17/04/2024 - Edição 540

Poder

Veja por que Valdemar virou coadjuvante da palhaçada eleitoral de Bolsonaro

PL usa 'falácia do atirador' em ação golpista contra a democracia

Publicado em 23/11/2022 9:19 - Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL) - Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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Dono do PL, Valdemar Costa Neto tornou-se o longa manus de Bolsonaro na delinquência antidemocrática da contestação do resultado das urnas. Numa tradução literal, a expressão em latim significa “mão longa”. No português da bandidagem, serve para qualificar o sujeito que executa o crime premeditado por outro. Valdemar tornou-se coadjuvante da palhaçada bolsonarista porque o papel favorece os seus negócios. Por trás da decisão do ex-presidiário do mensalão está o bolso do contribuinte brasileiro.

A representação que o PL protocolou no TSE para contestar o resultado do segundo turno da disputa presidencial foi uma exigência de Bolsonaro. Exilado no Alvorada, o capitão desistiu de presidir a República. Mas continua no comando do mundo paralelo em que decidiu viver desde que foi derrotado por Lula. Valdemar precisa corresponder aos caprichos golpistas de Bolsonaro pelo menos até o dia 2 de fevereiro. Nessa data, tomam posse na Câmara os 99 deputados federais eleitos pelo PL nas urnas de 2022.

É com base na bancada do dia da posse que são feitos os cálculos dos fundos eleitoral e partidário a que as legendas terão direito nos próximos quatro anos. Dos 99 deputados eleitos pelo PL, cerca de 50 chegaram à Câmara na aba de Bolsonaro. Muitos ameaçaram bater em retirada se os caprichos do capitão não fossem atendidos. Para não perder dinheiro, Valdemar precisa reter a tropa do seu lado pelo menos até a posse.

Aconteceu algo semelhante em 2018. Naquele ano, Bolsonaro disputou o Planalto a bordo do PSL, partido de Luciano Bivar. A legenda saltou de três deputados para 52. Bolsonaro brigou com Bivar pelo controle do cofre. Derrotado, deixou a legenda. Levou junto os bolsonaristas mais fiéis. Mas não carregou um mísero tostão. Posteriormente, Bivar fundiu o seu PSL com o DEM, que havia empossado 29 deputados. Dessa cruza nasceu o União Brasil, que foi às urnas deste ano com um fundo eleitoral de R$ 782 milhões. Sozinho, o PL de Valdemar terá ainda mais dinheiro se conseguir segurar os seus 99 eleitos até o dia da posse.

Na representação protocolada no TSE, o PL contesta algo como 60% das urnas eletrônicas. Limita o questionamento ao segundo turno. Nas urnas restantes, Bolsonaro teria obtido 51,05% dos votos válidos, contra 48,95% de Lula. Resultado diferente daquele obtido na contagem oficial, na qual Lula prevaleceu com 50,9% dos votos, contra 49,1% de Bolsonaro.

“Este relatório não expressa a opinião do Partido Liberal”, disse Valdemar aos repórteres. “Mas é o resultado de estudos elaborados por especialistas graduados em uma das universidades mais respeitadas do mundo e que, no nosso entendimento, deve ser analisado pelos especialistas do TSE, de forma que seja assegurada e resguardada a integridade do processo eleitoral, com um único intuito: fortalecer a democracia para fortalecer o Brasil.”

O presidente do TSE, Alexandre de Moraes, deu prazo de 24 horas para que a coligação de Bolsonaro, liderada pelo PL, apresente um relatório completo sobre as eleições, incluindo o primeiro turno. Moraes anota em seu despacho que urnas eletrônicas questionadas na representação foram “utilizadas tanto no primeiro turno, quanto no segundo turno das eleições de 2022”. Acrescenta: “Assim, sob pena de indeferimento da inicial, deve a autora aditar a petição inicial para que o pedido abranja ambos os turnos das eleições…”

Moraes aplicou em Valdemar, o longa manus de Bolsonaro, algo muito parecido com um xeque-mate. Para sustentar a hipotética ilegitimidade das urnas presidenciais do segundo turno, o PL terá de questionar também as urnas do turno inaugural, quando foram eleitos os 99 deputados que farão do ex-mensaleiro Valdemar o gestor das mais vistosa caixa eleitoral do mercado partidário. Vivo, Tancredo Neves diria que a esperteza, quando é muita, come o dono.

