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Poder

Trump e Lula redesenharam a relação Brasil–EUA, mas o clima pode esquentar

Tarifas, pressões políticas e divergências geopolíticas marcaram um ano de tensão

Publicado em 20/01/2026 1:59 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Do choque tarifário à reabertura de canais diplomáticos, o primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump à frente dos Estados Unidos expôs uma relação errática com o Brasil, marcada por confrontos públicos, recuos estratégicos e divergências de fundo que permanecem latentes.

Empossado em 20 de janeiro de 2025, Trump iniciou o novo governo adotando um discurso hostil em relação a Brasília. Declarou não “precisar do Brasil”, atacou o Brics pelo debate sobre uma moeda comum e passou a vocalizar apoio explícito ao ex-presidente Jair Bolsonaro, então já alvo de processos judiciais e posteriormente preso em Brasília. A afinidade ideológica com o bolsonarismo rapidamente se traduziu em medidas concretas.

Em julho, a Casa Branca anunciou um pacote de sobretaxas sem precedentes contra produtos brasileiros, abalando uma parceria econômica construída ao longo de mais de dois séculos. As tarifas chegaram a 40% e 50% sobre itens estratégicos da pauta exportadora, como aço, carnes, produtos do agronegócio e bens industriais. O governo americano justificou a decisão com base em uma suposta “emergência econômica” e acusou o Judiciário brasileiro de promover perseguição política contra Bolsonaro.

Nos bastidores, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), que passou a residir nos Estados Unidos no início do ano, foi apontado como interlocutor junto a setores ligados ao trumpismo para pressionar pela adoção das medidas. Publicamente, agradeceu ao presidente americano pela imposição das sobretaxas.

Os efeitos econômicos foram imediatos. Em setembro de 2025, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram até 20% em comparação com o mesmo mês do ano anterior, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. O impacto, contudo, não se restringiu ao Brasil. Nos Estados Unidos, consumidores sentiram a alta de preços, especialmente do café, cujo valor médio subiu mais de 40% nos primeiros nove meses do ano, de acordo com o Bureau of Labor Statistics.

A escalada política atingiu o ápice no mesmo mês de julho, quando Washington aplicou sanções ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, com base na Lei Magnitsky. A medida resultou no bloqueio de bens e ativos e na restrição ao uso de cartões de crédito internacionais pelo magistrado e seus familiares. O governo americano alegou violações de direitos humanos e ataques à liberdade de expressão no Brasil.

Sinais de distensão

A partir de setembro, o cenário começou a se alterar. Poucos dias após a condenação de Bolsonaro pelo STF, um encontro informal entre Trump e Lula, nos corredores da sede da ONU, em Nova York, funcionou como gesto inaugural de distensão. Em discurso na Assembleia Geral, o presidente americano chegou a elogiar o brasileiro — “gostei dele” — logo depois de ter feito críticas ao país na mesma fala.

Semanas depois, os dois líderes tiveram uma reunião formal à margem de compromissos internacionais, abrindo espaço para negociações técnicas entre os ministérios da Fazenda e do Comércio. Sob pressão de empresários americanos preocupados com o impacto inflacionário das tarifas, a Casa Branca iniciou um recuo gradual. Em novembro, a maior parte das sobretaxas foi suspensa ou praticamente zerada, com exceções ampliadas para produtos como carne bovina, café, suco de laranja e aeronaves.

Em dezembro, Lula afirmou que a relação havia entrado em um momento de normalização. Disse não haver “razão para divergências” e destacou a diferença entre o Trump do discurso público e o do contato pessoal, que classificou como mais cordial.

A prisão de Bolsonaro, em 22 de novembro, determinada por Alexandre de Moraes por risco de fuga e violação de tornozeleira eletrônica, gerou reação contida da Casa Branca. Trump limitou-se a comentar que a situação era “uma pena”. Pouco depois, em 12 de dezembro, o governo americano revogou as sanções impostas ao ministro do STF e a sua esposa, retirando-os da lista da Lei Magnitsky. Segundo Lula, a reversão atendeu a um pedido direto feito ao presidente americano.

Divergências persistentes

A reaproximação, porém, não significou alinhamento automático. No fim do ano, os Estados Unidos convidaram o Brasil a integrar um conselho internacional voltado à mediação de conflitos globais, incluindo a guerra na Faixa de Gaza. A iniciativa, que reúne líderes de cerca de 60 países, é vista por críticos como uma estrutura paralela à ONU, e Brasília ainda avalia se participará.

As diferenças ficaram evidentes após a intervenção militar americana na Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro. Lula criticou a operação em artigo publicado no The New York Times, classificando o uso da força como “particularmente preocupante” e defendendo que o Hemisfério Ocidental “pertence a todos”. Na Organização dos Estados Americanos, o Brasil foi além e descreveu a ação como sequestro.

No plano retórico, Lula voltou a alfinetar Trump ao afirmar que o presidente americano tenta “governar o mundo pelo Twitter” — referência ao hábito de anunciar posições por meio de sua própria rede social. O comentário ilustrou a distância entre o tom cordial do diálogo bilateral e as críticas públicas de parte a parte.

A resposta brasileira ganhou densidade conceitual em artigo do assessor especial da Presidência, Celso Amorim, publicado na revista The Economist. O ex-chanceler avaliou que a intervenção na Venezuela rompeu a percepção de que a América do Sul permaneceria como uma zona de paz e comparou as imagens da captura de Maduro às de Saddam Hussein, em 2003. Para Amorim, o episódio simboliza um mundo em que regras do direito internacional estão sendo corroídas, aumentando a imprevisibilidade e o recurso à força como instrumento legítimo de mudança.

Nesse contexto, o diplomata defendeu o multilateralismo como eixo da política externa brasileira, citando o acordo entre Mercosul e União Europeia e a necessidade de reformar instituições internacionais. Reafirmou ainda o compromisso histórico do país com a não intervenção, a solução pacífica de controvérsias e o uso exclusivamente pacífico da energia nuclear.

Realidades paralelas

Enquanto Brasília e Washington ensaiam uma convivência pragmática no plano diplomático, a política migratória americana segue produzindo efeitos duros. Em 2025, o governo Trump enviou 37 voos de deportados ao Brasil, totalizando cerca de 3.200 pessoas, quase o dobro do registrado em 2024, segundo dados oficiais. A estatística evidencia que, apesar do degelo entre presidentes, a relação concreta entre os dois países continua marcada por assimetrias, tensões e interesses que nem sempre convergem.

 


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