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Como o tarifaço ameaça empregos e enfraquece economia brasileira
Publicado em 11/07/2025 9:28 - Semana On
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A anunciada tarifa de 50% sobre o aço brasileiro pelo governo Trump não apenas ameaça a economia nacional como também revela, com desconcertante clareza, o colapso de uma retórica que por anos vestiu a fantasia do patriotismo bolsonarista. Envolvido até o pescoço em investigações por tentativa de golpe, Jair Bolsonaro vê seu discurso nacionalista desmoronar, não pelas mãos de um opositor interno, mas pela traição silenciosa do próprio mito: Donald Trump.
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A crise ganhou contornos mais dramáticos quando Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do ex-presidente, foi abrigado nos Estados Unidos sob o pretexto de uma perseguição judicial no Brasil. De lá, não apenas se manteve à margem das instituições que seu pai tanto atacou, como se integrou ativamente a uma articulação internacional que hoje colide frontalmente com os interesses comerciais brasileiros. O gesto — que lembra exílios seletivos típicos de oligarquias latino-americanas — marca um ponto de inflexão: o nacionalismo de Bolsonaro, antes vendido como autêntico, tornou-se caricatura de si mesmo.
Trump e o fim da lealdade entre populistas
Para além das consequências comerciais, o episódio tem peso simbólico inédito. O ex-presidente dos EUA, condenado criminalmente e em plena campanha eleitoral, decidiu atacar a economia de um país que, durante o governo Bolsonaro, lhe prestou fidelidade quase servil. Como observou o historiador e cientista político Federico Finchelstein, autor de A Brief History of Fascist Lies (2020), “os populistas de extrema direita tendem a formar alianças baseadas na utilidade mútua, mas abandonam os aliados quando o custo se torna alto demais”.
Bolsonaro, agora sob risco jurídico e político, descobre o custo amargo dessa dependência. Trump, em busca de apoio entre siderúrgicas norte-americanas, não hesitou em transformar um aliado em alvo. A ruptura com Elon Musk, outro ex-simpatizante da órbita bolsonarista, selou a percepção de que o Brasil, sob o bolsonarismo, cedeu soberania em troca de um abraço de urso.
Do patriotismo virtual ao desespero diplomático
A reação do governo Lula foi rápida e simbólica. A convocação de um comitê emergencial com empresários e representantes do setor produtivo soou não apenas como uma medida técnica, mas como um gesto político de afirmação da autoridade nacional. Segundo fontes do Planalto, estuda-se aplicar a Lei de Reciprocidade Comercial (Lei nº 9.019/95), o que permitiria a imposição de tarifas equivalentes contra produtos norte-americanos.
Mais do que proteger o setor do aço, o gesto reposiciona o Brasil como um ator disposto a defender sua autonomia econômica — algo que Bolsonaro, na prática, abdicou em favor de um alinhamento ideológico internacional. “Não existe patriotismo sem soberania”, resume o cientista político Christian Lynch, da UERJ, autor de A Constituição de 1988 na História Brasileira.
Uma cena política em frangalhos
O quadro político brasileiro, nesse contexto, adquire contornos quase psicanalíticos. Enquanto o Supremo Tribunal Federal julga militares e assessores envolvidos na tentativa de golpe, Bolsonaro se isola em suas mágoas, sem forças para responder nem aos ataques de Trump, nem ao avanço do governo Lula sobre seu eleitorado desgastado.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas — peça-chave no tabuleiro da direita para 2026 —, hesita entre defender os industriais paulistas ou manter fidelidade ao bolsonarismo. A dubiedade torna-se sintoma do impasse da direita: entre a razão econômica e a herança ideológica, muitos preferem o silêncio.
A ruptura entre Trump e Bolsonaro não é apenas um episódio isolado. Ela evidencia a falência de uma estratégia que subordinou os interesses nacionais à geopolítica da extrema direita internacional. Ao transformar o Brasil em satélite de uma agenda estrangeira, Bolsonaro traiu não apenas seu eleitorado, mas o próprio país — como bem notou Hannah Arendt em Sobre a Revolução, “a traição não acontece apenas quando se abandona o outro, mas também quando se abandona um princípio”.
O “patriotismo” bolsonarista, outrora martelado em lives, motociatas e slogans, agora se revela um discurso de ocasião — vulnerável, frágil e exposto pela realidade.
Bolsonarismo em crise com tarifa de Trump
A taxação de 50% sobre produtos de aço brasileiros desencadeou uma disputa interna no campo bolsonarista, dividindo aliados e expondo, mais uma vez, a fragilidade de uma retórica que por anos se apoiou em um patriotismo de ocasião. Na ausência de um discurso coerente diante da ofensiva econômica de um antigo ídolo da extrema direita brasileira, sobrou confusão, revanchismo institucional e apelos desesperados por anistia política. No centro do impasse, revela-se uma verdade desconfortável: a aliança entre Bolsonaro e Trump talvez nunca tenha sido sobre o Brasil.
