01/03/2024 - Edição 525

Poder

Terra Plana: extrema direita tenta colocar o 8 de Janeiro no colo de Lula

CPI do Golpe servirá para que o governo teste sua força no Congresso

Publicado em 20/04/2023 8:50 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL), DW, Paulo Donizetti de Souza (RBA), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Foto: José Cruz/Agência Brasil

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Para se defender dos atos golpistas de 8 de janeiro, a extrema direita tem usado a tática de culpar a vítima pelo ocorrido. Passou a vender a falsa ideia de que a destruição do Palácio do Planalto, do Congresso e do STF foi coisa de infiltrados de Lula. Ou seja, o principal alvo dos ataques planejou uma ação contra si mesmo, que poderia tornar ingovernável o país.

Há um longo trabalho da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República e do Supremo Tribunal Federal para descobrir quem foram os responsáveis por executar, financiar, incitar e planejar o terrorismo naquele dia. E o cerco vai se fechando para não para cima de Luiz, mas de Jair. Além disso, centenas de presos que passaram pela Papuda e pela Colmeia por atentarem contra a democracia não negam quem era seu “mito”.

As imagens divulgadas pela CNN do agora ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Gonçalves Dias, e de servidores do GSI orientando golpistas que invadiram o Palácio do Planalto a saírem não mudam essa realidade. O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) ainda era território bolsonarista e o general pouco conseguiu mudar isso. Essa incapacidade de controlar a própria tropa é uma das razões que levou Lula a aceitar sua demissão.

O governo Lula errou feio por não ter revelado as imagens com Gonçalves Dias e informado o que o ministro estava fazendo por lá no 8 de janeiro logo após a invasão do Planalto. O GSI não disponibilizou os vídeos para o gabinete de Lula? Que se demitisse os responsáveis, incluindo o ministro. Essa falha permitiu à extrema direita tentar colar no vídeo a interpretação que desejavam.

Ao mesmo tempo, a estratégia da base do governo no Congresso de evitar a CPI do Golpe mostrou-se equivocada. Quem tentou dar um golpe foram os bolsonaristas, não o campo democrático. Mas o campo democrático ficou acuado por semanas pelos bolsonaristas, tentando evitar uma investigação que pode reforçar à sociedade quem agiu para atropelar as eleições. O governo deveria buscar a presidência e a relatoria da comissão e não evitar que ela fosse instalada.

Vai ser um show de horrores? Vai, porque essa é a intenção de parte da oposição, provocar o caos e tentar terceirizar a responsabilidade pelo que aconteceu. Mas há montanhas de provas coletadas pela PF para apontar Jair e seu bando no meio da coisa toda.

E que se convoque Gonçalves Dias. Ele afirma que, quando chegou, o quebra-quebra já tinha começado e apenas tentou orientar os golpistas para fora do andar do gabinete de Lula. Que prove isso. Mas que também seja chamado o seu antecessor, o general Augusto Heleno, para ser inquirido sobre o GSI que ele gestou. Isso entre outros militares que colaboraram com o 8 de janeiro, dificultando a prisão de golpistas.

O próprio Lula havia dito, quatro dias após os ataques, que houve conivência de servidores públicos. Já vimos imagens do Batalhão da Guarda Presidencial tentando liberar golpistas no Planalto no 8 de janeiro. E também o Comando Militar do Planalto colocando dois blindados na frente do quartel-general do Exército para impedir que a PM entrasse no acampamento golpista a fim de prender criminosos naquela noite.

Com Gonçalves Dias cai o segundo militar em posto-chave do governo desde o início da gestão. O primeiro foi o Comandante do Exército, o general Júlio César de Arruda, também na esteira da perda de confiança pós-ataques. No seu lugar, entrou o general Tomás Ribeiro Paiva, um legalista.

Essa história acende um alerta. Lula precisa depurar o setor de inteligência do governo, que durante os últimos quatro anos se tornou o setor de inteligência do Jair, sob o risco de ver sua gestão sabotada por dentro.

A presença de Ricardo Capelli, secretário-executivo do Ministério da Justiça e ex-interventor na Segurança Pública do Distrito Federal, no papel de interino ajuda nesse sentido. Mas se não tiver carta-branca para agir, crises como essa vão continuar a se repetir.

E sobre a CPI do Golpe, vamos ver se ela servirá para esclarecer pontos, inclusive a responsabilidade direta de Jair Bolsonaro, ou se só vai servir como sabotagem para atrasar a aprovação de medidas econômicas no parlamento, que o Brasil tanto precisa para voltar a crescer.

Edição de vídeo da ‘CNN’ ajuda bolsonarismo a criar narrativa paralela

Com o título “Imagens mostram ação do GSI em ataque aos Três Poderes em 8 de janeiro”, a matéria da CNN Brasil inicia como uma cena em que Gonçalves Dias aparece.

“Este que aparece na imagem é o ministro-chefe do GSI, general Marco Edson Gonçalves Dias. Ele está na ante-sala do gabinete presidencial enquanto há criminosos no local”, diz a locução do repórter Leandro Magalhães.

