22/04/2024 - Edição 540

Poder

Vídeos tornam impossível construir realidade paralela sobre 8 de janeiro

Aliados ao bolsonarismo, sete agentes do GSI facilitaram quebra-quebra

Publicado em 24/04/2023 9:55 - Josias de Souza (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles), Moisés Mendes e Jessica Alexandrino (DCM), Nara Lacerda (Brasil de Fato) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução - DCM

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Graças às câmeras dos circuitos internos dos prédios de Brasília, a velha máxima segundo a qual nas guerras a primeira vítima é sempre a verdade perdeu o prazo de validade no 8 de janeiro. Quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas pela turba bolsonarista, as lentes dos sistemas de vigilância presentearam a história com registros definitivos. Neles, a verdade tem uma aparência muito mais incrível do que a ficção. A divulgação tardia dos vídeos do Planalto reforça a percepção de que é impossível inventar qualquer realidade alternativa em relação ao maior ataque à democracia brasileira desde a redemocratização.

No caso do Planalto, as câmeras flagraram duas verdades indesmentíveis. A primeira é que o governo Lula, instalado havia uma semana, sofreu uma tentativa de golpe insuflada por Bolsonaro. A segunda é que o aparato de segurança da Presidência oscilou entre a incompetência do general Gonçalves Dias, então chefe do Gabinete de Segurança Institucional, e a cumplicidade de militares com os invasores. Militares que GDias, como é chamado o general amigo de Lula, herdou do antecessor Augusto Heleno e não teve a perspicácia de substituir.

As outras cenas ajudam a compor o quadro: a porta do Planalto aberta para os invasores, o general aparvalhado em meio aos criminosos, o subordinado servindo água aos golpistas, um patriota bolsonarista tentando arrombar um caixa eletrônico, Lula vistoriando os destroços, Flávio Dino expondo com gestos bruscos suas divergências civis com o gestor de fardas José Múcio… As câmeras potencializam os constrangimentos. Mas não fornecem material aos que desejam reescrever a história.

Bolsonaro e sua milícia legislativa enxergaram no esconde-esconde a que a gestão Lula submeteu os vídeos do Planalto uma oportunidade para construir uma ficção menos constrangedora. O Planalto poupa o seu general de críticas e unifica posições em torno das versões mais convenientes. A CPI a ser instalada no Congresso será transformada numa guerra de desinformação. Nesse ambiente, as câmeras dos circuitos internos de Brasília ensinam que o melhor a fazer é desconfiar. A verdade escancarada pela visão isenta das câmeras de vigilância funciona como vacina contra as fantasias.

O bando dos 7 agentes do GSI que recepcionou os golpistas de 8/1

Se foram escolhidos a dedo para cuidar da tarefa, não se sabe. Mas talvez não houvesse pessoas mais indicadas para recepcionar os golpistas.

Foram 9 os militares do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da presidência filmados pelo circuito interno de câmeras do palácio; desses, 7, pelo menos, eram da total confiança de Bolsonaro.

O capitão José Eduardo Natale, por exemplo, “o camisa branca” que deu de beber água aos golpistas que tinham sede, viajou com Bolsonaro à Rússia em fevereiro do ano passado.

O general Carlos Feitosa Rodrigues também viajou a Moscou. Foi dele o informe emitido na véspera do golpe que reduziu o contingente de agentes de plantão no domingo.

Natale esteve em agosto com Bolsonaro em Juiz de Fora, no lançamento de sua candidatura à reeleição. Foi ali, em 2018, que Bolsonaro levou uma facada e disparou nas pesquisas eleitorais.

O coronel Wanderli Baptista da Silva Jr viajou com Bolsonaro em outubro para a abertura de mais uma Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque.

Foi a ele que o general Gonçalves Dias, ministro do GSI, deu ordem para que prendesse os invasores do palácio. Outros que acompanharam Bolsonaro em viagens:

* Alexandre Amorim;

* André Luiz Garcia Furtado;

* Alex Marcos Barbosa Santos; e

* Laércio da Costa Jr.

Todos disseram em depoimento à Polícia Federal que não reagiram à invasão para não arriscar a vida. Estavam em desvantagem diante dos golpistas.

Então, optaram apenas por “administrar a crise”.

