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Poder

Torres guardou de lembrança prova de que governo Bolsonaro planejou golpe

O que diz a minuta do golpe encontrada na casa do ex-ministro da Justiça de Bolsonaro?

Publicado em 13/01/2023 9:35 - Tércio Amaral (Congresso em Foco), Leonardo Sakamoto (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação O Antagonista

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A Polícia Federal (PF) encontrou na casa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres uma minuta, que é uma proposta de decreto antes da publicação, para que o então presidente Jair Bolsonaro (PL) instaurasse um estado de defesa na sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O objetivo da ação era reverter o resultado do segundo turno da eleição presidencial em que o presidente Lula (PT) foi o vencedor.

Segundo a Folha de S. Paulo, o documento foi encontrado no armário do ex-ministro durante a busca e apreensão realizada na última terça-feira (10). A PF ainda investiga as circunstâncias da elaboração da minuta, considerada inconstitucional por representar uma interferência indevida do Executivo na Justiça eleitoral.

Anderson, que tem contra si um mandado de prisão e está nos Estados Unidos, nega ser o autor da proposta e diz que o texto seria triturado. O ex-ministro da Justiça é acusado de ter acobertado os atos golpistas do último domingo no Distrito Federal, onde havia assumido a Secretaria de Segurança Pública. Ele pode desembarcar no país ainda nesta sexta-feira para se entregar às autoridades policiais.

A minuta foi elaborada após a realização das eleições. O documento previa a investigação de casos de abuso de poder, suspeição de medidas ilegais da presidência do TSE antes, durante e depois do processo eleitoral. Fontes ouvidas pelo jornal dizem que o documento cita o “reestabelecimento imediato da lisura e correção da eleição de 2022”.

Veja a íntegra da minuta:

“O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso de suas atribuições que lhe conferem os artigos 84, inciso IX, 136, 140 e 141 da Constituição,
DECRETA:

Art. 1° Fica decretado, com fundamento nos arts. 136, 140, 141 e 84, inciso IX, da Constituição Federal, o Estado de Defesa na sede do Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília, Distrito Federal, com o objetivo de garantir a preservação ou o pronto restabelecimento da lisura e correção do processo eleitoral presidencial do ano de 2022, no que pertine à sua conformidade e legalidade, as quais, uma vez descumpridas ou não observadas, representam grave ameaça à ordem pública e a paz social.

  • 1°. Fica estipulado o prazo de 30 (trinta) dias para cumprimento da ordem estabelecida no caput, a partir da data de publicação deste Decreto, podendo ser prorrogado uma única vez, por igual período.
  • 2°. Entende-se como sede do Tribunal Superior Eleitoral todas as dependências onde houve tramitação de documentos, petições e decisões acerca do processo eleitoral presidencial de 2022, bem como o tratamento de dados telemáticos específicos de registro, contabilização e apuração dos votos coletados por urnas eletrônicas em todas as zonas e seções disponibilizadas em território nacional e no exterior.
  • 3°. Verificada a existência de indícios materiais que interfiram no objetivo previsto no caput do art. 1° a medida poderá ser estendida às sedes dos Tribunais Regionais Eleitorais.

Art. 2° Na vigência do Estado de Defesa ficam suspensos os seguintes direitos:

I – sigilo de correspondência e de comunicação telemática e telefônica dos membros do Tribunal do Superior Eleitoral, durante o período que compreende o processo eleitoral até a diplomação do presidente e vice-presidente eleitos, ocorrida no dia 12.12.2022.

II – de acesso às dependências do Tribunal Superior Eleitoral e demais unidades, em caso de necessidade, conforme previsão contida no §3º. do art. 1°.

  • 1°. Durante o Estado de Defesa, o acesso às dependências do Tribunal Superior Eleitoral será regulamentado por ato do Presidente da Comissão de Regularidade Eleitoral, assim como a convocação de servidores públicos e colaboradores que possam contribuir com conhecimento técnico.