Falácia do Atirador

Após se debruçar sobre os resultados das eleições, o PL de Valdemar descobriu uma coincidência: se consideradas apenas as urnas fabricadas após 2020, Bolsonaro teria sido eleito. E usando uma mentira lastreada em “especialistas” por eles contratados, de que os equipamentos mais antigos não são auditáveis, pediu a anulação de 59% das urnas do segundo turno.

Nos Estados Unidos, isso é chamado de “Texas Sharpshooter Fallacy” ou Falácia do Atirador de Elite do Texas. Não, eu não inventei o termo. Se duvidam, procurem no Google.

Ela aparece quando apelamos para uma ilusão de agrupamento, usando a tendência humana de ver padrões onde eles não existem. Que, aliás, se aproveita de outra tendência humana: a de que as pessoas creem que é verdade tudo aquilo que vai ao encontro do que elas já acreditavam previamente.

O nome da falácia vem de uma piada sobre um texano que disparou tiros na lateral de um celeiro, depois pintou um alvo centrado no lugar onde a maioria das balas acertou e mostrou aos amigos afirmando ser um atirador de elite.

Nessa falácia, as semelhanças são superestimadas e as diferenças, ignoradas, para chegar a uma falsa conclusão. O partido do presidente da República diz que confiáveis apenas as urnas do conjunto que daria 51% dos votos a Bolsonaro e 49% a Lula. Pouco importa, na opinião do partido, a falta de evidências apontando fraude nas urnas. Muito menos a informação de que, apesar de urnas poderem ter o mesmo número de registro, cada arquivo produzido por elas é único na contabilidade do TSE. E se a Justiça Eleitoral sabe dizer de onde vieram tais dados, eles são sim auditáveis.

Poderia ser uma outra coincidência? Claro! Se olharmos os dados com o mesmo olhar safado do PL, seríamos capazes de encontrar outro padrão aleatório em que Lula se saiu melhor e exigir a anulação dessas urnas sob alguma justificativa tão esdrúxula quanto. Mas o PL achou que essa estava de bom tamanho. Não para a maioria do Poder Judiciário e do Poder Legislativo, e sim para fortalecer a narrativa golpista do bolsonarismo.

Logo após o PL pedir a anulação das urnas no segundo turno usando a tal falácia do atirador texano, o ministro Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foi rápido no gatilho e emitiu um despacho dizendo que o pedido deve conter também a anulação dos votos nos dois turnos, ou ele será desconsiderado.

O problema é que as urnas deram ao PL, no primeiro turno, a maior bancada na Câmara dos Deputados na próxima legislatura, com 99 parlamentares. E o poder político e o montante bilionário do fundo partidário e do fundo eleitoral decorrentes dessa liderança são coisas que o presidente do partido, Valdemar da Costa Neto, não quer abrir mão.

“As urnas eletrônicas apontadas na petição inicial foram utilizadas tanto no primeiro turno, quanto no segundo turno das eleições de 2022. Assim, sob pena de indeferimento da inicial, deve a autora aditar a petição inicial para que o pedido abranja ambos os turnos das eleições, no prazo de 24 horas. Publique-se com urgência”, afirmou Moraes.

A ação do PL não deve dar em nada no âmbito do TSE porque, como já foi dito, não há indícios de fraude. Contudo, já está abastecendo os protestos golpistas que acampam em torno de quartéis e chegando aos militares bolsonaristas que trabalham nos quartéis.

Em um dos áudios que estão circulando em grupos de WhatsApp, um golpista diz que o pedido do PL prova que o bolsonarismo está fazendo tudo dentro da Constituição. Diz que se isso não for acatado, “já era”, o Exército vai agir, porque a Justiça desrespeitou as “quatro linhas”.

E defendendo resistência para os outros golpistas, afirma: “Eles estão fazendo tudo certinho, dentro do cronograma. O circo está apertando, não adianta. Tá fechando, a gente tem que se manter”.


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