Imagens do Planalto expõem poucos PMs, intimidação a jornalistas e Lula indignado

As imagens do circuito interno de câmeras do Palácio do Planalto no dia dos atentados mostram a presença de membros do governo no local após os ataques e a indignação do presidente Lula diante da destruição. Ele chega ao prédio um pouco antes das 21h30 e, no trajeto até o gabinete presidencial, pede com gestos enfáticos que sua equipe registre o estrago.

Nas gravações, Lula está acompanhado por seguranças, pelo chefe de gabinete, Marco Aurélio Santana Ribeiro e pelos ministros de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, das Comunicações Sociais, Paulo Pimenta e da Casa Civil, Rui Costa.

Costa aparece em outra cena com os ministros da Justiça, Flávio Dino, e da Defesa, José Múcio Monteiro. Dino aparenta irritação ao conversar com Múcio, enquanto Rui Costa também demonstra descontentamento.

Imagens dos momentos exatos dos atos de vandalismo também integram o material. Em uma das gravações é possível ver um grupo de criminosos arrombando a antessala do gabinete presidencial, pouco antes das 16 horas. Eles carregam mochilas, bandeiras do Brasil e alguns estão com os rostos cobertos.

Antes de chutar a porta e abrir acesso ao local, um dos presentes parece tentar se certificar que a cena está sendo registrada e olha para um fotógrafo jornalístico que cobria a invasão, posicionado atrás dele.

O profissional segue acompanhando o grupo, mas um dos homens aponta para ele com postura intimidadora. Após o gesto de aparente questionamento, o jornalista é imediatamente cercado pelos demais.

Parecendo se explicar, o fotógrafo tira uma máscara de proteção, mostra o rosto e sinaliza que vai deixar o local. Ele ainda é abordado por um dos vândalos, que toca no ombro do profissional e pede para ver as imagens captadas.

Meia hora depois, as mesmas câmeras mostram homens e mulheres deixando a antessala e sendo orientadas pelo major Eduardo Natale de Paula Pereira, que integrava a equipe do ex-presidente, Jair Bolsonaro.

Natale mostra a saída para algumas pessoas e parece tentar convencer um homem a sair do local. Ele ainda tenta impedir a mesma pessoa de arrombar uma porta, mas desiste e apenas assiste à cena. Na sequência, todos saem e o major observa o roubo de um extintor de incêndio também sem reagir. Natale é o mesmo agente que aparece em outro vídeo dando água para invasores.

Logo após a saída do major e dos golpistas, o então ministro do GSI, general Gonçalves Dias chega ao local. Ele checa algumas portas e entra na antessala presidencial digitando em um celular. Outras cinco pessoas, incluindo Natale, também chegam na área. Dois homens tiram fotos e saem logo em seguida.

No domingo (23), a Polícia Federal tomou depoimento de nove militares do GSI que aparecem nas imagens gravadas no Planalto.

As gravações disponibilizadas também reafirmam a percepção de que havia poucos policiais militares para controlar a multidão. Câmeras que monitoram o lado oeste do Planalto expõem o momento exato em que invasores entram no estacionamento externo do prédio.

Enquanto os criminosos avançam pela pista norte da Esplanada dos Ministérios, às 15 horas, um grupo que aparenta ter cerca de dez agentes sai da via, vai para a calçada e entra no estacionamento. No local já havia outros PMs, que somavam cerca de vinte pessoas.

Pouco mais de cinco minutos depois, às 15 horas e 6 minutos, é possível ver apenas os escudos de proteção de alguns policiais se afastando da área, já invadida pelos vândalos.

Todas gravações foram trazidas à público por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF). As cenas, captadas pelas câmeras de segurança, estavam sob sigilo como parte das investigações sobre os atentados.

Cappelli diz que general Heleno ‘pilotou carro por 4 anos’

O ministro interino do GSI, Ricardo Cappelli, usou sua página no Twitter para defender o ex-ministro Gonçalves Dias nos ataques golpistas do dia 8 de janeiro. Ele disse que o general Augusto Heleno, antecessor de Dias no cargo, “pilotou o carro” do GSI por quatro anos e o entregou avariado.

“O general Heleno ‘pilotou o carro’ por 4 anos e entregou o ‘veículo’ avariado e contaminado para o general G.Dias, que pilotou por apenas 6 dias. No 7° dia o carro pifou. De quem é a culpa? Não é possível falsificar a história. Conspiração não passa recibo”, publicou Cappelli.