Art. 3° Na vigência do Estado de Defesa:

I – Qualquer decisão judicial direcionada a impedir ou retardar os trabalhos da Comissão de Regularidade Eleitoral terá seus efeitos suspensos até a finalização do prazo estipulado no $1°, art. 19,

II – a prisão por crime contra o Estado, determinada pelo executor da medida, será por este comunicada imediatamente ao juiz competente, que poderá promover o relaxamento, em caso de comprovada ilegalidade, facultado ao preso o requerimento de exame de corpo de delito à autoridade policial competente;

III – a comunicação será acompanhada de declaração, pela autoridade, do estado físico e mental do detido no momento de sua autuação;

IV – a prisão ou detenção de qualquer pessoa não poderá ser superior a dez dias, salvo quando autorizada pelo Poder Judiciário;

V – é vedada a incomunicabilidade do preso.

Parágrafo único. O Presidente da Comissão de Regularidade Eleitoral constituirse-á como executor da medida prevista no inciso I, do $3° do art. 136, da Constituição Federal.

Art. 4º A apuração da conformidade e legalidade do processo eleitoral será conduzida pela Comissão de Regularidade Eleitoral a ser constituída após a publicação deste Decreto, que apresentará relatório finai consolidaria conclusivo acerca do objetivo previsto no caput do art. 19.

Art. 5° A Comissão de Regularidade Eleitoral será composta por:

I – 08 (oito) membros do Ministério da Defesa, incluindo a Presidência;

II – 02 (dois) membros do Ministério Público Federal;

III – 02 (dois) membros da Polícia Federal, ocupantes do cargo de Perito Criminal Federal;

IV – 01 (um) membro do Senado Federal;

V – 01(um) membro da Câmara dos Deputados;

VI – 01(um) membro do Tribunal de Contas da União;

VII – 01 (um) membro da Advocacia Geral da União; e,

VIII – 01 (um) membro da Controladoria Geral da União.

Parágrafo único. À exceção das autoridades constantes do inciso I, cuja indicação caberá ao Ministro da Defesa, as indicações dos membros dos órgãos e instituições que integrarão a Comissão de Regularidade Eleitoral deverão ser feitas em até 24 (vinte e quatro) horas após a publicação deste Decreto no Diário Oficial da União, devendo as designações serem formalizadas em ato do Presidente da Comissão de Regularidade Eleitoral.

Art. 6°. Serão convidados a participar do processo de análise do objeto deste Decreto, quando da apresentação do relatório final consolidado, as seguintes entidades:

I – 01 (um) Integrante da Ordem dos Advogados do Brasil

II – 01 (um) representante da Organização das Nações Unidas no Brasil

III – 01 (um) representante da Organização dos Estados Americanos no Brasil (Avaliar a pertinência da manutenção deste dispositivo na proposta)

Art. 70. O relatório consolidado final será apresentado ao Presidente da República e aos Presidentes do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça, do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, e deverá conter, obrigatoriamente:

I – apresentação do objeto em apuração

II – a metodologia utilizada nos trabalhos

III – as contribuições técnicas recebidas

IV – as eventuais manifestações dos membros componentes

V – as medidas aplicadas durante o Estado de Defesa, com as devidas justificativas

VI – o material probatório analisado

VII – a relação nominal de eventuais envolvidos e os desvios de conduta ou atos criminosos verificados, de forma individualizada.

Parágrafo único. A íntegra do relatório final consolidado será publicada no Diário Oficial da União.

Art. 8° Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, de de 2022. 201° ano da Independência 134º ano da República
Jair Messias Bolsonaro”

Cerco a Alexandre de Moraes

O TSE é presidido pelo ministro Alexandre de Moraes, alvo constante de ataques de Jair Bolsonaro. Previsto no artigo 136 da Constituição, o estado de defesa tem como objetivo “preservar ou prontamente restabelecer, em locais restritos e determinados, a ordem pública ou a paz social ameaçadas por grave e iminente instabilidade institucional ou atingidas por calamidades de grandes proporções na natureza”.

De acordo com a Constituição, o presidente da República pode decretar estado de defesa para “preservar ou prontamente restabelecer, em locais restritos e determinados, a ordem pública ou a paz social ameaçadas por grave e iminente instabilidade institucional ou atingidas por calamidades de grandes proporções na natureza”.