A edição é conduzida de modo a inferir cumplicidade do general da reserva Gonçalves Dias com o vandalismo. No entanto, a própria imagem mostra a presença do chefe do GSI a partir de 16h29, quando o movimento já era de dispersão da turba que depredou parte do Palácio do Planalto.

A invasão da Praça dos Três Poderes começou às 14h43, pelos prédios do Congresso Nacional. A marcha dos golpistas – que estavam acampados em frente ao QG do Exército desde novembro – começa por volta de 13h. A chegada dos invasores ao Palácio do Planalto ocorre perto das 15h. Mais precisamente, como diz a própria reportagem da CNN, “às 15h01 os criminosos invadem o estacionamento do Palácio do Planalto”.

A reportagem segue mostrando uma série de cenas do vandalismo, mas a ordem cronológica não é progressiva, num vai e vem adequado para a narrativa.

O vídeo da CNN tem seis minutos, mas o trecho em que Gonçalves Dias aparece foi um dos mais recortados e distribuídos nas redes sociais. Depois da cena inicial, a reportagem leva a uma sucessão de recortes do 8 de janeiro em momentos distintos e não sequenciais.

Muitos deles com cenas já públicas, como a “clássica” da destruição do relógio doado a dom João VI. Ou da movimentação externa, colocando sob suspeita o baixo contingente e a pouca resistência policial.

“Coincidência” ou não, estava programada para a tarde de quarta-feira uma sessão da Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados. Havia uma convocação do então ministro Gonçalves Dias, transformada em convite, para “prestar esclarecimentos sobre os ataques ocorridos, em 8 de janeiro, nas sedes dos Três Poderes da República em Brasília”. O ministro não compareceu, alegando questões médicas.

Governo muda estratégia e decide apoiar CPI do 8 de Janeiro

O governo federal decidiu mudar de estratégia e passou a apoiar a abertura da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que visa investigar os ataques às sedes dos três Poderes durante os atos golpistas de 8 de janeiro.

A crise gerada pela divulgação de imagens das câmeras de segurança do Palácio do Planalto, que mostravam o então ministro do GSI, o general Gonçalves Dias, interagindo com os golpistas que invadiram a sede da Presidência, foi decisiva para a mudança no posicionamento dos governistas.

Os parlamentares da base do governo vinham tentando adiar a criação da CPMI, temendo uma forte influência de congressistas bolsonaristas sobre as futuras investigações.

Lideranças do governo avaliam que a oposição vinha conseguindo impor uma narrativa diferente sobre os atos de vandalismo, ao tentar jogar a culpa sobre integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os governistas já avaliavam que a criação da CPMI seria inevitável, depois de a oposição conseguir o apoio de 194 deputados e 37 senadores.

“Vamos para essa investigação e vamos com força. De investigação e comissão de inquérito, nós entendemos. Estamos com vontade de ir para lá, estamos com desejo de ter essa investigação. Se estão obstruindo por essa CPMI, ouçam bem claramente: queremos a investigação”, afirmou o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), líder do governo no Congresso.

“Não fomos os algozes do 8 de janeiro, nós somos as vítimas”, disse Rodrigues, no plenário do Senado.

O líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (PT-CE), disse que o governo anseia por uma investigação “ampla e irrestrita”. “Ninguém brinca com a democracia. Portanto, se o Congresso quiser instalar a CPI, nós estamos prontos para ajudar, inclusive, para investigar”, assegurou.

“Foi o governo que agiu, pediu celeridade, uniu o país e os Poderes para enfrentar a tentativa de golpe. Foi sim uma tentativa de golpe patrocinada”, declarou o petista. Ele acusou os bolsonaristas de serem os responsáveis pelos atos antidemocráticos. “O vídeo [de Dias nos atos golpistas] não encobre nada do que já está na consciência democrática no Brasil.”

Guimarães se reuniu com as lideranças dos partidos da base do governo e de legendas consideradas independentes para definir a nova estratégia.

“Essa CPI não amedronta o governo em nada”, afirmou o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ). “É claro que o governo no começo, eu volto a argumentar, queria estar focado na aprovação das propostas, dos projetos. Nós temos discussão de reforma tributária, nós temos discussão do arcabouço, mas a partir do que aconteceu agora, o que a gente tem que fazer é preparar e ir para ofensiva.”

O deputado disse que a abertura do colegiado “vai ser o maior tiro no pé dessa base bolsonarista, vai ter deputado bolsonarista aqui dentro sendo cassado porque financiaram, porque incitaram, porque organizaram caravanas e isso pode chegar no próprio [ex-presidente Jair] Bolsonaro”.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), deve autorizar a abertura da CPMI em sessão do Congresso na próxima semana.

CPI do Golpe servirá para que o governo teste sua força no Congresso

Pergunta que teima em ser feita: qual GSI da presidência da República foi omisso ou cúmplice no caso do golpe de 8 de janeiro?

