18/05/2024 - Edição 540

Poder

Vice de Bolsonaro diz que Brasil herdou indolência dos indígenas e malandragem dos africanos

Publicado em 10/08/2018 12:00 -

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O vice de Jair Bolsonaro (PSL), general da reserva Antonio Hamilton Mourão (PRTB), afirmou nesta semana que o Brasil herdou a "indolência" dos indígenas e a "malandragem" dos africanos. A declaração foi feita durante evento da Câmara de Indústria e Comércio de Caxias do Sul (RS).

"Temos uma herança cultural, uma herança que tem muita gente que gosta do privilégio (…) Essa herança do privilégio é uma herança ibérica. Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena. Eu sou indígena. Meu pai é amazonense. E a malandragem (…) é oriunda do africano", afirmou. "Então, esse é o nosso cadinho cultural. Infelizmente gostamos de mártires, líderes populistas e dos macunaímas."

Questionado, Mourão ressaltou que também falou do privilégio dos brancos. "Não tem nada demais, até porque sou descendente de indígenas. Não é acusação para nenhum grupo, isso não existe. Temos uma raça brasileira, a junção de tudo isso aí", disse.

Ele argumentou, ainda, que suas frases foram retiradas de contexto. "O que acontece é que as pessoas pinçam determinadas frases e querem retirar do contexto em que foram colocadas. Estava falando da herança cultural de forma genérica."

A presidenciável Marina Silva (Rede) criticou a declaração de Mourão em suas redes sociais. "Extremismo e racismo são uma combinação perigosa. Não podemos tolerar racismo numa corrida presidencial", escreveu.

Tropeçando na língua

Jair Bolsonaro utiliza a língua com frequência cada vez maior. Agora só falta aprender a usar o idioma. O presidenciável do PSL torturou o português para socorrer seu vice.

 “O que é a indolência? É a capacidade de perdoar? Veja aí no dicionário. É a capacidade de perdoar? O índio perdoa. Não é isso?” Os dicionários anotam muitas acepções para o vocábulo “indolência”. Nenhuma delas se parece com perdão: ociosidade, preguiça, desleixo, negligência, apatia…

Quanto à malandragem, Bolsonaro encontrou um sinônimo dicionarizado: esperteza. “É a mesma coisa? É isso? Ôhhhh… Me chamam de malandro carioca o tempo todo.” No contexto em que foi usada pelo vice, a palavra “malandragem” é sinônimo de vagabundagem.

Polêmico

Conhecido por manifestações polêmicas, Mourão já defendeu a atuação das Forças Armadas em situação de caos no país e chamou de herói um dos torturadores do regime militar.

Em fevereiro, quando passou para a reserva após ter criticado o presidente Michel Temer, Mourão disse que o ex-chefe do DOI-CODI do II Exército, um dos principais órgãos da repressão durante o governo militar, é um herói por ter combatido o terrorismo.

Ustra é reconhecido pelo Poder Judiciário, em ação declaratória, como torturador e é acusado pelo Ministério Público Federal de crimes como assassinatos e desaparecimentos. A Comissão da Verdade contou ao menos 45 casos relacionados a ele.

Além da homenagem, Mourão já afirmou que uma intervenção militar poderia ser adotada se o Poder Judiciário não solucionasse "o problema político", em referência aos casos de corrupção. Ele disse também, em outra ocasião, que o regime em que vivemos é frágil, "onde a moral e as virtudes foram enxovalhadas". 

"Até chegar o momento em que ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso", afirmou em setembro de 2017.

Apesar de ser respeitado nas Forças Armadas, o militar é criticado por colegas de farda pelo estilo verborrágico. As suas declarações colocaram em saia-justa o comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, e causaram seu remanejamento tanto no governo Michel Temer como Dilma Rousseff.

"Nosso atual presidente [Michel Temer] vai aos trancos e barrancos, buscando se equilibrar, e, mediante o balcão de negócios, chegar ao final de seu mandato", afirmou em dezembro.

Em 2015, durante o governo petista, ele fez duras críticas à classe política e exaltou a necessidade de "luta patriótica". "A maioria dos políticos de hoje parecem privados de atributos intelectuais próprios e de ideologias", disse.


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