Pelas regras, antes de publicar o decreto, o presidente precisa ouvir o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional. Ao contrário do estado de Sítio, em que o Congresso autoriza, o Estado de Defesa não depende de autorização. Fica sujeito, porém, à ratificação do Congresso. O ato deve ser enviado ao Congresso em 24 horas, e a maioria absoluta dos parlamentares precisa aprová-lo.

O documento apreendido previa a criação de uma comissão responsável por fazer a “apuração da conformidade e legalidade do processo eleitoral” vencido pelo presidente Lula. Também estabelecia as quebras dos “sigilos de correspondência e de comunicação telemática e telefônica” dos membros do TSE durante todo o processo eleitoral.

O estado de defesa se limitaria à sede do TSE, incluindo todas as dependências onde houve “tramitação de documento, petições e decisões acerca do processo eleitoral presidencial de 2022, bem como o tratamento de dados telemáticos específicos de registro, contabilização e apurações dos votos coletados por urnas eletrônicas em todas as zonas e seções disponibilizadas em território nacional e no exterior”.

Comando de militares

Caberia à Comissão de Regularidade Eleitoral a elaboração de um relatório final e o apontamento de irregularidades nas eleições. Pela minuta, o órgão seria composto por oito integrantes do Ministério da Defesa (que indicaria a presidência), dois membros do Ministério Público Federal, dois peritos criminais federais, dois representantes do Congresso Nacional (um da Câmara e outro do Senado), um membro do Tribunal de Contas da União e um da Controladoria-Geral da União.

A minuta prevê ainda convite a integrantes da Ordem dos Advogados do Brasil, da Organização das Nações Unidas e da Organização dos Estados Americanos para participar do processo de análise, a partir da apresentação do relatório final consolidado.
Anderson Torres: documento seria “triturado”

O ex-ministro da Justiça Anderson Torres, disse, pelo Twitter, que havia em sua casa uma pilha de documentos para descarte. A minuta golpista, segundo ele, teria sido encontrada pela PF entre esses documentos. “Tudo seria levado para ser triturado oportunamente no MJSP [Ministério da Justiça e Segurança Pública]. O citado documento foi apanhado quando eu não estava lá”.

“No cargo de ministro da Justiça, nos deparamos com audiências, sugestões e propostas dos mais diversos tipos. Cabe a quem ocupa tal posição, o discernimento de entender o que efetivamente contribui para o Brasil”, justificou Anderson.

“Fora de contexto”

Aliado do ex-presidente Bolsonaro, que contestou durante todo o mandato o sistema eleitoral brasileiro, Anderson disse que o documento foi vazado fora de contexto, ajudando a alimentar narrativas, segundo ele, falaciosas. “Fomos o primeiro ministério a entregar os relatórios de gestão para a transição. Respeito a democracia brasileira. Tenho minha consciência tranquila quanto à minha atuação como ministro”, completou.

O atual ministro da Justiça, Flávio Dino, disse que não cabe a ele julgar o ex-ministro sobre seus atos. Para isso, de acordo com ele, existem a Polícia Federal, o Ministério Público e o Poder Judiciário.

“A única coisa que posso afirmar à população brasileira é que se um dia alguém me entregar um documento como este será preso em flagrante porque se trata de um documento criminoso. É um crime contra o Estado Democrático Brasileiro”, afirmou o ministro.

Torres guardou de lembrança prova de que governo Bolsonaro planejou golpe

Se burrice fosse crime previsto no Código Penal, Anderson Torres, ex-ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, certamente pegaria uma cana longa por conta disso. Afinal, poucas pessoas politicamente visadas manteriam guardadas em seu armário evidências de que o governo do antigo chefe planejou dar um golpe de Estado.

A investigação da PF precisa indicar como a peça golpista foi feita. Surgiu a pedido de Jair ou foi coisa voluntarista de um dos geniais assessores que o rodeavam? Outra pergunta: se ela não foi coisa do núcleo do governo, por que ficou guardada no armário? A justificativa de que estava esperando ser descartada, dada por Torres, é um ultraje à inteligência. Ao receber uma proposta desse tipo, no mínimo, o ministro teria que jogá-la fora ou, de preferência, entregá-la à polícia – coisa que ele não fez.