A reação bolsonarista ao anúncio da tarifa não foi unívoca — tampouco racional. Enquanto o Partido Liberal e seus parlamentares mais ativos nas redes sociais, como Sóstenes Cavalcante, Bia Kicis e Nikolas Ferreira, passaram a carimbar a medida como “tarifa do Lula”, Eduardo e Flávio Bolsonaro miraram o Supremo Tribunal Federal, em especial o ministro Alexandre de Moraes. Para Eduardo, o tarifaço seria uma resposta direta às ações do STF contra o bolsonarismo. Em entrevista à Revista Oeste, o deputado chegou a propor uma “anistia ampla, geral e irrestrita” como gesto político ao governo americano, argumentando que isso abriria caminho para o diálogo entre Brasil e EUA.
A ideia soa tão inusitada quanto reveladora: usar uma sanção econômica imposta por uma potência estrangeira como argumento para pressionar o Judiciário nacional a recuar diante de crimes contra a democracia. Como afirmou o jurista Oscar Vilhena Vieira, professor da FGV-SP, “o ataque ao Supremo tem sido um recurso reiterado da extrema direita brasileira para minar a institucionalidade democrática” (Folha de S.Paulo, 11/05/2024).
Governadores conservadores divergem dos Bolsonaro
O impasse também atingiu possíveis herdeiros do bolsonarismo. Governadores como Tarcísio de Freitas (SP), Ronaldo Caiado (GO) e Romeu Zema (MG) optaram por responsabilizar o governo Lula, mas, com nuances. Tarcísio acusou o presidente de “ideologizar a diplomacia” e de romper laços com “o maior investidor direto no Brasil”. Caiado foi mais longe ao sugerir uma comissão parlamentar para dialogar com o governo Trump, enquanto Zema, em um raro movimento de ambiguidade, acabou reconhecendo a injustiça da medida americana.
A dissonância indica algo mais profundo: o bolsonarismo como força política vive hoje uma fase de desorientação estratégica. Entre a lealdade à memória do ex-presidente e a necessidade de construir um discurso político viável para 2026, seus principais quadros se veem em um dilema que remete à velha máxima de Norberto Bobbio: “o dilema do político moderno é entre coerência e eficácia”.
Nacionalismo seletivo e dependência externa
A ironia central do episódio reside na inversão de papéis: é o ex-presidente Lula quem hoje adota um discurso nacionalista e de soberania, enquanto os bolsonaristas defendem, de forma implícita ou explícita, a submissão do Brasil às condições impostas por Washington. Em nota oficial, Lula declarou: “O Brasil é um país soberano com instituições independentes que não aceitará ser tutelado por ninguém”. Reforçou ainda que usará a Lei de Reciprocidade Comercial caso as tarifas entrem em vigor — uma postura alinhada ao interesse nacional, independentemente do espectro ideológico.
Ao mesmo tempo, Bolsonaro publicou uma nota lacônica 24 horas após o anúncio de Trump, reafirmando seu “respeito e admiração” pelo governo americano. Nenhuma crítica à tarifa. Nenhuma defesa da indústria brasileira. A retórica patriótica que marcou suas campanhas — “Brasil acima de tudo” — evaporou-se diante da realidade geopolítica.
Como observou o cientista político Gaspard Estrada, da Sciences Po, “o populismo autoritário tem dificuldade em lidar com contradições internacionais, porque constrói sua base na lealdade pessoal, não em projetos nacionais”.
O risco da chantagem institucional
A proposta de Eduardo Bolsonaro de condicionar uma “sinalização” ao STF para destravar as negociações comerciais com os EUA acende um alerta grave: a tentativa de instrumentalizar uma crise econômica externa para alcançar vantagens jurídicas no plano doméstico. Esse tipo de chantagem institucional — ainda que simbólica — fere o princípio da separação entre os Poderes e desvirtua completamente o papel do Legislativo em uma democracia.
O uso político da crise também sinaliza a perda de qualquer agenda positiva dentro do bolsonarismo. Em vez de defender setores produtivos, propõe-se blindar culpados. Em vez de negociar com soberania, sugere-se concessões humilhantes. O preço dessa inversão de valores é pago pelo país, por trabalhadores e empresários do setor de aço, que respondem por mais de 110 mil empregos diretos e 300 mil indiretos no Brasil, segundo dados do Instituto Aço Brasil (2023).
A crise gerada por Trump revelou aquilo que parte da sociedade já intuía: o nacionalismo bolsonarista sempre foi performático, calcado em símbolos, mas vazio de compromissos reais com a soberania. Diante do primeiro teste de fogo vindo de fora, desmanchou-se como retórica oca. Mais que um problema de comunicação, trata-se de uma falência ideológica.
Como escreveu o filósofo Michael Sandel, “a verdadeira fidelidade a uma nação exige mais do que slogans; exige justiça, verdade e responsabilidade” (Justice: What’s the Right Thing to Do?, 2009). O bolsonarismo, hoje, não oferece nenhuma dessas três.
