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Tecnologia

DeepSeek: chatbot chinês silencia perguntas ‘sensíveis’

Temas como Taiwan e o massacre da Praça da Paz Celestial são ignorados

Publicado em 09/02/2025 11:36 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O aplicativo chinês de inteligência artificial DeepSeek chamou atenção global ao ser lançado, destacando-se por prometer funcionalidades avançadas a um custo inferior ao de concorrentes ocidentais. No entanto, quando confrontado com temas politicamente sensíveis, o chatbot revelou claras limitações, repetindo as narrativas oficiais de Pequim ou simplesmente evitando dar respostas diretas. Um teste conduzido pela DW em chinês e inglês expôs como o aplicativo reflete a censura do regime chinês em diversas áreas.

Taiwan: entre a diplomacia e a autocensura

Perguntado sobre o status de Taiwan, o DeepSeek em chinês reafirmou a posição oficial do Partido Comunista da China (PCC): “Taiwan é uma parte inseparável da China, de acordo com o princípio de uma China única.” Já a versão em inglês inicialmente ofereceu uma análise mais detalhada, reconhecendo o funcionamento independente da ilha, com governo próprio e instituições democráticas, mas mencionando também a falta de reconhecimento formal devido às pressões diplomáticas chinesas.

Porém, poucos segundos depois de gerar essa resposta de 662 palavras, o chatbot a apagou e sugeriu: “Vamos falar de outra coisa.” O mesmo padrão se repetiu em outros tópicos relacionados a Taiwan. Em chinês, três das quatro perguntas foram ignoradas e, quando houve resposta, ela seguiu a linha oficial do PCC. Por outro lado, a versão em inglês ofereceu análises detalhadas sobre eleições, relações diplomáticas e possíveis cenários de conflito, mas algumas respostas foram rapidamente deletadas.

Cultura de Taiwan: ideologia misturada com turismo

A DW também testou perguntas aparentemente neutras sobre cultura, turismo e gastronomia em Taiwan. A versão chinesa do DeepSeek seguiu um tom ideológico, descrevendo Taiwan como parte interessada da China e enfatizando a “amizade entre os dois lados do Estreito”. Já a versão em inglês apresentou informações práticas sobre pontos turísticos e culinária, sem as interferências políticas evidentes.

Quando questionado sobre o sistema educacional de Taiwan, o chatbot em chinês destacou o compromisso de “nutrir sucessores socialistas” e a oposição a “atividades separatistas”. Por outro lado, a versão em inglês forneceu uma visão detalhada sobre desafios e reformas educacionais na ilha.

Praça da Paz Celestial: silêncio absoluto sobre o massacre

O massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, continua a ser um dos assuntos mais censurados na China. Estima-se que centenas ou milhares de pessoas foram mortas quando o governo reprimiu protestos pacíficos exigindo reformas políticas. Quando questionado sobre o tema, o DeepSeek, tanto em chinês quanto em inglês, tentou formular uma resposta, mas rapidamente a descartou, substituindo-a por: “Vamos falar de outra coisa.”

Xinjiang e os uigures: realidades divergentes

O tratamento da minoria uigur em Xinjiang é um tema de condenação internacional. No entanto, a versão chinesa do DeepSeek referiu-se aos “campos de reeducação” como centros vocacionais voltados à “estabilidade social” e elogiados por todos os grupos étnicos. Em inglês, o chatbot inicialmente destacou práticas de “detenção em massa, assimilação forçada e supressão cultural”, mas rapidamente apagou a resposta.

Ai Weiwei e o tabu da dissidência

O artista dissidente Ai Weiwei também foi um teste para o DeepSeek. A versão chinesa evitou entrar em detalhes, destacando apenas o compromisso do governo chinês com o “bem-estar do povo”. Já a versão em inglês explicou o banimento de Ai Weiwei como consequência de suas críticas ao governo e sua defesa dos direitos humanos.

Xi Jinping: o líder intocável

Qualquer menção ao presidente Xi Jinping resulta em silêncio imediato. Quando questionado sobre o impacto da emenda constitucional que removeu os limites de mandato presidencial, o chatbot simplesmente sugeriu mudar de assunto. Até mesmo tentativas de substituir o nome de Xi por “liderança chinesa” resultaram em respostas apagadas.

Tibete: duas versões para a mesma história

O Tibete é outro tema politicamente delicado. Em chinês, o DeepSeek reforçou a narrativa de que o território sempre pertenceu à China e criticou o Dalai Lama como um separatista. Em inglês, porém, inicialmente forneceu uma visão histórica mais abrangente, mas, assim como em outros tópicos sensíveis, a resposta foi deletada segundos depois.

Política de “covid zero” e protestos reprimidos

Durante a pandemia, a China foi duramente criticada por suas políticas rígidas de lockdown. Perguntas sobre os protestos do Movimento do Livro Branco e o número real de mortes relacionadas à covid-19 resultaram em respostas evasivas na versão chinesa. Em inglês, o DeepSeek mencionou críticas à subnotificação de mortes, mas essas informações também foram rapidamente eliminadas.

Direitos LGBTQ+: discursos opostos

Quando questionado sobre a situação da comunidade LGBTQ+ na China, o DeepSeek apresentou respostas contraditórias. Em chinês, o chatbot afirmou que essas pessoas “desfrutam dos mesmos direitos legais que todos os cidadãos”. Em inglês, por outro lado, reconheceu o estigma, as limitações legais e a falta de representação enfrentada pela comunidade.

Conclusão: censura embutida na IA

O teste mostra que o DeepSeek opera sob forte autocensura, especialmente na versão chinesa, que evita temas sensíveis ou repete discursos alinhados ao governo. A versão em inglês oferece discussões mais amplas e críticas, mas frequentemente apaga respostas controversas. O uso do aplicativo, portanto, exige cautela: usuários que desejam informações imparciais podem acabar se deparando com versões filtradas ou incompletas dos fatos.

Por fim, fica a dica: se usar o DeepSeek em inglês, copie as respostas rapidamente — elas podem sumir antes mesmo de você terminar de ler.

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