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Poder
Exército recua da decisão de respeitar o voto? O mundo nos observa
Publicado em 01/10/2022 10:38 - Leonardo Sakamoto e Jamil Chade (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On
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A violência política que grassa no Brasil às vésperas da eleição deste domingo (2) mostra que a imbecilidade acontece primeiro como tragédia, depois como farsa. Pois há quem tente fazer com que o Brasil reviva o clima dos dias que antecederam a cassação de Dilma Rousseff, quando vestir vermelho era crime.
Recebemos, nos últimos três dias, histórias de pessoas que foram hostilizadas em padarias, mercados e ruas de São Paulo, Rio de Janeiro e Florianópolis por estarem com uma camiseta da cor “errada” – mesmo que não houvesse nenhuma estampa política. Lembro bem seis anos atrás, quando apanhei na rua por cometer o crime de escrever.
Há duas diferenças fundamentais, contudo. A primeira é que os que, hoje, fomentam o medo para afastar as pessoas das urnas e favorecer o seu candidato nem se importam em esconder que fazem uma cópia imperfeita da violência de 2016. Há uma teatralidade grotesca cujo roteiro vem na forma de textos em caixa alta de WhatsApp.
Ou, traduzindo para a linguagem que entendem: vem no rastro de gepetos radicais que se lambuzam nas fábulas arranhadas por vendedores de chocolate e colecionadores de apartamentos que vomitam notas e moedas, enquanto são levantados por nobres famílias dos templos protegidos pelas senhoras de tochas, assustando os pavões apavorados.
A segunda é que os sinais estão trocados. Naquela época, havia um processo de transição política apontando para a direita, agora o vento sopra à esquerda. A chamada “maioria silenciosa”? Cansada de não comer as três refeições, de ter um emprego informal que paga menos que o mínimo e de chorar pelos avôs perdidos na pandemia, ao que tudo indica, pode ter mudado de lado.
Não se quer aqui comparar o clima das pequenas violências ao luto de quem perdeu entes queridos por brigas políticas. Até agora, foram dois petistas pelas mãos de bolsonaristas, um em Foz do Iguaçu (PR), outro em Confresa (MT).
Também há duas mortes cuja motivação está sendo investigada pela Polícia Civil, uma em Rio do Sul (SC) e outra em Cascavel (CE). Sem contar, os casos de pessoas que foram ameaçadas, espancadas e agredidas por fazer campanha para o “candidato errado”.
Disparos em massa enviam ameaças, como aquela sob responsabilidade de terceirizados que atuam para o governo do Paraná. “Vai dar Bolsonaro no primeiro turno! Senão, vamos à rua para protestar! Vamos invadir o Congresso e o STF!”, diz.
É mentira, quem disparou a mensagem provavelmente não tem coragem de abrir a boca em público, mas isso contribui para esse clima de medo para gerar abstenção.
O risco maior de violência não é neste domingo de votação, mas caso o presidente perca a eleição, no primeiro ou no segundo turnos, incite a parcela acéfala de seus seguidores a promover outro plágio: o da invasão do Congresso norte-americano, fomentado por Donald Trump no início do ano passado.
Neste domingo, há imbecis que tentarão atrapalhar a votação? Claro, não tenha dúvida. Vão conseguir influenciar o resultado? De jeito nenhum. Os que foram roubados, contaminados, maltratados, exauridos, xingados, esquecidos, querem ir dar sua opinião na urna eletrônica.
E ai de quem se colocar entre um brasileiro ou uma brasileira e o seu voto.
Exército recua da decisão de respeitar o voto
Não adianta olhar para o céu fazendo de conta que não soube. Ou, devidamente informado a respeito, não dar importância ao fato e logo mudar de assunto. Em ocasiões assim, só lembramos da história – ou lenda – do escafandrista do Leblon, no Rio.
No fim da tarde de um sábado, ele entrou num bar vestido com seu pesado equipamento de mergulho, sentou-se a uma mesa, tirou o capacete, chamou o garçom e pediu uma cerveja. O bar estava lotado, mas todos fingiram que nada de anormal acontecia.
Pouco antes das 11h de ontem, entrou no site do centenário jornal O Estado de S.Paulo uma extensa reportagem que, em resumo, dizia o seguinte: o Alto-Comando do Exército, formado por 16 generais, decidiu que respeitará o resultado das eleições deste ano.
Poderia ser diferente? Poderia. Governa o país um presidente que defende a ditadura de 1964, a tortura, que chama o Exército de seu, ataca os tribunais superiores e tenta desacreditar o processo eleitoral dizendo que as urnas eletrônicas não merecem confiança.
As Forças Armadas vivem sob pressão de Bolsonaro e dos seus fanáticos seguidores para que só aceitem o resultado das eleições se ele os beneficiar; e, caso contrário, para que se rebelem, não permitindo a posse do presidente eleito. É disso que se trata.
Pois muito bem: ao cair da noite, em nota oficial postada no site da Arma, o Alto-Comando do Exército classificou como fake news a reportagem do Estadão. Diz a nota:
“Sobre a matéria veiculada pelo jornalista Felipe Frazão, na data de hoje, e publicada no sítio eletrônico do jornal o Estado de São Paulo, intitulada – Alto-Comando do Exército diz que ‘quem ganhar leva’ a Presidência e se afasta da auditoria de votos –, o Comando do Exército manifesta total repúdio ao seu conteúdo.”