Tarifa de Trump ameaça empregos e enfraquece economia brasileira
O tarifaço de Trump vai muito além de um gesto diplomático hostil. Um estudo inédito do grupo Nemea-Cedeplar, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), revela que o impacto econômico será profundo: o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro poderá sofrer uma retração de R$ 19,2 bilhões, com perdas de exportações superiores a R$ 52 bilhões e a eliminação de cerca de 110 mil postos de trabalho. Os dados escancaram não só os riscos econômicos da dependência comercial do Brasil com os Estados Unidos, mas também o custo político de alianças ideológicas frágeis e contraditórias.
O impacto das tarifas será assimétrico entre estados e setores. São Paulo lidera a lista dos mais afetados, com perda estimada de R$ 4,4 bilhões em sua economia — reflexo direto de sua posição de destaque na indústria de base e na exportação de maquinário. Também aparecem na lista Rio Grande do Sul (R$ 1,9 bi), Paraná (R$ 1,9 bi), Santa Catarina (R$ 1,74 bi) e Minas Gerais (R$ 1,66 bi), estados onde os setores agropecuário e industrial são fundamentais para o emprego e a geração de renda.
As exportações de tratores e outras máquinas agrícolas deverão cair -23,61%, afetando não apenas a balança comercial, mas a cadeia de produção nacional. O mesmo se aplica à indústria aeronáutica, com redução projetada de -22,33% nas exportações e -9,19% na produção — uma ameaça direta a polos como São José dos Campos. O setor de carnes (aves e suínos) também será duramente atingido, com quedas superiores a -11% nas vendas externas e recuos produtivos significativos.
O estudo ainda destaca a vulnerabilidade do setor têxtil, com quedas nas exportações de tecidos, fibras e artigos domésticos que variam entre -9,8% e -10,3%. A indústria de minerais metálicos não-ferrosos também sofrerá retração de -6,71% nas exportações e -3,41% na produção.
Impacto social e desemprego: um alerta ignorado
A crise tarifária afeta diretamente a base social do emprego brasileiro. O levantamento da UFMG projeta perdas de 40 mil vagas no setor agropecuário, 31 mil no comércio e 26 mil na indústria. Não se trata, portanto, apenas de um embate entre governos: o impacto se concretiza no cotidiano de trabalhadores, famílias e pequenas empresas que orbitam essas cadeias produtivas.
A retórica de que o Brasil estaria “protegido” por uma aliança com Trump se esfarela diante dos números. O ex-presidente Jair Bolsonaro reiterou sua “admiração” ao governo americano mesmo após o anúncio da tarifa. Nenhuma menção aos impactos sociais. A ausência de reação crítica revela o abismo entre a retórica e os compromissos com a população que se diz representar.
Como escreveu o sociólogo polonês Zygmunt Bauman em Globalização: as consequências humanas (1998), “o poder de agir e o poder de controlar as consequências dessa ação estão agora separados”. A política externa brasileira do bolsonarismo agiu, mas quem pagará a conta são os trabalhadores.
A dimensão internacional do retrocesso
O relatório do Nemea-Cedeplar também considera o impacto global da ofensiva tarifária de Trump, que afeta não apenas o Brasil, mas China, Coreia, Japão e outros 14 países. O PIB mundial pode encolher -0,12%, com redução de 2,1% no comércio internacional — o que representa uma perda de US$ 483 bilhões. Até os Estados Unidos sentirão os efeitos: o estudo estima um recuo de -0,37% no seu PIB. A China, -0,16%.
Esse cenário confirma os alertas de diversos organismos multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), que desde o início da escalada protecionista global, iniciada ainda durante o primeiro governo Trump, vêm advertindo sobre os riscos de um colapso do sistema multilateral. “O protecionismo não protege, apenas empobrece”, afirmou Ngozi Okonjo-Iweala, diretora-geral da OMC, durante conferência em Davos, em 2023.
Soberania econômica e a reação do Brasil
A resposta do governo Lula tem se pautado por um discurso de defesa da soberania nacional. Em nota oficial, o presidente afirmou que o Brasil “não aceitará ser tutelado por ninguém”, prometendo adotar a Lei de Reciprocidade (Lei nº 9.019/1995) contra os EUA caso as tarifas entrem em vigor. A medida, embora simbólica, sinaliza uma postura de resistência diplomática, distinta da subordinação ideológica que marcou o período bolsonarista.
No Congresso, setores mais ligados ao empresariado pressionam por articulações diretas com Washington. No entanto, as propostas de aliados de Bolsonaro, como a anistia em troca de alívio tarifário, soam mais como chantagem institucional do que estratégia diplomática.
O tarifaço de Trump é mais do que um revés econômico. É um ponto de inflexão político. Ele desmascara o erro estratégico de apostar em alianças personalistas no lugar de parcerias institucionais. A dependência excessiva dos EUA, agravada por um alinhamento automático com a extrema direita global, cobra agora seu preço mais alto: perda de empregos, desindustrialização e crise no setor agropecuário.
O que resta ao Brasil é repensar sua inserção no mundo de forma soberana, racional e plural. Não basta gritar “Brasil acima de tudo” se, na prática, os interesses nacionais ficam abaixo da conveniência de outros.
Trump e extrema direita brasileira põe em risco empregos no país
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