A questão é que a proposta não parecer ser alienígena, mas vai ao encontro da narrativa do então presidente, que sistematicamente atacou o TSE e seus ministros por não se dobrarem às suas necessidades eleitorais.

Anderson Torres assumiu o cargo de secretário de Segurança Pública do Distrito Federal na virada do ano. Na semana passada, mudou o esquema de segurança na capital federal e viajou para os Estados Unidos.

O colunista do UOL, Tales Faria, apontou que ele teria se encontrado com Jair Bolsonaro, que está em um auto-exílio em Orlando, na Flórida, um dia antes de uma horda de golpistas bolsonaristas praticar atos terroristas em Brasília.

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, apontou que as mudanças e omissões de Torres contribuíram para que a PM do DF permitisse a invasão, depredação e pilhagem do Congresso, do Palácio do Planalto e do STF. Por isso, decretou sua prisão provisória.

O mais bizarro não é constatar que o governo Bolsonaro tenha pensado em saídas para um golpe, pois ele avisou que faria isso. Mas que, mesmo após a posse de Lula, Jair, Torres e sua trupe continuem tentando provocar o caos no Brasil a fim de derrubar o Estado democrático de Direito. E ainda estejam soltos.

Ponto final na carreira política de Bolsonaro. Já vai tarde

Oito entre os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal concordam: o documento apreendido pela Polícia Federal na casa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres é a marca de batom que faltava na cueca de Bolsonaro. Junto com outros indícios e provas, deverá resultar na cassação dos direitos políticos dele.

Dois ministros votarão contra – os bolsonaristas André (terrivelmente evangélico) Mendonça e Kássio Nunes Marques. A ministra Rosa Weber, presidente do tribunal, não diz o que pensa a respeito nem aos seus colegas de maior confiança. Ela só fala nos autos. Mas costuma acompanhar a maioria.

Está aí o que Bolsonaro queria dizer ao repetir que sempre jogou e que continuaria jogando “dentro das quatro linhas da Constituição”. O documento sugere que ele pretendia decretar o chamado Estado de Defesa na sede do Tribunal Superior Eleitoral para anular o resultado da eleição ganha por Lula.

Seria uma medida inconstitucional, e por isso um ato de força que se adotado acabaria com a democracia no país, dando lugar a um regime autoritário. Só seria possível por meio de um golpe. Ele não contaria para isso com o apoio dos presidentes da Câmara, do Senado e da maioria dos partidos, mas, é daí?

Parte do Alto Comando das Forças Armadas o apoiaria, alguns dos milhões de brasileiros que votaram nele também, fora os bolsonaristas ensandecidos que encontraram abrigo à porta de quartéis. O 8 de janeiro foi a tentativa desesperada de Bolsonaro de dar o golpe que preferiu assistir de longe.

Se Lula tivesse convocado o Exército para conter a fúria dos que invadiram o Planalto e os prédios do Congresso e do Supremo, o poder estaria nas mãos dos generais que conspiram contra ele. Lula decretou intervenção no Distrito Federal, o Supremo afastou o governador Ibaneis Rocha, e o golpe perdeu força.

Não quer dizer que o perigo passou – ainda está longe disso. O país uniu-se em torno do novo governo, menos pelo governo e mais em defesa da democracia ameaçada. Algo como 93% dos brasileiros condenaram o golpe, segundo pesquisa Datafolha divulgada ontem. A impunidade não vingará desta vez. Sem anistia.

Torres será preso tão logo volte. Bolsonaro não poderá ficar nos Estados Unidos por muito tempo. Se pedir asilo no México, talvez consiga. O México tem tradição de dar asilo a quem pede. Se voltar ao Brasil não será preso de imediato. Mas não estará livre de ser depois que a poeira baixar.

Hoje é a primeira sexta-feira 13 do ano. Tic,tac,tic.


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