“Na reunião do Alto-Comando do Exército, ocorrida entre 1º e 5 de agosto, não foram tratados assuntos de natureza político-partidária, tampouco houve qualquer manifestação oficial nesse sentido. Os dados apresentados na matéria são inverídicos e tendenciosos.”
“É lamentável que um veículo de expressão nacional promova desinformação que só contribui para a instabilidade do País. Dessa forma, as medidas judiciais cabíveis estão sendo estudadas.”
“O Exército Brasileiro é uma instituição nacional, cônscio de suas missões constitucionais e democráticas, tendo na hierarquia e na disciplina seus pilares inabaláveis.”
O que houve para que, em poucas horas, o “Grande mudo”, como o Exército gosta de ser chamado, desminta que respeitará o resultado das eleições, ganhe quem ganhar? Houve que Bolsonaro rebelou-se contra os generais e os enquadrou. Simples.
Antes da fala do “Grande mudo”, Bolsonaro fez uma live nas redes sociais e afirmou, colérico:
“A matéria diz: ‘Alto-Comando diz que quem ganhar leva a Presidência e se afasta de auditoria de votos’. Mentira! Eles inventam nomes, fazem a matéria, tentam me afastar das Forças Armadas, mas existe uma coisa que a imprensa não sabe: chama-se lealdade, confiança, respeito, consideração. A imprensa não sabe o que é isso; isso existe entre eu e os comandantes militares.”
Contou que, após ter conhecimento da reportagem, cobrou do general Braga Netto, o vice na sua chapa, explicação sobre o assunto e perguntou se ele tinha dado entrevista ao jornal. Segundo Bolsonaro, Braga Netto respondeu que não.
Então, Bolsonaro acionou o ministro da Defesa, o general Paulo Sérgio Nogueira, e o resultado foi a nota do Alto-Comando que ressuscita a ameaça de golpe que parecia enterrada. Ele quer que os brasileiros votem com medo. É a última arma que lhe resta.
Embaixadores de países importantes se apressaram a informar seus governos sobre a promissora notícia de que os militares brasileiros ficariam com a legalidade. À noite, em despachos com o timbre de “urgente”, disseram que ocorreu uma reviravolta.
Podemos fazer como os frequentadores do bar do Leblon que ignoraram a presença do escafandrista que bebia sua cerveja em uma mesa de canto, sozinho. Ou votar amanhã para acabar com o pesadelo que o país vive há quatro anos, pagando para ver.
O mundo nos observa
A comunidade internacional irá reagir se “um evento impensável” ocorrer no Brasil por conta da eleição deste domingo para presidente. O alerta é de Herta Däubler-Gmelin, que foi ministra da Justiça da Alemanha entre 1998 e 2002 e deputada entre 1972 e 2009, um dos mandatos mais longos da história democrática do país. Hoje, ela é professora de ciência política da Universidade Livre de Berlim.
A alemã faz parte de uma equipe de observadores que vai atuar durante as eleições no Brasil. O grupo, que atua de forma independente, é formado por especialistas em direitos humanos e conta com acadêmicos também dos EUA, Argentina e outros países latino-americanos.
Para ela, o resultado na eleição brasileira será importante para “estabilizar” a democracia no mundo e afirma que confia nas urnas e no sistema eleitoral do país. Seu alerta, de fato, vem no momento em que a comunidade internacional proliferou apelos para que a democracia seja respeitada no Brasil, num sinal claro de que qualquer ruptura democrática significará um isolamento do país no cenário mundial.
Em apenas uma semana, cinco comunicados ou medidas foram adotadas por entidades e governos estrangeiros, todas com o mesmo tom: uma ruptura democrática no Brasil não será aceita e líderes devem apelar pela paz no país. Isso sem contar as dezenas de declarações realizadas por grupos estrangeiros de ativistas e da sociedade civil.
A pressão internacional é inédita no período democrático brasileiro e, para diplomatas do país, tais atos refletem a desconfiança que existe hoje sobre o Brasil no mundo. A esperança é de que a pressão crie um constrangimento contra qualquer tentativa de desrespeitar o resultado das urnas.
Na semana passada, pela primeira vez, oito relatores da ONU se uniram para fazer um chamado às autoridades brasileiras para que respeitem a democracia. Alguns dias depois, foi o Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos que afirmou estar preocupado com a violência política e apontou que os ataques contra as urnas eletrônicas e o sistema eleitoral eram “ameaças à democracia”.
Na quarta-feira, o Senado dos EUA aprovou uma moção pedindo o respeito pela democracia no Brasil e alertando sobre a suspensão de todos os acordos militares caso a eleição não fosse respeitada. Enquanto isso, 50 deputados europeus enviaram uma carta para a Comissão Europeia cobrando do bloco que se posicione contra qualquer tentativa de golpe no país, inclusive com a adoção de sanções comerciais.
Na quinta-feira, foi a vez da Comissão Interamericana de Direitos Humanos fazer seu apelo, convocando o Brasil “a realizar eleições pacíficas, com o maior respeito à democracia representativa e aos direitos humanos”.
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