Já em outra postagem, feita minutos depois, o ministro diz que as imagens registradas pelas câmeras de segurança do Palácio do Planalto no dia dos atos golpistas apenas confirmaram o que o povo brasileiro já sabia:

“As imagens confirmam o que o povo brasileiro já sabe. O Brasil foi vítima de uma tentativa de golpe. Muitos criminosos já estão presos. Alguns conspiradores também. A Operação Lesa Pátria, da PF, não tem data para acabar. Todos serão identificados. A lei será cumprida.”


No sábado (22), Cappelli já havia afirmado, em entrevista ao Congresso em Foco, que as investigações da Polícia Federal (PF) “muito possivelmente” indicarão que o general Augusto Heleno teve alguma participação nos atos de vandalismo de 8 de janeiro.

“Um homem público, ministro de Estado, que sai das eleições e desaparece. Quem explica o sumiço dele? Onde é que está a valentia do general Heleno? Acho que o desaparecimento dele fala por si”, disparou.

Capelli completou: “Acho que quem se esconde teme a verdade, essa é minha opinião. O general Heleno está escondido. Onde? Quem consegue falar com ele? Todo dia recebo jornalistas que dizem que ele não recebe ninguém, não fala com ninguém. Por que o general Heleno se escondeu? Cadê a valentia dele?”.

O ministro também comentou o “desaparecimento” dos generais Walter Braga Netto, que foi candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro, e Luiz Eduardo Ramos, ex-secretário-geral da Presidência da República.

“Pergunta a algum jornalista que se relaciona com eles se consegue falar com eles. Pega alguma declaração deles. Desapareceram! Por quê? Cadê a valentia deles? Contra as instituições, contra o Brasil! Mas é coerente, né? Coerente com a covardia do chefe deles, que perdeu a eleição e foi se esconder nos Estados Unidos”, acrescentou ele.

Como impedir que os golpistas controlem a investigação do golpe

A CPI do Golpe fará com que muitos sintam falta do tempo em que o deputado Onyx Lorenzoni era uma voz forte do antilulismo e da extrema direita em comissões da Câmara. Parecia impossível, mas o nível do extremismo foi rebaixado.

A CPI será instalada na quarta-feira (26) para dar ocupação e palco à ralé do fascismo. Teremos os mais rasos representantes do bolsonarismo, liderados pelo filho Eduardo, no pior momento da pior de todas as composições do Congresso em todos os tempos, incluindo a ditadura.

Na ditadura, os militares escalaram, considerando-se inclusive os senadores biônicos, nomes da elite civil da direita para defender o regime.

Cesar Cals, Tarso Dutra, Murilo Badaró, Jutahy Magalhães, Arnon de Melo e muitos outros, que chegaram ao Senado sem voto no final dos anos 70, seriam sumidades ao lado de figuras eleitas no ano passado pelo bolsonarismo.

Teremos uma comissão mista, com senadores e deputados, e a maior exposição do golpismo que sobreviveu ao fracasso do 8 de janeiro. Mas o golpismo quer exposição.

A extrema direita se reorganiza nas cidades e nas redes sociais, os líderes civis e militares estão livres e soltos (enquanto os manés estão presos ou em casa com tornozeleiras), e a CPI mostrará as unhas dessa gente.

O que aconteceu na CPI da Covid ou do Genocídio, quando muitos investigados e muitas testemunhas enrolaram os senadores, não deveria, mas pode se repetir agora.

O que a base governista fará para que o fascismo não se apodere da comissão e a transforme em cenário para lacrações nas redes sociais? Eis a incógnita.

Nas atuais circunstâncias, a extrema direita está em vantagem, com a disposição de esculhambar com a CPI, enquanto o governo se esforça para montar uma base precária no Congresso.

É um paradoxo, prevendo-se que o golpismo pode tirar melhor proveito de uma investigação sobre a tentativa de golpe. Mas é a realidade.

Serão 16 senadores e 16 deputados. Entre eles, muitos golpistas declarados. O próprio Eduardo Bolsonaro é investigado no Supremo, há muito tempo, no inquérito do gabinete do ódio, por envolvimento em ações criminosas.

O autor do requerimento para criação da CPI, deputado André Fernandes, do PL do Ceará, também é investigado no STF por incitação aos atos de 8 de janeiro.

Fernandes publicou no Twitter a invasão da sala onde fica a toga do ministro Alexandre de Moraes, quando da invasão do STF.

Pois esse sujeito é cotado para ser o presidente da CPI. Um golpista, que afrontou a autoridade do presidente do TSE e debochou do Supremo, pode presidir a comissão que investiga o golpe? Não duvidem.


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