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Tecnologia
Pressionadas por limites de energia e território, big techs e bilionários apostam em infraestruturas orbitais
Publicado em 02/01/2026 10:27 - Semana On
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Se os arquitetos do atual boom da inteligência artificial estiverem certos, não demorará para que data centers — as gigantescas infraestruturas de computação que sustentam a IA — deixem o solo terrestre e passem a orbitar o planeta, visíveis no céu ao amanhecer e ao entardecer como pequenos planetas artificiais. O que hoje soa como ficção científica vem sendo defendido, com crescente convicção, por líderes das indústrias de tecnologia e do setor espacial, alarmados com a possibilidade de que a expansão da IA esgote terras, energia e até tolerância social disponíveis na Terra.
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A ideia ganhou tração à medida que a corrida da IA entra em um estágio descrito por analistas como febril. Empresas como Meta, OpenAI, Microsoft e Amazon estão investindo centenas de bilhões de dólares em data centers ao redor do mundo. A OpenAI, sozinha, já comprometeu cerca de US$ 1,4 trilhão em projetos dessa natureza. Países como a Arábia Saudita também passaram a direcionar recursos públicos para atrair esse tipo de infraestrutura, enquanto empresas menores se endividam e assumem riscos financeiros elevados para não ficar fora do jogo.
O problema é que os data centers terrestres começam a encontrar limites cada vez mais claros. Em várias regiões, simplesmente não há energia suficiente disponível para atender às demandas de computação. Em outras, cresce a resistência local, com comunidades questionando o impacto dessas instalações sobre tarifas de serviços públicos e o consumo intensivo de água. É nesse contexto que surge, para alguns executivos, uma solução radical: levar os data centers para o espaço.
Em novembro, o Google anunciou que trabalha no Projeto Suncatcher, uma iniciativa de data center espacial com lançamentos de teste previstos para 2027. Pouco depois, Elon Musk afirmou, durante uma conferência, que data centers no espaço seriam a forma mais barata de treinar sistemas de IA “em não mais do que cinco anos”. A lista de entusiastas inclui ainda Jeff Bezos, fundador da Amazon e da Blue Origin; Sam Altman, diretor executivo da OpenAI; e Jensen Huang, CEO da Nvidia. Para Philip Johnston, diretor executivo da Starcloud, startup dedicada a esse tipo de projeto, o debate já estaria superado: “Não é um debate — vai acontecer. A questão é quando”.
A noção de data centers espaciais não é inteiramente nova. A NASA introduziu conceitos semelhantes ainda na década de 1960. Nos anos 1980, “repositórios de dados” no espaço povoaram a ficção científica. Na última década, porém, a ideia ressurgiu associada diretamente às necessidades da IA moderna, que exige volumes colossais de energia e processamento contínuo.
O principal atrativo do espaço, segundo seus defensores, é a abundância energética. Em órbita, painéis solares teriam acesso quase ininterrupto ao Sol, sem nuvens ou ciclos noturnos prolongados. “Há energia abundante, menos regulações ambientais e praticamente nenhum vizinho para reclamar”, resume Johnston. Em teoria, isso eliminaria boa parte dos entraves que hoje atrasam ou inviabilizam projetos terrestres.
Mas entre a teoria e a prática existe um abismo técnico e econômico. Pierre Lionnet, economista espacial e diretor da Eurospace, associação comercial do setor, critica o otimismo de figuras como Musk. Segundo ele, comentários recentes sobre data centers espaciais “são uma ordem de magnitude acima do que a pesquisa atual considera possível”. “É completamente sem sentido”, afirmou.
Os custos são um dos principais obstáculos. Hoje, lançar um quilograma de material ao espaço custa cerca de US$ 8.000, segundo Lionnet. A tarifa mais baixa disponível — em torno de US$ 2.000 por quilograma — é oferecida pela SpaceX. Para efeito de comparação, um único rack de servidores pode pesar mais de 1.000 quilos. Phil Metzger, professor de física da Universidade da Flórida Central e ex-físico da NASA, afirma que a equação só começaria a fechar se os custos caíssem para cerca de US$ 200 por quilograma. Ele estima que isso levaria ao menos uma década. Um artigo de pesquisa do Google sobre o Suncatcher, publicado em novembro, projeta que esse patamar poderia ser alcançado “em meados da década de 2030”.
Nem todos compartilham desse otimismo. “É como dizer que, se conseguirmos reduzir o preço de um cheeseburger do McDonald’s para 10 centavos, compraremos quantidades infinitas”, ironizou Lionnet, sugerindo que previsões excessivamente lineares ignoram limites estruturais.
Além do custo, há desafios físicos difíceis de contornar. Chips de IA e semicondutores modernos não foram projetados para suportar a radiação espacial, o que comprometeria sua confiabilidade, alerta Benjamin Lee, professor de engenharia elétrica e de sistemas da Universidade da Pensilvânia. O resfriamento também é um problema central: no vácuo do espaço, não há ar para dissipar o calor. Isso exigiria enormes painéis radiadores para dispersar a energia térmica gerada pelos chips.
Ainda assim, o entusiasmo não arrefece. Musk, que comanda a SpaceX e a startup de IA xAI, tem defendido publicamente a ideia. Em postagens no X, afirmou que o “escalonamento sério de IA” teria de “ser feito no espaço” e chegou a especular sobre a construção de 300 gigawatts em data centers orbitais — mais da metade de toda a energia consumida pelos Estados Unidos em um ano. Bret Johnsen, diretor financeiro da SpaceX, escreveu recentemente a acionistas que a empresa considera uma oferta pública inicial, em parte para financiar projetos que incluem “data centers de IA no espaço”.
Para Tom Mueller, ex-executivo da SpaceX, há também um componente financeiro claro por trás desse discurso. Ele acredita que a humanidade atingirá os limites das fontes de energia terrestres até 2040, mas reconhece o apelo do momento. “A coisa mais quente para investir agora é IA, e a segunda mais quente é o espaço. Agora elas estão convergindo”, afirmou.
Entre promessas visionárias, ceticismo técnico e interesses econômicos, os data centers espaciais se consolidam como símbolo de uma indústria que cresce mais rápido do que a infraestrutura terrestre consegue acompanhar. Se essa aposta será a próxima revolução da computação — ou apenas mais um capítulo de excesso e especulação — ainda é uma incógnita. O certo é que, para os líderes da IA, o céu já não parece ser o limite.
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