O GSI do general Augusto Heleno que apenas há uma semana deixara o cargo inconformado com a derrota do ex-presidente Jair Bolsonaro a quem servira com uma devoção exemplar?

Ou o GSI do general Gonçalves Dias, amigo pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ele ligado há mais de 20 anos, e que apenas há uma semana assumira o cargo que fora de Heleno?

Entre 2003 e 2009, Gonçalves Dias cuidou da segurança pessoal de Lula. No governo Dilma, foi chefe da Coordenadoria de Segurança Institucional, sendo promovido a general.

Voltou a cuidar da segurança de Lula depois que ele foi solto e virou candidato a presidente. Na noite de 30 de outubro último, ao ouvir o anúncio oficial da vitória de Lula, chorou copiosamente.

Lula sabia que Gonçalves Dias esteve no Palácio do Planalto depois que o prédio fora invadido pelos golpistas de 8 de janeiro. Mas nunca vira imagens do general perambulando por lá.

As imagens foram mostradas pela CNN. O general confere se portas do terceiro andar do palácio, onde Lula despacha, estavam ou não trancadas, e orienta invasores a saírem dali.

Ah, dir-se-á que ele não ordenou a prisão de invasores. Como ordenaria? Gonçalves Dias era um general sem tropa. Os poucos agentes do GSI à sua disposição foram escolhidos por Heleno.

Um, de camisa branca, sem farda, até confraternizou com golpistas e deu um copo d’água a um deles. A transição de um governo para o outro foi uma coisa complicada.

O general perdeu o emprego porque alguém teria de pagar pela suspeita, disseminada pelos bolsonaristas, de que o governo Lula facilitou a ação dos golpistas para em seguida incriminá-los.

Não só por isso. Na narrativa construída por bolsonaristas, os invasores que depredaram o Palácio do Planalto, o Congresso e o prédio do Supremo Tribunal Federal eram militantes do PT.

Militantes do PT? Sim, militantes disfarçados de seguidores fiéis de Bolsonaro. Um único invasor dos prédios foi identificado até hoje como militante do PT ou de partidos de esquerda.

O que importa? Nestes tempos estranhos, cada um acredita no que quer. Verdade é uma questão de escolha pessoal. Tanto que golpistas são capazes de defender a criação da CPI do Golpe.

O governo era contra a CPI para não fazer o jogo dos bolsonaristas, e para que ela não atrapalhasse a tramitação dos seus projetos no Congresso. Como a CPI tornou-se inevitável, ele aderiu à ideia.

O grande trunfo dos bolsonaristas, a ser revelado por eles na CPI em momento oportuno, talvez fosse a imagem do general Gonçalves Dias mostrada pela CNN. Quem a vazou?

Assessores de Lula juram que não foi o governo. Se tivesse sido, foi uma jogada inteligente. Tudo indicava que a CPI seria instalada de qualquer forma. É um direito líquido e certo das minorias.

Quando nada, a CPI do Golpe servirá para que o governo teste sua força no Congresso.

Planalto cai de ponta-cabeça na CPI do golpe

Deu-se o inimaginável: de estilingue, o governo Lula conseguiu a proeza de passar à condição de vidraça no caso do 8 de janeiro. O Planalto caiu de ponta-cabeça no centro de uma CPI do Golpe tramada por bolsonaristas que deveriam temer as investigações. Deve-se o paradoxo à divulgação de um vídeo que exibe o general Gonçalves Dias, responsável pela segurança da Presidência, circulando no meio dos invasores da sede do governo.

Em vez de dar voz de prisão aos vândalos golpistas, Gonçalves Dias, velho amigo de Lula, abriu portas e indicou rotas de saída, pela escada, no andar do gabinete presidencial. Lula viu-se compelido a fazer por pressão o que deixou de realizar por opção. Com 101 dias de atraso, empurrou o general que havia acomodado na chefia do GSI, Gabinete de Segurança Institucional, para fora do Planalto pela porta de incêndio.

A CPI que o governo tentava evitar tornou-se incontornável. Lula teve a oportunidade de avalizar uma investigação parlamentar conduzida por seus apoiadores no Senado. Preferiu travar a iniciativa. Agora, terá que se equipar às pressas para lidar com uma CPI mista proposta pelo deputado bolsonarista André Fernandes. Esse parlamentar é um dos investigados no inquérito do Supremo Tribunal Federal sobre o Capitólio brasiliense. É acusado de incentivar a invasão e depredação das sedes dos Três Poderes.

Nas pegadas do 8 de janeiro, Lula havia declarado que as portas do Planalto foram abertas para os invasores. Agora, verifica-se que o próprio presidente ofereceu material para que a oposição invada o seu governo, explorando a mentira segundo a qual a tentativa de golpe foi obra de petistas uniformizados de verde e amarelo para incriminar Bolsonaro.

Em política, todo o mal começa com as explicações. Tudo o que precisa ser explicado não é bom. Revelou-se premonitório um prognóstico feito há mais de três meses pelo senador Renan Calheiros, aliado do governo. Em matéria de CPI, como no futebol, “quem não faz leva.”


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