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Tecnologia

IA já prevê decisões humanas com surpreendente precisão

Modelo Centaur acerta até 64% das escolhas em testes psicológicos

Publicado em 16/07/2025 3:38 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Quantas das nossas decisões são realmente nossas? Essa pergunta — que por séculos ocupou filósofos, psicólogos e neurocientistas — acaba de ganhar uma nova dimensão com o avanço da inteligência artificial. Pesquisadores do Centro Helmholtz de Munique desenvolveram um modelo de IA chamado Centaur, capaz de prever decisões humanas com um índice de acerto de até 64%. Embora não seja uma taxa perfeita, supera significativamente o acaso e demonstra que, com dados suficientes, a lógica de nossas escolhas pode ser capturada por algoritmos — ainda que parcialmente.

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O modelo foi treinado com mais de 10 milhões de decisões humanas, extraídas de 160 experimentos psicológicos clássicos envolvendo cerca de 60 mil participantes. As tarefas variavam de categorizações cognitivas a decisões em jogos de azar. Os cientistas alimentaram o Centaur com 90% desse banco de dados e, posteriormente, avaliaram seu desempenho nos 10% restantes, que haviam sido mantidos em sigilo para o teste. O resultado surpreendeu: o Centaur não só acertou com precisão estatisticamente relevante, como também demonstrou robustez ao prever decisões em cenários levemente alterados — uma indicação de que o modelo consegue generalizar comportamentos.

A evolução do entendimento sobre a mente humana

Historicamente, o entendimento do comportamento humano oscilou entre concepções deterministas e crenças na autonomia da vontade. René Descartes, no século XVII, fundava sua filosofia na ideia de um “eu” racional e livre. Já no século XX, o behaviorismo de B.F. Skinner e os estudos de Daniel Kahneman e Amos Tversky demonstraram que nossas decisões são fortemente influenciadas por viéses cognitivos inconscientes e contextos externos — abrindo caminho para modelos como o Centaur.

A inovação central do Centaur é sua capacidade de traduzir padrões de comportamento para a linguagem computacional. “Isso foi alcançado com a tradução dos resultados de experimentos clássicos sobre tomada de decisões para a linguagem”, explica o cientista comportamental Clemens Stachl, diretor do Instituto de Ciência e Tecnologia Comportamental da Universidade de St. Gallen. Segundo ele, a aplicação prática da tecnologia é “óbvia”, uma vez que esse tipo de modelo foi desenvolvido com base em arquiteturas abertas da Google e da Meta — duas das maiores empresas de dados do planeta.

A personalização como armadilha

Na prática, o que esse tipo de tecnologia representa é a consolidação de uma nova fase da sociedade de controle — não mais baseada na vigilância direta, mas na previsão comportamental. Plataformas como TikTok ou Instagram já se utilizam de modelos semelhantes para maximizar o tempo de engajamento dos usuários. “Esses modelos agora são muito bons – pense, por exemplo, em como o TikTok sugere vídeos para manter os usuários no aplicativo pelo maior tempo possível”, comenta Stachl.

A lógica é simples e eficiente: quanto mais previsível for o comportamento do usuário, maior a capacidade da plataforma de oferecer conteúdo ou produtos que ele não apenas deseja, mas que ainda nem percebe desejar. Como advertiu o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han em Psicopolítica (2014), vivemos uma era em que o poder se exerce não mais por repressão, mas por sedução algorítmica. O Centaur é um salto significativo nesse processo.

Aplicações desejáveis e perigos inegáveis

A capacidade de prever decisões humanas pode, por um lado, contribuir positivamente em setores como saúde mental, educação personalizada, política pública e até combate à desinformação. Modelos como o Centaur podem auxiliar, por exemplo, na identificação precoce de transtornos cognitivos ou na elaboração de estratégias pedagógicas mais eficazes, baseadas em padrões de tomada de decisão.

Por outro lado, como alerta Stachl, o uso indiscriminado dessas ferramentas pode levar a formas sofisticadas de manipulação digital, e até mesmo a uma espécie de “escravidão algorítmica”. A ideia de que estamos sendo guiados não por escolhas autênticas, mas por sugestões projetadas para manter-nos engajados, viciados e consumindo, não é mais distopia — é realidade.

“Há o risco de que esses modelos nos tornem cada vez mais previsíveis e levem a uma forma de dependência digital”, alerta Stachl.

O que está em jogo: liberdade, autonomia e regulação

A discussão sobre IA preditiva ultrapassa os limites da tecnologia. Ela envolve questões éticas, jurídicas e políticas profundas. Quem controla os dados comportamentais? Com que grau de transparência essas previsões são feitas? É aceitável que decisões governamentais, sentenças judiciais ou políticas de crédito se baseiem em modelos que antecipam — mas não explicam — nossas motivações?

A regulação da IA é hoje um tema urgente em fóruns internacionais. A União Europeia, por exemplo, aprovou em 2024 a AI Act, considerada a primeira legislação abrangente sobre o uso ético da inteligência artificial, estabelecendo limites para sistemas de “alto risco”, como aqueles utilizados para vigilância em massa ou manipulação de comportamento. No entanto, como observa Stachl, “não só a ciência, mas também juristas e tomadores de decisões políticas serão chamados a dar mais atenção a essa questão”.

O Centaur não representa apenas um avanço técnico. Ele simboliza uma transição histórica: o momento em que a inteligência artificial deixa de apenas imitar a mente humana para tentar antecipá-la. Isso redefine não apenas o que é ser humano, mas o que significa decidir.

Num mundo em que nossas escolhas são continuamente antecipadas, talvez a maior rebeldia seja agir de forma imprevisível. Ou, pelo menos, exigir que as decisões sobre o uso da IA sejam tomadas de forma coletiva, transparente e ética — antes que sejamos reduzidos a dados, padrões e previsões.

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