligentes demandam financiamento adequado, que hoje é insuficiente.
Capacitação técnica dos profissionais – Museólogos, restauradores e gestores culturais precisam ser treinados para utilizar as novas tecnologias.
Superação da burocracia estatal – Hoje, a lentidão nos processos administrativos impede a modernização dos museus e dificulta a implementação de inovações.
Parcerias entre setor público e privado – Empresas de tecnologia e universidades podem atuar em colaboração para desenvolver soluções viáveis.
A IA pode, de fato, ser uma aliada essencial na preservação do patrimônio cultural brasileiro, mas sem uma política de Estado clara e duradoura, continuará sendo apenas uma promessa distante.
Eric Hobsbawm alertava que “a destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que ligam a experiência contemporânea às gerações anteriores – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX”. O Brasil, ao negligenciar seu patrimônio cultural, não apenas apaga sua história, mas compromete sua identidade e memória para as gerações futuras.
A Inteligência Artificial pode ser uma ferramenta de resistência contra esse apagamento. Mas, antes de tudo, é preciso que o país decida se quer, de fato, preservar sua memória.
Deixe um comentário