25/04/2024 - Edição 540

Poder

Tony Garcia revela por que decidiu denunciar ‘República de Curitiba’

O ex-deputado divulgou conversas que comprovam atuação como agente infiltrado da Operação Lava Jato

Publicado em 09/06/2023 9:28 - Lucas Vasques e Raphael Sanz (Fórum), RBA, Ivan Longo (Fórum) - Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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O empresário e ex-deputado Tony Garcia, que divulgou conversas que comprovam atuação como “agente infiltrado” da Operação Lava Jato, publicou nas redes sociais os motivos que o levaram a denunciar o ex-juiz Sergio Moro e a “República de Curitiba”.

Garcia se disse traído pelo ex-procurador Deltan Dallagnol. “Pergunta recorrente. Por que você trouxe as denúncias somente agora? Vou tentar ser o mais didático possível ao responder. Toda ação, enseja reação, e foi isso que se deu comigo. Tudo começou em 2018 quando a Força-Tarefa da Lava Jato queria a todo custo uma gravação de um empresário”, disse.

“Esse empresário era presidente de uma empreiteira que foi chantageada pelo chefe de gabinete do então governador Beto Richa, Deonilson Roldo, no gabinete do mesmo ao lado do gabinete do governador no Palácio Iguaçu. Essa gravação foi feita com um celular IPhone 4 de minha propriedade que emprestei ao empresário. Somente eu tinha a gravação onde a higidez da prova era incontestável. Nem mesmo o empresário tinha uma cópia. Em 2013, fui ao MPF onde ficava a Força-Tarefa da Lava Jato”, destacou Garcia.

“Falei com o Carlos Fernando e Januário Paludo sobre a gravação. Disseram não poderem atuar, visto ser o caso de alçada estadual e não federal. Ao saberem do conteúdo me alertaram que ali teria uma linha muito tênue entre o legal e o ilegal sobre minha atuação no caso concreto. Cinco anos após esse encontro, duas operações da Lava Jato em que estava envolvida a Odebrecht, a gravação passou a ser a cereja do bolo para chegarem ao Beto Richa. Deltan, sabendo o conteúdo bombástico da gravação, delegou ao Diogo Castor a missão de ‘caça ao Tony’. Eles tinham conhecimento de que eu havia procurado o Gaeco estadual espontaneamente onde fiz uma denúncia. Essa denúncia gerou um acordo, e o Deltan queria porque queria que eu entregasse a gravação ao Gaeco onde teriam prova ‘emprestada’. Irado, Deltan iniciou a retaliação determinando ao condomínio do prédio onde fica meu escritório a lista de todas as pessoas que acessaram meu andar e imagens de câmaras do mesmo. Ele achou que isso me intimidava, mas como nada tinha a me preocupar, ignorei. Impus uma condição para entregar a gravação ao MPF. Teriam que anuir em meu acordo com o Gaeco. Desesperado para ser protagonista na prisão do Beto e dos dois maiores empresários do Paraná, Deltan concordou e meu advogado foi ao MPF entregar a gravação mediante anuírem. Foi recebido por Deltan, Carlos Fernando, Januário Paludo e Diogo Castor. Deltan se dirigiu ao meu advogado dizendo que ele poderia ‘confiscar’ o pen drive e não assinar nada. Foi contido pelo Carlos Fernando por se tratar de um incidente grave que poderia anular a prova. Deltan, após prender o Beto, determinou que outro procurador pedisse a quebra de meu acordo já transitado em julgado em 2008 como forma de retaliação por tê-lo enfrentado. A soberba e a vaidade fizeram com que cometesse esse ato de deslealdade me proporcionando a reação”, revelou o empresário.

“Nada fiz senão me defender”, diz Garcia

“Se não estivesse tão embriagado pela notoriedade repentina e soberba desmedida, não teria comprometido tanta gente como a Gabriela Hardt, Moro e desembargadores do TRF-4 nessa empreitada tresloucada por vingança pessoal. Pode com isso ter prejudicado a carreira de muitos. Espero ter atendido aos pedidos para detalhar minha conduta. Nada fiz senão me defender dos métodos da Guantánamo da República de Curitiba, e da Câmara de gás do TRF-4 lavajatista. Agora, em foro isento e apropriado, estou liberto para trazer luz onde só há escuridão. Tic tac tic tac”, acrescentou Garcia.

Confira o diálogo

19:48:04 Athayde Discussao: colaborador vai ligar para o investigado e perguntar sobre documentos q seriam produzidos para lastrear contrato ficticio. A gravacao da ligacao seria autorizada judicialmente e operada na sede da PF. Seria flagrante preparado/esperado? Teriamos problemas com essa prova?

19:48:27 Paulo Na PF

19:54:04 Ok

20:17:40 Januario Paludo Athayde. 2005 fizemos várias escutas ambientais a partir do escritório do colaborador (operação tnt). Colaborador marcava reunião e a conversa fluía sem provocação direta. Não anularam. Teria que recuperar a jurisprudência. O colaborador era o tony Garcia.

21:08:20 Athayde Excelente. A medida ja foi deferida… Heheh

Supremo intervém

Ontem, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a suspensão dos processos envolvendo Tony Garcia na 13ª Vara Federal de Curitiba e no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4). Além disso, solicitou cópias integrais de todas as ações em que Garcia esteja envolvido como parte, testemunha ou investigado. Do mesmo modo, o ministro ainda proibiu o tribunal paranaense de fazer qualquer manifestação nos autos do processo, inclusive aquelas de caráter urgente.

“Eles me amarraram nesse acordo durante dez anos. Eles ficaram me usando para obter informações, usaram informações para perseguir o PT, eles usaram da minha amizade com o Eduardo Cunha para eu colher informações de operadores do PT, operadores da Petrobras, operadores do Zé Dirceu, de tudo, eles queriam pegar tudo”, disse o ex-deputado, em entrevista à CNN Brasil.

Juiz Appio aciona CNJ

O juiz Eduardo Appio acionou o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para suspender a liminar que o afastou da 13ª Vara Federal de Curitiba, e consequentemente da chefia da Operação Lava Jato, no último dia 22 de maio. A argumentação endereçada ao corregedor-geral de Justiça Luis Felipe Salomão está fundamentada nas denúncias de Tony Garcia.

O afastamento de Appio se deu no âmbito de uma apuração do TRF-4 a respeito de uma suposta ameaça feita a Marcelo Malucelli. A denúncia aponta que Appio teria telefonado a João Eduardo Malucelli, passando-se por outra pessoa e pedindo informações a respeito de Marcelo. João Eduardo é filho de Marcelo, além de sócio e genro de Sergio e Rosângela Moro.

Por sua vez, Appio nega as acusações e um laudo da Universidade Federal de São Carlos apontou no início desta semana que não é possível afirmar que a voz da ligação em questão seja a do juiz. A gravação foi a principal prova analisada pelo TRF-4 para afastar Appio.

De acordo com a defesa, o juiz teria sido afastado do cargo não por ter praticado alguma infração disciplinar, mas justamente por não ser o nome pretendido pela ‘República de Curitiba’ como o substituto de Moro na vara.

“O peticionário [Appio] não foi, de longe, aquele desejado. Era preciso eliminar o contraponto. E isso ocorreu através do exercício de um dever-poder disciplinar enviesado em sua finalidade”, escreveu a defesa. No mesmo pedido, a defesa também alegou que o TRF-4 não reúne as “condições necessárias para promover o devido processo legal, bem como o julgamento justo” de Appio.

Dallagnol sofre nova derrota e é condenado pelo STJ a pagar quase R$ 3 milhões

O ex-deputado Deltan Dallagnol, cassado por unanimidade pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sofreu um novo revés na quarta-feira (7). O Superior Tribunal de Justiça (STJ), por 6 votos a 5, decidiu manter condenação imposta contra ele pelo Tribunal de Contas da União (TCU) no caso que ficou conhecido como “farra das diárias e passagens”.

Dallagnol, quando era procurador e coordenador da força-tarefa da Lava Jato, torrou R$ 2,8 milhões em diárias e passagens aéreas destinadas a ele e a outros procuradores da operação. Em 2022, o TCU entendeu que o modelo adotado pela “República de Curitiba” foi antieconômico e gerou prejuízo astronômico à União, condenado o ex-“xerife” da “República de Curitiba” a ressarcir os cofres públicos.

A Justiça Federal em Curitiba, entretanto, atendeu a um recurso protocolado por Dallagnol contra a decisão do TCU e o caso foi parar no STJ, que negou a apelação do ex-procurador e manteve a condenação para que ele devolva quase R$ 3 milhões.

Antes da decisão do STJ mantendo a condenação do TCU contra Dallagnol, o ex-procurador já vinha sofrendo uma sequência de derrotas.

Em maio, Dallagnol teve seu mandato de deputado cassado por unanimidade em julgamento do TSE por pedir exoneração do Ministério Público Federal (MPF) para não ser alvo de processo administrativo iminente e, assim, poder se candidatar a uma vaga na Câmara. Depois, passou a ser alvo de inquérito por ataques ao TSE e teve que prestar depoimento à Polícia Federal.

Já na terça-feira (6), teve suas tentativas de reverter a decisão da Justiça Eleitoral derrotadas pela Mesa Diretora da Câmara, que confirmou a cassação.

Na quarta-feira (7), finalmente, perdeu sua última chance de retomar o mandato: o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou recurso da defesa do ex-deputado e sacramentou sua perda de mandato.


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